quarta-feira, janeiro 20, 2010

Batizado (Ou: amor dói) parte 3

Entramos no consultório, eu e seu Ulysses, e ele finalmente explica o que estávamos fazendo lá. Eu tinha o problema, era fimose, e o que que o doutor achava. Explica diretamente para o médico, que eu sou só um eletrodoméstico com defeito.
O médico, gorduchinho de cabelos grisalhos e desgrenhados, vira-se para mim com ar de divertimento, e comenta, "eu não posso achar sem ver, certo?" e a seguir se afasta da mesa, e estende as mãos para mim. "Vem aqui um instantinho, pro titio ver".
Fui, né? Meu pai não era de fazer brincadeira com essas coisas, se eu estava num médico era pra ser medicado. Por assim dizer, claro. Cheguei perto, ele se virou na cadeira para me encarar, e com um sorriso de canto de boca, me olhando de baixo, pediu: "deixa eu ver o piupiuzinho?"
Gostar de exame médico, acho que ninguém gosta. Mas tem que fazer, e até uma criança difícil como eu entendia claramente que é assim que é a vida. Estava acostumado a médicos, por causa do problema de pele que ninguem resolvia. Via os bobos, os chatos, os profissionais. Mas "piupiuzinho"? Aquilo ali, na minha frente, era novo. Novo e horrível. Mas mesmo assim eu abri a bermuda, e pus pra fora o que havia para se por. Que no momento, era o mínimo possível. Eu já tinha visto antes o meu pênis em repouso. É, ele que já é pequeno fica minúsculo. Mas naquela hora, ele parecia retraído. Intencionalmente retraído, quero dizer.
O médico estendeu as duas mãos, como se fosse colher um botão de rosa, o que parecia ser quase o caso. E, para minha vergonha, ao toque daqueles dedos, algo que eu ainda não conhecia aconteceu: uma ereção contida.
Numa ereção regular, o corpo cavernoso relaxa, para ser preenchido com sangue e garantir o pênis naquele estado que muita gente já conhece. Grandioso, valente, decidido, apto. Naquela, e ainda em alguns outros momentos da minha vida, o corpo cavernoso se manteve tenso, ainda que o sangue começasse a aparecer na área. A diferença é a mesma que qualquer um pode ver entre um pepino ao natural e um pepino em conserva: tom pálido, tamanho reduzido, densidade estranha. O primeiro, qualquer um corta em rodelinha na cozinha; o outro, só o McDonald's.
Tergisversar sobre o momento é fácil. Eu, ali na hora, tinha no cérebro um ruído branco. Uma pequena parte ainda era a consciência que registrava tudo, havia ainda na borda da consciência uma lembrança semelhante a esta, mas talvez ainda pior, e o resto era a mente se protegendo, negando os sentidos, negando o raciocínio, negando tudo. Enquanto o tal médico tentava expor a glande retraindo o prepúcio. Em tentativas ritmadas. Para quem ainda não entendeu, antes de desenhar, eu falo claramente: ele estava, ali na frente do meu pai, à guisa de exame, me masturbando. Aquele filho da puta.
Depois de algumas estocadas, quando eu entendi o que ele estava fazendo, simplesmente fechei o zíper. Sinceramente, eu nem notaria se meu zíper tivesse tirado minha fimose ali mesmo. Acho que até preferia assim. Ou se arrancaria um dedo dele. Melhor ainda.
O doutor ainda conseguiu se surpreender com minha atitude, com um pequeno "ah!" de susto. Uma memória ruim, bem ruim, mas parecidíssima com essa, brincava no limiar da consciência. Eu a sentia ali, mas não conseguia lembrá-la de verdade. Era ruim, lá dentro da cabeça e cá, dentro do consultório. Parei perto da minha cadeira, e interrompi meu pai no meio de uma frase qualquer para informar que estava esperando ele lá fora.
Ele ficou tão desconcertado, ou já estava antes, que apenas aquiesceu, meneando a cabeça. Normalmente a cerimônia entre nós mandaria que ele me mandasse não interromper os adultos, mas algo que ele viu no meu olhar decidiu por ele.
"Lá fora", de acordo com o que descobri dos meus impulsos, era na calçada. Na banca, onde os jornais pendurados ofereciam algo para se ler. Sir Laurence Olivier falecera. Câncer de estômago. Grande perda para o mundo. O resto da minha cabeça era ruído. Grande perda.
Tomei um sacolejo no braço. Seu Ulysses, com olhos arregalados, me encarava, agarrando meu antebraço esquerdo. Ele talvez tenha dito alguma coisa, gritado alguma coisa, deve ter perguntado se eu fiquei maluco. Não lembro. Lembro apenas que rodei o braço que ele esteve agarrando, passando eu a agarrar o braço dele, e como se fosse um passo de tango, trouxe a minha perna esquerda pra trás da perna esquerda dele, puxando, enquanto o braço esquerdo dele era empurrado pra trás. Só quando ele bateu as costas na calçada, eu comecei a ficar consciente de verdade.
As pessoas estavam prestando atenção, ao nosso redor. O olhar do seu Ulysses era de uma fúria assassina. Ele se levantou com a vista fixa em mim, e me carregou para a outra esquina como se eu fosse um bandido, indo para a cadeia. Chamou um táxi, me levou pra casa da minha mãe e não me lembro se falamos alguma coisa. Acho que não. Havia uma exclamação tão grande entre nós que não podíamos falar.
Entrei em casa, deixei o cartão do plano de saúde em cima de algum móvel, e parei apenas pra telefonar. "Ari, tá em casa?" "Tô Valdo, atendi o telefone, né?" "Tô indo aí.", desliguei. Fui. Minha mãe chegou a me olhar, por um instante, mas não quis ou não pôde, falar nada.

Ariana estava curiosa comigo. Nunca tinha me visto daquele jeito antes. Eu falava, eu respondia, eu contava coisas dos colegas do colégio, mas eu não estava ali. Piscava os olhos de repente, e percebia que olhava para um objeto qualquer há tanto tempo que os olhos ardiam. Ria de nervoso, e não de achar graça.
Ela não fez perguntas. Mas não por respeito, ela não era assim, mas por não saber o que perguntar.
Decidi ir embora, fiz o gestual todo, mas quando ela se levantou, eu pedi um abraço. Ela, compreensiva, mas sem entender nada, abriu os braços. Vi, sem abaixar a vista, os bicos dos seios através da camisa de algodão, as pernas saindo de dentro do short, os pés gordinhos descalços. A cintura. A penugem loura do rosto, os olhos azuis que pareciam de mentira, lindos de doer. E devagar como quem entra num banho quente, abracei Ariana. Uma ereção lenta e intensa pedia licença dentro das minhas calças. Meu coração estava entre parada completa e taquicardia, sem escalas.
Minha boca roçou a lateral do pescoço, de leve, sentindo com aquele tato mais detalhado a textura da pele, e aquele cheiro, aquele cheiro maravilhoso, maior que a vida, o cheiro dela, ocupava minhas narinas ofegantes e ansiosas. As duas mãos se apoiavam na coluna dela, sentindo cada músculo que a apoiava de pé trabalhando. O cheiro dela, ali perto da nuca, adquiriu uma tonalidade acre, que eu não entendi mas era ainda melhor do que antes. O corpo dela estava falando com o meu, e a consciência das mentes não tinha nada que fazer ali. Meu corpo respondia, com meu pau ganhando a maior dimensão que eu jamais podia imaginar. A fimose parecia que ia estourar sozinha, mas não se engane em pensar que doía. Ou, se doía, eu não estava notando.
Os músculos da coluna dela mudaram sutilmente de posição, e uma joelhada me acertou os testículos. A dor me tirou do corpo. Sério, eu vi toda aquela cena de cima, vi minha expressão idiota, enganado, e senti o ar de divertimento dela, a cretina da Ariana. Ela transformou aquele momento de pura sensação num palco estrelado de dor, e ria disso. Ria cada vez mais alto, enquanto eu voltava pro corpo, sentia de volta o peso da minha carne, a inconveniência da minha forma, a rejeição. Eu não era bem-vindo como seu amante, e ela transformava seu gesto de rejeição numa brincadeira, porque minha amizade, essa sim, era bem-vinda.

Sua risada me lembrava alguém, enquanto ela socava meu ombro numa saudação escandinava escondida em seu DNA. Levei muito tempo para perceber como ela era parecida com a Sigourney Weaver, inclusive porque a referência da época era Aliens. E os olhos dela eram cor de avelã. Isso mudava muita coisa, mas era tudo.
Fui pra casa, depois de alguma despedida. A cabeça estava nas nuvens, porque pela primeira vez, sabia onde queria estar. Sabia o que queria da minha vida, qual era minha luta e minha saga, e pela primeira vez entendi que lutaria para sempre pelo direito de me sentir bem-vindo. Lá, onde poderia me sentir em casa como nada no mundo me faria sentir.
Claro que estava irremediavelmente apaixonado, minha cueca estava melada com essa informação, meu corpo inteiro precisava se entregar e esquecer que havia morte no mundo, Sir Laurence que visse sua própria luz: eu sabia o que queria, e ali comecei a virar homem.
Descendo a Mem de Sá, de noite de novo, lá estavam os travestis, e dessa vez eles mexeram comigo. "Oi, gatinho", e convites mais detalhados passavam pelos meus ouvidos como se fosse um batismo: ali estava um homem, pelo padrão deles também.
Chegando em casa, embaraçado, cansado, cheio de coisas para pensar no banho, com aquele novo cheiro da Ariana dentro das narinas, minha mãe me dava o recado: outra consulta, terça-feira que vem, com outro médico. Aquela primeira consulta tinha sido inconclusiva.
"A da semana que vem é com um doutor chamado Flávio", disse minha mãe, perscutando minha reação, que era alívio: fosse quem fosse, aquele miserável não se chamava Flávio, e isso era tudo que eu precisava saber.
O recado tinha ainda um subtexto: "filho, entendo sua reação, mas temos que examinar você direito. Você ainda é meu filho, e sou responsável pelo seu bem estar. O que passou, passou."
Se fosse diferente, ele nunca mais ligaria para mim, nunca mais veria a cara do seu Ulysses Tranho na minha vida.
O mundo, de jeito torto, fazia sentido. E eu precisava conquistá-lo.

terça-feira, janeiro 19, 2010

Batizado (Ou: amor dói) parte 2

No capítulo anterior, os responsáveis pelo Estranho aqui tinham votado pela intervenção clínica, à revelia.
Mas Ariana havia tomado uma decisão, pelo lado dela: pediu que eu fosse até a casa dela.
Chegando lá encontrei com a mãe, dona Ana, que mal falava comigo ou com a própria filha. Cuidava bastante do próprio trabalho, de tradução, lia muito e passava a maior parte do tempo em casa trancada no próprio quarto. Que, por sinal, era fechado a Papaiz, aquela fechadura de quatro códigos. E esse era o sintoma que dava um ar de seriedade às arruaças que a filha narrava. Isso e um certo ar de alívio quando ela abria a porta e via que era eu...
Ariana preferia esperar que nós aparecêssemos para ajudá-la a comer as refeições macrobióticas da mãe. Lembro que estamos falando do ano de 1990, e tudo que se chamava "macrobiótico" aqui era na verdade "com gosto de terra". Eu que sempre fui um português bom de garfo, que gostava até mesmo de chupar ovos crus direto da geladeira, sentia uma grande dificuldade em encarar aquilo. Mas enfim, o que quis dizer é que ela esperava que aparecêssemos, não nos ligava regularmente. Esse dia ela ligou.
Tinha aquele brilho particular no olhar, e logo que nos livramos do macrô, ela foi direto no quarto, colocou uma roupa qualquer, uma mochila e saímos pra rua. Perguntei o que era aquilo e ela disse, "quero chocolate". O resto do tempo, conversava distraída sobre qualquer bobagem. Fui levando.
Saímos de lá pra Mesbla, que era ali perto, o edifício ainda hoje está lá; e nesse dia eu aprendi com a Ariana a roubar chocolate das lojas.
Foi a coisa mais simples do mundo, ela com a mochila em um só ombro, abria o zíper, e sem olhar sequer para os lados, enfiava duas ou três barras lá dentro, daquelas que tinham 200g. Hoje, seriam as de 170g. Eu, que tinha desenvolvido cleptomania aos oito, e logo em seguida retraído quando fui pego pelo pessoal do mercado, suava em bicas. Nada de mais, suar em bicas sempre fez parte do meu charme. Mas eu tremia tanto que não aguentaria nem um gato morto pelo rabo.
Saímos rindo, nervosos, da Mesbla, e começamos a andar pelas ruas do centro. Quando ela olhou para mim, vi em seu olhar, naqueles olhos azuis, que éramos cúmplices. Senti uma confusão de sentimentos, e imaginava todos os finais possíveis para aquela situação, desde começar a ter superpoderes, até começarmos um namoro. Estávamos no Largo da Carioca, nos sentamos e ela me explicou que o Valdir tinha ido na casa dela, levado uma fita K7 do Legião pra ela escutar, e se declarado pra ela. Eu perguntei, "e daí? Vocês..." e ela respondeu tudo. Não, não estavam nada juntos, ela ficava com um sujeito lá do colégio dela, que por sinal a mãe odiava, e que seria complicado pra ele, o cara do colégio dela, entender que ela sequer via outros garotos: ele era muito violento.
"E se um dia ele me vê te cumprimentando?" eu perguntei, na verdade já antecipando que o final daquela conversa não seria bom. Ela explicou que ele já me conhecia, e não tinha opinião nenhuma sobre mim. Eu podia ir e vir onde quisesse, podia até dormir na mesma cama que ela, que ele tinha certeza que eu não ia fazer nada. Na galera dele tinha um cara assim que nem eu, um banana, não saberia o que fazer com uma garota nem que ganhasse um manual sobre o assunto. Ariana contou isso rindo. Em tom de concordância.

Em minha defesa, posso afirmar que na minha fase das manias, lá aos oito anos, quando fui convencido por uma coifa laminada se aproximando da minha mão a não cultivar a cleptomania, parti para a leitura, e nisso devorei obsessivamente metade da biblioteca da escola municipal onde estudava, inclusive o relatório Kinsey de cabo a rabo; sabia mais sobre corpo humano, sexualidade, orgasmo, sexo do que o tal carinha saberia em toda uma vida. Em teoria. Na prática, ele certamente me daria uma surra. A maldita "pegada", que tanto se fala hoje em dia. Nunca tive.

Ou seja, para Ariana eu era um pouco melhor que um urso BlauBlau: eu retrucava. Engolindo o significado daquele esclarecimento, tive que perguntar, "e quanto ao Valdir?" para ganhar tempo mais do que ouvir a resposta.
O Valdir ganhou um beijo de selinho dela, um abraço bem gostoso, e ela pediu que ele parasse de vê-la por um tempo. Mais tarde, quando perguntado por mim, ele fez questão de insinuar, que "rolou alguma coisa", indicando que pode ter havido sexo, ou o tal beijinho, eu que escolhesse o que acreditar. E que não queria saber mais dela, tinha uma outra mina em vista; nem vou comentar sobre a Cleide, ali mesmo na época o meu amigo estava obviamente tentando se afirmar como um garanhão. Que não era, mas vamos lá, ele tentou com decência. Alguma.
Agora éramos só eu e Ariana. Mesmo sendo um urso de pelúcia falante, dane-se, tínhamos privacidade. Voltamos pra casa dela, e já experimentávamos a liberdade de ter o quarto dela só pra nós, aquele cheiro dela em todos os lugares e coisas. Eu podia esbarrar nela acidentalmente, podíamos começar guerras de travesseiros, o mundo fazia sentido.

Voltei pra casa, feliz, excitado, toda uma vida pela frente. Estava anoitecendo. Foi descendo a Mem de Sá, na altura da Lavradio, que o moleque passou por mim, rasgando a alça da minha mochila e correndo à toda para a mesma direção que eu ia. Ali naquele pedaço, era zona de travestis. A delegacia ficava a duas quadras, mas nada se fazia que envolvesse policiais naqueles lados. Pois é, o garoto deu uns três, talvez quatro passos largos, naquela correria com minhas roupas sujas da ACM, e foi pego por uma loira de longas madeixas, de um metro e noventa. Pego pelo pescoço, suspendido no ar enquanto as perninhas balançavam. O loira encarou os olhos do moleque, bem lá dentro, e disse pra ele "roubar aqui NÃO", numa voz tão grossa que um dia eu queria ter uma assim. Eu senti medo, imagine o moleque. Deve ter se borrado nas calças. Largou a mochila, e quando foi respectivamente largado, continuou na mesma corrida de antes, só um pouco mais motivado.

Reavida minha mochila, cheguei em casa, só para encontrar dona Patranha, com ar grave, me comunicando que teria médico no dia seguinte, meu pai iria me levar. "Que médico?", perguntei. "Urologista", ela respondeu. "Agora toma um banho e vem jantar. Que que houve com sua mochila?".

*** CONTINUA ***

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Batizado (Ou: amor dói) – parte 1

Meu nome é Osvaldo Espinoza Siqueira Tranho. Isso mesmo, O ESTranho. Acerte-se com o meu pai se você quiser saber o porquê desse nome ridículo, mas o sobrenome pelo menos é inevitável. Sou descendente da família Tranho, oriunda de alguma região escondida no meio de Portugal, e devo ser um dos cinco no mundo a não ter um sobrenome "natural", como Figueira, Pessegueira, Silva, Oliveira. Esse sobrenome veio lá dos cafundós da Idade Média, quando aquela região da Europa era uma colcha de retalhos com quatro casas em cada "país", ou condado, ou sei lá como era aquela bagunça.
Sinceramente deveria saber mais sobre essa parte da minha vida, até porque de repente posso ser o único herdeiro de um terreninho com uma árvore podre e uma casa de pedra. Mas preferi esquecer essa brincadeira bastante tempo atrás, como coisa de moleque.
Estive me lembrando desses pedaços movimentados da vida, quando a gente começa a perceber o mundo, a conhecer o que vai querer da vida, enfim, quando a gente começa a deixar de ser bobo. E nesse reviver, lembrei de Ariana.
Ela tinha esse nome mesmo, e deve ser por ter nascido no signo de Áries. Ou porque era loira de olhos azuis, e fiquei até com medo de perguntar se tinha a ver com a raça pura ariana dos nazistas.
Disse que era loira, disse que tem olhos azuis, ela. O que falta dizer é que, naqueles treze-catorze anos que tínhamos, lá na virada da década de 80 para 90, ela parecia uma miragem: não se vê aquele tipo de garota pelo Rio de Janeiro, facilmente assim. Aquele vívido brilho no olhar, olhos grandes, que prestavam atenção em todo mundo, ria que nem garoto, falava palavrão. Nos conhecemos na ACM, eu ela e um outro amigo, o Valdir.
Eu e o Valdir éramos os únicos naquele tempo que líamos gibis, antes de exisitir o colecionador, o crítico, as mostras de arte. Era puramente escapismo, e dali a gente já sabia que até os funcionários das editoras não se levavam a sério. Mas a gente viajava nas histórias, saboreando a idéia de ser um super-herói, se descobrir um dia dono de uma mutação impressionante e cheia de efeitos, de preferência alguma coisa que mudasse a forma do corpo ou que soltasse raios. Nunca, mas nunca imaginaríamos o dia da Marvel valer 4,5 bilhões de dólares ao ser vendida para a Disney.
Então já dá pra se ter uma boa idéia, certo? Nossas conversas eram sobre o que o Wolverine fez, como o Ciclope era sério, o Xavier era o mentor de todos os loucos do mundo, mas também falávamos de garotas.
É trabalhoso para um garoto nessa idade não se interessar por praticamente tudo que fosse do sexo feminino ao redor. E a gente se conheceu, e se encontrava, na ACM, que na época favorecia a imaginação com um uniforme parte lycra, parte algodão branco, que não podia molhar de suor porque senão ficava transparente.
O uniforme masculino, por outro lado, nos desfavorecia imensamente, porque o short era de um nylon finíssimo, branco ainda por cima, com a resistência de uma camisola. Ou, se preciso explicar melhor, um traidor, expondo qualquer maior entusiasmo que pudéssemos ter. E contendo nossos movimentos, porque qualquer pulinho atrás de uma bola e lá se davam as badaladas.
Mas então, falávamos de garotas. E admirávamos várias, debatíamos onde e o que todas elas tinham feito, se tinham namorado, se iam namorar, se tinha chance de chegar perto. E no meio delas, um dia como outro qualquer, surgiu Ariana.
Difícil elogiar forma do corpo, quando ainda está em desenvolvimento, e ainda por cima com nosso senso crítico nulo; mas ela tinha um belo par de pernas, e não tinha medo de usá-los. Os seios, pequenos como todas as outras: um processo em andamento. Mas o que nos arrebatou, a mim e ao Valdir, era o cheiro dela.
Num raio de dois metros ao redor dela, tinha um cheiro parecido com o de capim-limão, mas como se fosse mimetizado por glândulas, e não o original. Era um marcador olfativo, porque pegava em tudo que ela tocava por algum tempo. Às vezes ficávamos nos entreolhando, porque o cheiro dela já tinha chegado e ela não, ou ficava quando ela tinha partido. Ou estávamos apenas imaginando. Mas quando percebemos que aquele era o cheiro dela, e só dela, acabou o mundo: estávamos fisgados.
É muito gostoso sentir todos os cheiros de cada mulher que passa pela nossa vida, mas tenho que pedir desculpas a todas as outras: a única dona de um cheiro do qual posso me lembrar vinte anos depois de conhecer é ela. Só ela.
Não demorou muito, e começamos a travar contato com ela. Parávamos depois do vôlei no restaurante que a ACM Lapa tem até hoje no térreo, pagávamos refrigerantes só pro papo durar mais, e depois que ela se despedia da gente ficávamos andando que nem uns bobocas ali pelo Centro mesmo, raciocinando sobre o papo furado de agora há pouco como se fosse o Genoma Humano, precisando ser decifrado apenas por nós. Tentando extrapolar idéias que nos dissesse mais sobre ela do que tinha-se dito. Imaginando quando e se ela se dignaria a... quem sabe... qualquer coisa. Um toque incidental, uma explicação durante uma conversa, tudo, mas tudo mesmo era analisado pela nossa falta de experiência.
Poderíamos ter nos desentendido, Valdir e eu, por causa desse interesse pela mesma pessoa. Mas simplesmente decidimos que nada era certo, e brigar por nada não fazia o menor sentido. Quando, pouco mais tarde, começamos a poder visitar a casa dela, a situação não se alterou muito: íamos os dois lá. Entrávamos e saíamos juntos.
Ariana, claro, adorava. Tinha seu séquito particular, admiradores que se contentavam com a simples existência dela no mundo. Podia contar as histórias que quisesse, podia dizer que foi à Marte de barco, e nós dois lá, admirados com nossa heroína. Absorvendo qualquer bobagem, ouvindo qualquer história como se fosse a nova Bíblia ditada por Deus em pessoa para seus apóstolos. Não paramos nem quando ela começou a falar das inúmeras drogas que tinha tomado, e tomava, e tinha em casa e tudo. Se fôssemos levar a uma análise séria tudo que ela disse que tomou, era caso de internar aquela menina.
Até ela começar a falar de sexo.
Ela nos contou quase que passo a passo como o garoto do colégio dela se aproximou, o que ele disse, o que ele fez, onde ele a levou, que era um motel lindo, que ele era mais velho e podia entrar lá com o carro de um parente. Curiosamente, ela não entrou em detalhes sobre o que entrou aonde, quantas vezes, se doeu ou foi bom, até nós, muito constrangidos, começarmos a perguntar. Sobre a perda da virgindade em si, a narração dela foi como Godzilla invadindo Nova York: não apenas era uma criatura à parte, o membro do sujeito, mas ele a deixou em escombros. E grávida. E ela teve que tirar o feto numa clínica, paga pelo pai dele, com uma ferramenta que parecia ser uma chave hidráulica de encanador. Uma semana depois de terem consumado o ato.
Hoje, aqui do alto da minha "enorme" experiência, ouso dizer que ela esteve apenas aprendendo a botar banca. Nos testava em tudo, examinando quais histórias a gente engolia de uma vez, e quais partes a gente se perdia em perguntas.
Ali, naquela noite, eu comecei a examinar a sério a história de se fazer sexo. É bem bacana imaginar que vai fazer, com quem, o que, onde. Mas de fato estar com outra pessoa na cama, isso foge do escopo de um garoto nessa fase. Comecei a me examinar no espelho, regularmente. A encolher barriga. A lamentar, com muita força, que minha caspa me deixasse tão com cara de alienígena.
E comecei a passar bastante tempo no banheiro, examinando ele. Sim, ele, o amiguinho lá embaixo.
É que eu tinha fimose. Uma pele que deveria abrir, para dar passagem à glande, dita cabeça, mas não abria. Apertava. E numa ignorância típica da idade, puxava para tentar afrouxá-la. Nisso que puxava e soltava, evidentemente, a excitação acontecia. E eu, o Estranho, descobri o mundo divertidíssimo da masturbação.
Não precisava de muita coisa: era tão sensível a estímulo, que algumas vezes de pensar, ele já se endurecia dentro das calças, e alguns passos a mais davam conta de me deixar melado, o atrito das cuecas já era quase o bastante. E tinha que me apoiar em algum lugar, que as pernas bambeavam de verdade. Cheguei a vacilar e cair, um par de vezes.
Se era assim na rua, onde ficava andando meio dobrado com medo de exibir minha vigorosa (ainda que pequena) ereção, imagine o que se tornaram meus banhos. Podendo usar sabonete. Podendo olhar para ele. Podendo ver como era. Uma melequeira danada. Horas de banho. O único senão era que não poderia fazer barulho, imagine minha mãe, dona Pastranho (Patrícia Espinoza Tranho) entrando no banheiro atrás dos meus gemidos, pra acudir ao meu suposto mal-estar.
Por alguma estranha razão, eu e Valdir atingimos este lindo momento da puberdade ao mesmo tempo. Os peitos empedrados, as olheiras, os pêlos faciais começando a aparecer (mais ainda nele que em mim, tardio que sempre fui), todos sintomas mencionados nas provocações de vestiário, atentamente ouvidos e fingidamente ignorados, nos disseram que podíamos confiar um no outro para debater as mudanças.
E, claro, para usar essas mudanças em um alvo específico: a sábia Ariana, conhecedora hábil dos caminhos e descaminhos da alcova, nossa amiga, fêmea.
Valdir engrossou a voz de um dia para o outro, simplesmente. O bigode, todo ele brotou no intervalo de uma semana. Para piorar, ele seguia o biotipo de indiano, aquele cabelo preto e liso à toda prova, olhos cristalinos e tom de moreno que nunca mudava. Comparado com ele, eu era um engano hormonal. Tinha espelho em casa, e tudo mais. Nunca teria chance.
Ainda assim, ele foi cavalheiro de debater comigo. Eu capitulei logo no começo da conversa, entregando a ele a oportunidade de se entender com nossa musa inspiradora de tantas noites (e manhãs, e tardes...) para um avanço nas relações de modo a incluir intimidade maior. Ele sem titubear botou o time em campo.
Lá em casa, seu Ulysses e dona Patrícia, separados há dez anos, conversavam por telefone sobre as mudanças recentes na fisiologia do pimpolho resultante da vencida união que eles tiveram. Sei lá como ou onde, minha mãe conseguira observar (eu sempre fui muito tímido, mais ainda nessa fase) que o prepúcio não permitia o desenvolvimento completo do aparelho reprodutor. Fazia-se necessária uma intervenção, e médica, para resolver esse problema. O quanto antes.
Se quiser rir um pouco, entenda que meu pai nunca perdera o sotaque da Terrinha. Imagine que diálogo foi esse, aos berros (a companhia telefônica, Telerj, era uma lástima em qualidade), do lado dele.
– Ó P'trícia, este menino tem que poire de lado uma parte do pinto!
– Mas que mal há nisto? Os judeus fazem isto o tempo tódo!
– Não me interessa se fazem aos três dias de idade, aos três anosh ou aos trinta! É o mesmo pedaço que corta, quero lá saber se faz diferença, ó pá!


*** CONTINUA ***

quinta-feira, dezembro 10, 2009

Substâncias psíquicas (1)


Sendo eu mesmo um indivíduo cá com minhas esquisitices e ainda com tantos anos trabalhando em atendimento, observando profundamente diversas pessoas, me deixaram em posição de começar a catalogá-las. Não é exatamente o mesmo que rotular indivíduos, entendam isso de agora; antes, é mister observar que as ações dos indivíduos, longe de serem identicas, podem ter fundamentos e/ou consequências que, uma vez agrupadas às centenas ou milhares de repetições, se assemelhem. Praticamente, rotular e catalogar são o mesmo tipo de tolice, mas o importante é que aqui eu quero parecer bacana, e não um tolo. Então aceitem que eu sou bacana e estamos prontos para progredir neste estudo.
Após alguns meses lidando de maneira desorganizada com os clientes selvagens da Copiadora Power Image, tentando sem sucesso criar categorias como "cliente das 19:01", "corno por contágio" ou "sem mãe", fui apresentado a um jargão da empresa, e este fez toda a diferença. Era o gosmo, capaz de se tornar verbo, gosmar.


Quando o trabalho, ao dar entrada, levava 15 minutos apenas para ser explicado, dizíamos "isso é um gosmo". Quando o cliente, ao explicar o trabalho, precisava contar as difíceis relações entre 4 ou 5 parentes dele e este trabalho, dizíamos "o cliente está gosmando".
Pode-se notar que o gosmo veio atender a uma grande gama de sentimentos. Apesar de que algumas vezes o gosmo sozinho não era capaz de atender a nossa necessidade de definições: se um cliente passava pela grade já fechada, olhava para a loja toda apagada, com máquinas desligadas e vociferava, clamando ser atendido, era-nos forçoso admitir que este era um autêntico "cliente das 19:01 corno por contágio sem mãe", e o termo gosmo se mostrava demasiado suave para definí-lo.
Fez-se portanto necessárias novas definições, ainda que descendentes do conceito de gosmo. Aqui tentarei apresentar uma resumida definição dos tipos já catalogados, muito embora possam haver muitos outros, e nem todos com sintomas negativos na personalidade humana.

Mocreatina – Substância produzida quando o indivíduo se percebe em uma "zona de conforto" dentro de sua vida produtiva. Percebe-se no comportamento do indivíduo uma aversão a qualquer convenção social, como bons modos, iniciativa, educação, capacidade de perceber detalhes (tais como ler um manual). Possíveis sintomas:
  • Se irrita com facilidade quando é exposta sua incapacidade de interpretar informações, mas o máximo que consegue manifestar é elevação da voz. Normalmente, resmunga.
  • É portador de paranóia passiva, acreditando que todas as pessoas do mundo estão de sacanagem com ele. Mas não necessariamente querendo destruí-lo.
  • Olha sempre obliquamente para as pessoas, muitas vezes sendo incapaz de encarar o interlocutor. Por puro despeito.
Pode ser encontrado na cultura multimídia representado pelo morto-vivo.



Bruacalase – O meteorito ALH 84001 trouxe eidências à ciência de nanobactérias, por indícios de aminoácidos e hidrocarbonos policíclicos aromáticos, a mesma categoria de substância que encontramos na bruacalase. Suspeita-se há anos que a bruacalase é uma contaminação tóxica oriunda do espaço sideral.
O indivíduo produz bruacalase pela saliva, e a infecção de outros indivíduos é causada por mordida. Geralmente no pescoço da vítima. Para tornar apto a espalhar a doença o indivíduo inoculado é estimulado a sentimentos de ciúme, despeito, desdém. É notável a capacidade verbal do embruacado para manifestar esses sentimentos, podendo falar por horas sobre a vida pessoal da(s) vítima(s), seja em tom de palestra ou de cochicho, até aparecerem características manchas de espuma branca nos cantos da boca. Olhos vidrados, fixando sua vítima, também são uma característica de ataque em andamento.
Grandes atores são capazes de demonstrar fugazmente estes detalhes, para facilmente serem aceitos pelo público como dedicados à arte.
A verborragia do embruacado pode ser demonstrada em diversos setores da sociedade humana, sendo um caso dos mais clássicos e abrangentes o de André Vianco. Um dia, ele percebeu que conseguia encher arquivos de Word com 200 páginas de texto. Enfim.
Escrotonina – Uma das mais controversas substâncias psicológicas, a escrotonina costuma ser associada a produção de testosterona. Pode-se observar o indivíduo produtor desta substância como um sujeito agressivo, grosseiro, preconceituoso. Comunica suas intenções olhando fixamente os olhos de seus interlocutores e sofre de surdez seletiva. Mas também é capaz de ser apontado como "macho alfa" em alguns círculos, o que geralmente é considerado um elogio profissional e sexual.
Para se observar a ambivalência da escrotonina, podemos analisar o arquétipo clássico do Ricardão. Enquanto é odiado por vários, que tem que dar licença aos seus pisões, aturar sua voz grossa berrando "mengo", seu carro ocupando duas vagas e um machismo à toda prova, certamente ele é mais admirado entre certos grupos de moças já comprometidas.
Pode-se até mesmo apreciar a companhia de um escroto, por tempo limitado e situações controladas (a cerveja e som alto). Se você quiser dormir com ele, claro.

Ainda estamos bem longe de estabelecer uma tabela completa dessas substâncias, mas este é um primeiro rascunho apenas para definir o campo até agora estudado pelo atendente que vos escreve.

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Mocreatina

Eu estava fazendo minha atividade predileta como atendente de loja de informática, ou seja, andando na rua em missão de compras. Cheguei na papelaria, com a tampa de papelão da caixa de grampos, e pedi:
– Uma caixa de grampos 26/6, por favor?
Ao que o vendedor, sofredor como eu, responde:
– a de mil ou cinco mil?
– Cinco mil, respondo, consultando a tampa da caixa na minha mão. Longe do balcão por causa justa, sorridente e feliz.
Ele não diz nada, mas eu conheço certos indícios do ramo. Olho pra tampinha da caixa de papelão e provoco:
– Cara, também sou vendedor, detesto chegar nas lojas falando 'me vê aquela... ahhhh... uhhh... coisa... desse tamanho...' - já venho com a idéia certa na mão!
O rapaz ri da minha imitação de zumbi menudo, às gargalhadas. Saio da loja, clipes pagos, e um alívio de algum tempo no coração: não sou o único a querer viver na Lua.
É desse ponto de vista que percebo a realidade dos filmes de zumbi. O pânico desses filmes, onde sempre alguém ou um grupo de 'sadios' foge de semelhantes antropófagos movidos por forças misteriosas do além-vida, é que na verdade os zumbis existem. Isso mesmo, existem, agem daquele jeito, e se você der mole realmente comem seu cérebro. Sim, porque o que quer que seja causador da zumbificação, sem nenhuma dúvida ataca o cérebro profundamente. Eu considero uma toxina moral, e a batizei de "mocreatina".
Não, não ria ainda. A mocreatina começa a ser produzida pela psiquê do indivíduo, na mesma época da vida em que ele atinge um patamar, determinado por mim de "fase do foda-se", por alguns pesquisadores mais sérios de "zona de conforto". É uma capa de gordura que deveria recobrir o cérebro, mas na verdade atinge mesmo a capacidade de raciocínio, em inglês "wits", na gíria "o estar ligado", tá ligado?
A pessoa percebe que não precisa mais ser o esperto da turma, sua sobrevivência está assegurada por vitórias passadas. Nesse momento, semelhante ao processo da lagarta, a capacidade cerebral da pessoa entra em encapsulamento. Uma manifestação física desse fenômeno é que toda aquela energia antes transmitida para as células-glia do cérebro passam a virar reserva para o futuro. Células-glia são aquelas moradoras do cérebro que alimentam os primos já famosos, os neurônios, com energia para aquelas brilhantes idéias que todos nós temos. Quando eu falo "reserva para o futuro", eu estou me referindo ao nosso já conhecido bacon, toicinho, ou se preferir pança.
Um sintoma evidente de que o indivíduo está produzindo mocreatina é aquela barriguinha bacana crescendo, para ser chamada pelos amigos de calo sexual, pânceps e reservatório de chopp. Pode ser facilmente encontrada em funcionários públicos, em geral começando a ser notada aos cinco anos de funcionalismo, que é quando a digníssima bunda não pode mais ver pé pela frente. Também é notada em policiais militares com "rota de coleta de proteção" definida, e definitivamente na maioria dos síndicos re-eleitos.
É uma característica com faixa etária mais ou menos definida, dependendo de uma mistura de fatores internos e externos para ocorrer. Curiosamente, acabam setorizando os indivíduos, que passam a menosprezar contato com outros estados manifestos, por exemplo as mulheres que já aplicaram botox e crianças na troca de dentição.
Em artigo futuro exploraremos também a bruacalase, outra substância psíquica descoberta por este seu pesquisador amador. A mocreatina e a bruacalase têm sintomas muito parecidos, mas para o observador treinado é possível distinguir detalhes que permitem a distinção e o tratamento adequados.

Um portador de mocreatina, para fins de ilustração, pode travar este diálogo numa loja de informática:

Portador – Isso aqui é mouse pad [apontando para um produto com os dizeres "BASE PARA MOUSE ÓTICO"]
Vendedor – Sim senhor, esses dois são. Esse custa R$ 10,00 e aquele R$ 5,00.
P – E qual a diferença?
V – Um é feito de E.V.A, e o outro...
P[interrompendo] – Que eu tenho mouse sem fio, ele tem uma luzinha embaixo, não sei se ele é ótico. Pode ser de bolinha, né?
V – Se ele tem luz embaixo deve ser ótico, senhor.
P – Mas ele é sem fio... Não sei se essa base vai funcionar pra ele não.

Em breve voltamos com mais um pouco de exploração do mundo das toxinas psíquicas.

sexta-feira, outubro 16, 2009


De Trânsito Rio de Janeiro
O que você vê nesta foto é um carro parado sobre a calçada em Ipanema. Vamos esquecer a van logo atrás, certo? Essa é a esquina da Aníbal com a Redentor, e estamos falando de um dia de semana, supostamente mais vigiado que outros horários. Existe um restaurante chique logo em frente ao carro. Sendo justo, nessa altura da Rua Redentor tem também umas escolas para crianças, se não me engano algumas creches também.
Eu não entendo muito de automóveis, mas posso imaginar que um carro desses esteja valendo entre 40 e 60 mil reais. Aguardo correções dos entendidos no assunto.
Art 181, parágrafo VIII - no passeio ou sobre faixa destinada a pedestre, sobre ciclovia ou ciclofaixa, bem como nas ilhas, refúgios, ao lado ou sobre canteiros centrais, divisores de pista de rolamento, marcas de canalização, gramados ou jardim público:

Infração - grave;
Penalidade - multa;
Medida administrativa - remoção do veículo;

Fiz a continha aqui, e considerando o texto acima, em 2009 o dono ou dona desse veículo pagaria R$ 232,46. Também levaria 5 pontinhos na carteira. E poderia ter seu veículo removido. Se alguém se importasse com essas bobagens.

De Trânsito Rio de Janeiro
Outro exemplo, carros (plural) parados sobre a faixa. Mesma ladainha, não quero cansar você. Infração de igual teor, e igual importância.
Eu sou péssimo para comparar a gente com Estados Unidos, mas vamos combinar que não dá pra entender que essas mesmas multas lá são de valores menores dos que aqui temos. Como é que lá funciona e aqui não? Será que o policial lá ganha mais que os nossos? Não, desculpe, a vida deles é bem simples normalmente na maioria dos casos.
Sabe o que é? A fé.
Horrível isso, acreditar que o sistema é a salvação, eu sou anarquista e me arrepio todo de falar isso. Mas tenho que baixar a cabeça. O policial acredita na importância do seu trabalho, por mais simples que pode parecer, e geralmente não aceita fazer vista grossa. Assim como o chefe dele.
Mas tem mais. O motorista acredita no seu papel como cumpridor das leis, porque isso dá crédito a ele em juízo, por exemplo. A ficha dele é analisada na hora de oferecer crédito no banco, para citar uma consequencia.
Entenda: o cidadão honesto e correto é premiado. Eu sei que estamos falando de maioria dos casos, eu sei que estamos falando de um mundo que tem tons de cinza.
Mas sobretaxar o cidadão correto não ajuda. Sério. Outra coisa que não ajuda, é esperar dos outros o que você nem sempre faz. ai ai ai.

quarta-feira, setembro 23, 2009

respostas cretinas para perguntas imbecis - informática

Provavelmente eu vou fazer uma série de posts que nem esse.
Cada vez que você encontra uma resposta à prova de imbecis, surgem modelos mais eficientes de imbecis.
Vocês vendem cartucho?
  • Não, senhor. Essas caixas brancas aqui são esquifes para pequenos roedores.
  • Sim. Mas só temos a de 300 para escopeta cano duplo.
  • Não. Os monges cartuxos são de uma ordem extinta no século XIII pelo Concílio de Nantes. Estamos sem estoque há 700 anos.
  • Sim, mas só temos o sabor atum.
Tem cartucho preto e branco, ou só o colorido?
  • Só temos cartuchos NTSC.
  • Sim, temos o Preto, o Branco e o cartucho Glitter também
  • O Preto temos original, mas o Branco só da LiquiPaper.
  • Infelizmente só trabalhamos com cartuchos Technicolor.
Você tem aquela peça de colocar atrás do micro?
  • Não, mas a sex shop fica no subsolo.
  • Nossa última leva de massa corrida saiu ontem.
  • Eu parei de fazer teatro há dez anos, senhora.
  • Qual delas? Vida inteligente ou tomada? 

quinta-feira, setembro 17, 2009

Aí, xará!

Você leu Watchmen? E depois, foi ver o filme?
Acho que todo nerd por aí sabe que Alan Moore tem nas costas uma triste maldição: nenhum de seus roteiros de quadrinhos, todos maravilhosos, viram um filme minimamente passável. Se você gostou de "A Liga Extraordinária", com a vampira-biscate e um Alan Quartermain que NÃO é viciado em ópio... Desculpe, volte a ler sua Turma da Mônica.
Mas deste ângulo de análise, eu consigo dizer que Watchmen é uma adaptação fiel. É só você engolir que o Comediante é aquela paquita bombada e o resto flui muito fácil. Acho que com esse comentário você já entendeu meu carinho por esse senhor Jeffrey Dean Morgan. Pois é.
Pois fique sabendo que anda um projeto aí para filmarem LOBO, com censura TREZE ANOS, e esse retardado se acha na qualidade de interpretar o Sr. Infodível em pessoa! Bom, na medida em que qualquer um pode se maquiar com a cara branca e colocar a língua pra fora... pode. Vamos ver, né.
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Eu pensei que era sacanagem. Ainda dou risadas sozinho na fila do banco lembrando do trailer de Campo Minado, o Filme. Mas é pra valer. A Hasbro e a Universal têm um contrato que já nos rendeu Transformers e G.I. Joe, e agora lançam uma emocionante e tensa história de uma batalha envolvendo cinco navios... chamada Batalha Naval. Se eu dou uma idéia dessas na mesa do botequim, nego me sacaneia dizendo que viajo muito. Agora eu tenho certeza, o problema nunca foi comigo, mas com quem eu falo. Afinal, não sou eu que estou de sacanagem, é o mundo.
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Eu ainda estou atrás de uma cópia de "Moon", o filme dirigido pelo filho do David Bowie.

terça-feira, setembro 15, 2009

Perenidade

"Detesto computadores".
Quis ouvir isso muitas vezes, pois nada pior que um idiota motivado na frente do teclado. Ouvi poucas.
Por muito tempo, esses poucos eu ainda não entendia, poxa, como se pode odiar a revolução do século 21? Tudo aquilo para que nos preparamos durante 3 décadas! Imagino que os reformistas também não entendiam os monarquistas, 3 séculos atrás lá na França.
Mas eu agora encontrei uma boa razão para odiar computadores. A palavra "perenidade".
Você deve ter tido boas chances de ver fotos do seu avô criança, né? Aquelas preto e branco, todo mundo com roupas engraçadas... E você acha que seu filho vai conseguir ver suas fotos? Não. Ele vai ter mais chance com as fotos do bisavô que o papai aí.
A base daquelas fotografias era papel espesso, com fibra de algodão, em nitrato de prata. Como pode-se comprovar, dura muito. As suas, isso quando você as revela, são substrato de celulose, polímero plástico e tintas de origem vegetal. A durabilidade é de cento e tantos anos contra cinco. Eu disse, cinco anos.
Vá lá, alguém pode dizer, no longo prazo não se conta nem uma nem outra, até a foto com nitrato não deve resistir mais que 300 ou 400 anos. Nada que se compare a uma pirâmide. Ou à Torre Eiffell.
As mídias de hoje são temporárias. Os discos, seja CD, DVD, ou o novo Blu Ray, não resistem sequer a vinte anos de manuseio. Uma certa diferença se compararmos com os vinis, ou os 8mm. Estamos trocando durabilidade por visual.
Dentro de duas gerações, todo o nosso tempo presente, por mais chato que seja, terá se evaporado. Já é um pouco difícil rastrear a década de 80, não que tenham tantas coisas lá que nós precisemos, mas pense nisso. Imagine como vai ser explicar uma música do Faith no More.

sexta-feira, setembro 11, 2009

A nave - final da queda.

Dali, aquele momento enorme em que eu me abraçava ao poste, e o próprio poste subia com um pedaço do chão, tudo ficou indefinido. Senti uma pancada de lado, senti pela primeira vez na vida o que era uma fratura, ou várias, porque foi o esmagamento das minhas costelas, com um pedaço de entulho que me acertou. Ainda assim, já sentindo a palidez e o suor frio, podia me mexer como se tivesse tomado uma bolada no futebol. O choque é que me ameaçava.
– Não pira, não pira, não pira... eu me repetia, sei lá se era em voz alta, baixa ou pensamento. Tinha que continuar procurando um jeito de sair dali.
Fui andando pelo que era a Avenida Rio Branco, o meio mesmo da pista. Um monturo grande se via uns cinquenta metros adiante, ali onde se cruzava com a Presidente Antônio Carlos. O estrondo de mundo acabando me rodeava, como se rugisse para mim, de todas as direções uma nota nova, sempre grave, de concreto se esfacelando, chão tremendo...
Entendi de repente que o chão deve ter se levantado comigo por causa do metrô, ali embaixo. Entendi isso enquanto olhava em volta e percebia que, na verdade, a Avenida tinha descido uns cinco metros! A única maneira de sair rapidamente daquele caos era me localizando em cima daquele monte ali na frente, e corri pra lá.
Subi ali, segurando meu lado esquerdo, arfando, sentindo uma baba de gosto familiar na boca, tossindo, e começando a sentir a cabeça girar. Estava começando a assimilar a quantidade de dano que meu corpo recebera, e conforme ia acontecendo, o controle do corpo ia ficando uma idéia distante. Tudo amolecendo. Mas consegui chegar lá em cima.
Cheguei a girar a cabeça e ver, o antes imponente prédio da Caixa Econômica tinha vários andares sem janela, o Edifício Avenida Central estava parecendo errado, e tudo o mais... foi ficando azul. Caí sem perceber muito bem onde. Tinha um buraco em cima daquele monte. A luz do céu, nublada pela poeira, virou um buraco lá em cima; e esse buraco foi fechando.
Eu caí dentro da nave! Aquilo era uma nave! Socorro...
E não me lembro mais de muita coisa.

segunda-feira, setembro 07, 2009

Se, de Rudyard Kipling

Se você pode manter a calma quando todos sobre você
Já a perderam e o culpam por isso;
Se você pode confiar em si mesmo quando todos estão duvidando,
Mas reluta em também duvidar deles;
Se você pode esperar e não se cansar esperando,
Ou, sendo mentido, não devolva em mentiras,
Ou, sendo odiado, não se dê chance de odiar,
E ainda não parecer bom demais, nem falar muito sabiamente;

Se você pode sonhar - e não fazer dos sonhos seus mestres;
Se você pode pensar - e não fazer dos pensamentos seu objetivo;
Se você pode se encontrar com o triunfo e o desastre
E tratar a estes dois impostores da mesma forma;
Se você pode agüentar ouvir as verdades que você falou
Transformadas em facas afiadas numa armadilha para bobos,
Ou assistir as coisas para as quais você deu a vida se quebrarem,
E se inclina e reconstrói do nada com ferramentas fora de uso;

Se você pode juntar tudo que ganhou
E arriscar tudo em um lance,
E perde, e começa novamente do início
E nunca suspirar uma palavra sobre sua perda;
Se você pode forçar seu coração e nervos e tendões
A lhe servirem no seu minuto decisivo, mesmo esgotados,
E assim agüentar quando não houver nada em você
Exceto a Vontade que diz a eles "Agüentem";

Se você pode falar com multidões e manter sua virtude,
Ou caminhar com reis - e entre a plebe não te corromperes;
Se nem inimigos nem os amigos amorosos podem te ferir;
Se todos os homens contam com você, mas nenhum muito;
Se você pode encher o minuto irreconciliável
Com sessenta segundos corridos de valor -
Sua é a Terra e tudo o que há nela,
E - o que é mais - és um Homem, meu filho!

Atualização

 Na última vez que escrevi neste blog, estava me despedindo de Denise. Uma vida inteira pensando se poderíamos ficar juntos, e o tempo que t...