sexta-feira, janeiro 22, 2010

Batizado (Ou: amor dói) parte 4

Conquistar o mundo: quantos significados podemos dar para isso? O seu mundo certamente não tem a mesma fauna, cor, forma, tamanho, significado que o meu.
Eu via na escola, meu mundo: meninas que começavam a florescer para a maturidade. Aprendendo a jogar os cabelos, dar olhares, pedir favores e pagá-los com um sorriso. Via nas ruas, meu mundo: mulheres feitas, resolvidas, decididas ou com problemas tão profundos que minha rasa ingenuidade sequer os imaginava. Via na ACM, meu mundo: mais meninas, aqui aprendendo sobre a sua independência em caráter definitivo.
Via nos livros, meu mundo: Marco Polo conquistando a China, Alice conquistando o País das Maravilhas. Via Dune, meu mundo: o ingênuo Paul, se tornando Muad'Dib. Via Tron, outro mundo: a informática assumindo a regência. Via o idioma inglês, e todos os mistérios em canções, peças, citações.
Meu mundo é que não me via. Essa, a série Shell Responde não respondeu: como fazer para ser alguém relevante ao seu próprio contexto? Podia ter ligado para o Bozo, mas ele só queria que eu gritasse "POW!"

Falando nisso, a terça-feira chegou e meu pai também. Sentou-se comigo no banco de trás do carro, não disse nada boa parte da viagem, e quando disse, alinhavou qualquer resíduo que tivesse entre nós.
– Esse Dr. Flávio... (me encarando diretamente dentro dos olhos) ... eu verifiquei ele. Fique tranqüilo.
Por um breve momento eu imaginei uma máfia lusitana, pondo aquele outro infeliz dentro de um balde de cimento seca-rápido, as mãos amarradas, enquanto meu pai fumava um charuto e falava ao telefone com algum assecla do submundo sobre as referências do Dr. Flávio.
"Cont'nue, ó pá... Então, este é um doutoire muito gira, hã? Foi iéle que cons'rtou o João, das Docas? Ah..."
Concordei uma vez com a cabeça, gesto muito chique, que vi os japoneses de seriado fazerem várias vezes. E olhei para a paisagem, porque o breve momento de imaginação ia se alongando e eu ia acabar gargalhando na cara do meu pai. De quem, afinal, não tinha muitas reclamações: esteve lá, ainda que às vezes, e pronto.
O Dr. Flávio, afinal, era um senhor sério, porte militar, casa dos 40 e boa forma. Levava sua atividade tão a sério que eu juraria que não ficava vendo pinto dos outros nunca. Comecei a achar que estava lá pra operar as amídalas, sei lá.
O homem cumprimentou a mim, depois ao meu pai (o que me deu uma noção de importância nunca antes vista), ouviu atentamente as poucas informações que um caso deste suscita, e se levantou. Cenhos franzidos, agradeceu ao meu pai, e pediu-lhe que esperasse lá fora, pois o paciente precisava de privacidade. Enquanto minha nova noção sobre mim mesmo me deixava zonzo, meu pai foi saindo, meio reticente e olhando pra mim. Entendi o recado, e sem uma palavra sabíamos que ele estava prestando atenção em qualquer reação que eu tivesse, meio decibel que fosse fora do normal. Eu me sentia realmente alguém. Nem tinha notado que me levantara da cadeira, também.
Assim que ficamos em particular, o doutor sentou-se à cadeira do meu pai e me olhou. Quase na mesma altura. Sem encostar a mão em mim, ele me comunicou muito sério que precisava me examinar, e ainda ia ter que me pedir um favor chato: eu teria que ter uma ereção, pra ele entender a extensão do problema.
Tenho certeza que ele fez isso para ser educado. Naquela época, era mais difícil lembrar como se piscam os dois olhos do que isso. Bastava lembrar daquele, daquele cheiro, e mais um mundo de detalhes vívidos em minha mente e lá estávamos, prontos para ação: o Terror dos Sete Mares e sua Espa- ops, e seu punhal.
Fiz simplesmente abrir o zíper e baixar a cueca. Ele forçou a vista, e muito constrangido, sugeriu que talvez precisasse de mais luz, porque "as roupas estavam fazendo sombra". Muito educado. Baixei tudo e levantei a camiseta. Ele encarou meu membro (que no momento estava fazendo uma ereção de figuração, a contragosto, James Dean parado na esquina) por uns vinte segundos, e eu me dei conta de como estava satisfeito que aquilo parecesse apenas chato. Antes chato que a outra opção.
De repente, ele puxou o prepúcio pra fora, esticando-o, olhou lá dentro com uma lanterninha que tirara do bolso do jaleco e tentou fazer a glande aparecer. Entendeu que não ia dar certo quando me encolhi para trás: só a parte da uretra aparecia, e a pele estava já se esticando muito. Largou na mesma hora, e minha impressão do sujeito era crescente: um médico que era médico. Sabia, definitivamente, o que estava fazendo.
Pediu para eu me recompor, o que eu já estava fazendo mesmo, e explicou que seria necessária uma curta intervenção. O prepúcio teria que perder um pedaço, e isso não tinha nada de mais, a não ser por um detalhe que ele não deixaria de cuidar: o cabresto. Que, ante minha evidente ignorância para com o termo, ele explicou ser um conjunto de carne tensionada, por baixo da glande, que garantia não apenas a ereção e a sustentação da glande, mas minha sensação de prazer.
Voltou a afirmar que cuidaria com especial atenção do cabresto, que aí me lembrei ser aquela peça para conduzir cavalos, assim como cuidaria também de não deixar cicatrizes dos pontos, feitos com linha que se dissolve no corpo. Eu talvez ganhasse alguns centímetros, com isso. E concluiu, com uma camaradagem masculina que eu via pela primeira vez na vida, um discreto sorriso de negócios no canto da boca, que não podíamos desapontar as mulheres, tínhamos que apresentar um belo espetáculo.
Disse assim mesmo, como se houvesse tido um cabedal de mulheres no meu passado, algumas no presente e muitas mais no porvir.
Numa atitude bem discreta, perguntou se poderia chamar meu pai da antesala para acertar os detalhes. Concordei, e meu pai estava de pé atrás da porta quando foi aberta. Varou o corpo do médico com o olhar, e verificou sem preâmbulos se eu estava bem, inteiro, desamarrado, vestido. Eu estava enorme em meu pequeno mundo. Me sentia nas rédeas, melhor, no cabresto da minha vida. Paul Muad'Dib indo montar no imenso verme, invencível.


Era para algum dia, em algum lugar, alguma coisa. Mas eu podia lidar com aquilo.

No caminho, o taxímetro Capelinha rodando, meu pai repassava comigo o que acontecera dentro do consultório. Ficou satisfeito com as explicações, embora eu não tenha me detalhado tanto na parte do tamanho, espetáculo e tal. Ele entendeu que tudo ia bem, e ia mesmo, e me informou que precisaria viajar no dia da cirurgia, mas minha mãe iria comigo para o hospital. Numa boa, pensei, sem me tocar naquele exato momento daquela timidez entre filho homem e mãe, e o que eu ia cortar no hospital. Numa boa.

Chegando em casa, fim do dia, recado da mãe da Ariana do lado do telefone. A filha sumira, favor dar notícias. Liguei, ainda sem saber se contaria sobre a modificação revolucionária que me traria um superpênis mágico. Dona Ana atendeu, cansada, e disse que já estava tudo bem, ela chegara e tomava banho. Me despedi, sem pedir que ela ligasse de novo. Ainda não tinha decidido como ia contar, ou se contaria. Talvez fosse melhor simplesmente mostrar que não era mais Clark Kent, e sim o Super-Homem.

Um comentário:

Required field must be blank disse...

montar no imenso verme, invencível

qq analogia era melhor q isso cara

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