domingo, janeiro 31, 2010

Amor Dói: Revanche (1)

Até ali só tinha um jeito de definir aquela noite: PIOR. DA. VIDA. Eu ainda não conhecia ressaca de vodca, então realmente era difícil de pensar em coisa pior que não ter posição pra dormir. Além do óbvio, aquele monte de suturas mumificadas, o corpo inteiro doía da tensão do dia anterior.
Senti o ruído branco aparecendo, disposto a apagar tudo e jogar pra um canto da cabeça onde seria menos doloroso. Não era hora ainda, e não sei se queria algum dia perder a lembrança daquilo que acontecera. Fui criança, fui homem, fui gente. Saí de lá diferente, e não entendia ainda o quanto, mas sabia que aquela experiência seria um novo Norte na minha vida.
Fiquei a noite inteira me distraindo, usando de recursos de memória para passar cada minuto; de vez em quando, tentava mandar o "om" pra regularizar as coisas, mas as coisas não queriam sossego. Tentei fazer xixi, mas a urina encheu a bandagem por dentro antes de sair, e o sal passava por cada cantinho cortado e costurado e fazia tudo arder.
Mas, com relutância, o dia foi chegando. As pessoas se mexiam na calçada lá embaixo, o sol nascia devagar... e a dor falava comigo, cada hora uma sílaba disconexa de um discurso pro qual eu não tinha resposta, ou com o qual podia me conformar. Sentado, em pé, de lado, de bruços, nenhuma posição dava menos incômodo que a anterior.
Devo ter apagado, já era hora de trocar o curativo.
Fomos ao dr. Flávio, e nem me lembrava nessa hora de qual luta foi travada e quem saiu vencedor. Tentava encontrar uma posição da qual partisse menos dor. Chegada a minha vez, ele mal falou. Pediu que mostrasse, e imediatamente se pôs a tirar os esparadrapos.
Por ver um pedaço de gaze, eu supunha que o esparadrapo estava ali apenas para sustentação do curativo. Triste engano: eu e o esparadrapo estávamos bem mais íntimos do que eu desejaria. E estava preso em espiral.
Sem muito cuidado, o urologista foi puxando aquelas camadas de adesivo sobre uma carne que nunca tinha visto o ar livre, e em seguida sobre seus pontos. Imagino que não havia maneira delicada de se fazer aquilo. Se tivesse, não creio que fosse uma técnica ao meu alcance naquelas circunstâncias. Portanto, se eu pensava que estava doendo antes, agora eu sentia saudades daquela pequena perturbação. Tinha um grito preso na minha garganta com aquela nova sensação em vista.
Vi meu novo pênis, com suas suturas pretas. Parecia uma coroa de espinhos, numa costura em forma de anel ao redor da cabeça. Sangue coagulado devia estar misturado naquela bagunça, e alguns pontos brancos de cola estavam ali perto.
Naquele momento, o dr. Flávio pediu minha atenção. dali por diante, alguém teria de fazer esses curativos em casa pra mim, ou eu mesmo, e era bom que eu aprendesse a lidar com aquilo. Dessa vez gastando bastante gaze, ele me mostrou o que fazer para manter protegida essa cicatriz em processo de recomposição. E me alertou: era de suma importância que eu não tivesse nenhuma, mas nenhuma chance de ereção nesses próximos seis ou sete dias.
Acontece que a tal coroa era realmente um anel de pontos, e eles foram dados logo abaixo da glande com o diâmetro do amiguinho em repouso (sic). Se eu sofresse a dilatação de uma ereção, todo o corpo do pênis cresceria, menos os pontos. O resto ele deixou em silêncio, por conta da minha imaginação figurar decapitações expontâneas no meio da noite.
Ao voltar para a sala de espera, explicou para minha mãe que a única coisa que eu deveria tomar cuidado era com levantar pesos e outros exercícios puxados, mas que eu estava liberado para caminhar e ir aonde quisesse. Por meu lado, não me sentia liberado nem para mexer as pernas, mas ele devia saber do que estava falando. Andando que nem um velhinho, enquanto a dor constante tomava patamares aceitáveis novamente, voltamos para casa.
Me lancei ao sofá da sala, e naquela posição mesmo, chapei. Um sono sem muita explicação e com muito torcicolo me esperando foi minha recompensa pela bravura do dia. Acordei com sussurros à porta, em tom de segredo, e assim que despertei ouvi a porta batendo. Minha mãe tinha dispensado Ariana, que vinha me visitar, porque o zelo de cuidar do filhinho pedia que "aquela menina" não entrasse.
Ainda no sono, passou rapidamente pela minha mente se minha mãe entrara em detalhes desnecessários sobre minha atual condição. Pergunta besta. Claro que ela contou em detalhes o que eu estava passando, e eu sei que se olhasse pela janela agora veria Ariana ainda rindo. Ah, dona Patranha... essa foi de lascar. Enquanto ela me contava, fiz uma cara de zangado pra ela, mas secretamente estava satisfeito de não ter que encarar aquele cheiro e sua dona assim tão cedo e nem tão de perto.

3 comentários:

I'm Nina, Marie, etc... disse...

E a saga continua... Fiquei feliz - tirando a parte do esparadrapo nos pontos (eu quase senti a dor na parte do corpo que eu nem tenho...).

Heinz Prellwitz disse...

Darkness falls across the land, midnight hour is close at hand, creatures falls in search of blood, to terrorize your neighbourhood...

Heinz Prellwitz disse...

A idéia é essa, Nina. Traduzir essa ótica. Muito pouco se explora a formação da pessoa, especialmente do macho da espécie, que tem todas as definições já prontas pela sociedade, e há tempo demais.

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