quarta-feira, março 03, 2010

Amor Dói: Revanche (5)

Caminhar na rua. O sol, o tímido movimento dos domingos no Centro. Gatos andavam, desconfiados, devagar. E eu nesse passinho de malandro, medrado de abrir mais as pernas nos meus passos bem dados de antes, pontos cuidados.

Ia de calças jeans, que me envergonhava de mostrar pernas brancas, ainda não sabendo que seriam as melhores coisas a se mostrar quando começasse a fazer as garotas me notarem.

Olhava as calçadinhas estreitas, os sobrados longos e sem espaço. Pontuava o passo, pensando: por que raios estava indo ver justamente Ariana?

Mas isso já havia pensado antes, não me sentia bem de estar com os rapazes, ainda que pareça-me ridículo pensar em pôr à baila o assunto que me tomava toda a atenção no momento com uma garota, parecia ainda pior expor minhas fraquezas a quem certamente tomaria proveito do caso. Zombariam de mim, sem dúvida. Ou sei lá.

Ia vê-la porque era onde poderia confessar meu pequeno resguardo, e quem sabe ganhar algum colo. Seria engraçado estar em uma ternura interrompida, porque afinal não posso me empolgar agora. Me imaginava numa situação de dizer a ela, "não me beija não, que aqui embaixo a coisa complica de repente". Imaginava a reação dela, aquele "oh" da menina do desenho da Heidi, talvez tentando não olhar para baixo, um vínculo se formando por tão pouquinho bem aonde queria me vincular com ela.

E ia, subindo a Mem de Sá, os ônibus vindo tão devagar na minha direção, e tão sozinhos na rua, que desconfiava que às vezes os motoristas paravam o carro para apreciar o domingo sossegado.

Sentia o cheiro de plantas no ar, as árvores ainda conseguiam fazer isso naquela época, apesar de todos os postes de fios e luz, toda a fumaça preta.

Quando cruzava a Gomes Freire, um jogo de vôlei. A bola veio na minha direção, era só esticar o pé que parava a danada, mas agora... a bola que se virasse. Os garotos do jogo olharam pra mim com cara feia, mais desapontados que outra coisa. Um passou por mim correndo pra ir buscar. Ah, nem gosto de vôlei, sou do basquete. Quem gostava desse jogo era Heinz, que "detestava contato físico com marmanjo".

Lembrei dele, jogando na Olimpíada da ACM. Meu time de basquete tinha caído nas semifinais, mas o dele disputava o bronze. Estava lá vendo. As quadras da Associação Cristã de Moços eram num prédio de andares altos, e as salas que elas ocupavam eram pouco maiores que as marcações das quadras, e quando estava lá há uns cinco minutos testemunhei uma cena incomum.

O time do Heinz estava no fundo do salão, ou seja, de frente para a sacada dos espectadores que era no andar de cima. A sacada era curta, para dar espaço adicional no andar para a bola poder subir nos saques. Bernard tinha recém-inventado a Jornada nas Estrelas, mas a quadra não permitia tanta empolgação assim. Os saques eram aqueles altos, que todo mundo faz hoje, parecendo o do tênis: jogam a bola, e pulam atrás pra dar aquele tapa safado e mandar a pelota pro adversário lidar com ela. Mandaram um saque desses, o time do meu amigo pegou, serviu, devolveu numa cortada meia de quadra, fraca. Os adversários embaixo de mim, ao invés da sequência de três toques, simplesmente devolveu a bola para o meio do campo dele, onde estava um garoto que era meio mole pra reagir. Um dos jogadores das laterais, impaciente, catou de manchete, e mandou pro fundo da quadra, na direção da parede. Já era ponto, certeza: ia bater a uns três metros de altura, sem chance.

Nisso, o Heinz, que estava na posição de saque, foi atrás da bola. O juiz já estava levantando o apito, e ele simplesmente continuou correndo, parede acima. Nada prodigioso, dois passos, mas com isso pôde alcançar a bola, e de costas, devolver pra quadra adversária. Incrédulos, os adversários não se mexeram, e até o juiz viu a bola quicar duas vezes antes de entender que, afinal de contas, não tinha nada de errado no que ele fez. Ponto pro time do meu amigo, estava na morte súbita, e a partida terminou ali mesmo. Foi uma bela medalha de bronze.

Mas, o que seria do meu amigo, que hoje não conhece mais ninguém daquela época, se eu não tivesse testemunhado esse momento dele? Se eu não aparecesse com essa recordação da manga, anos depois, numa retomada da nossa amizade?

Testemunho. Precisamos desesperadamente dar sentido à nossa passagem nesse mundo, e a cabeça que pensa, e quer mais que nascer, crescer, dar cria e morrer, se sente confortável com essa idéia.

E, chegando no único prédio de apartamentos da Travessa Mosqueira, percebi que era isso que queria dela: testemunho para meu momento, apoio, aceitação. Remanso, talvez, mas nem precisava chegar a tanto. Bastava compartilhar aquele momento com ela, o pouquinho que fosse. Falar, talvez, daquele momento em que entendi que o mundo era cercado por aspectos de uma Deusa, que apenas entrevi, e me apoiou num dos meus momentos de necessidade. Saber dela, talvez, se havia algo a aprender disso, testemunhar as histórias dela também.

Ela abriu a porta, e me disse para ir pra sala. Era um apartamento pequeno, mas com dois quartos, ainda que o quarto da Ariana fosse na verdade uma porta nova no antigo quarto de empregada, originalmente abrindo dentro da área da cozinha, agora abrindo no corredor pra sala. Ela só me indicava a sala quando a mãe não estava em casa. Não se davam muito bem, e o temperamento sempre agressivo da minha amiga era um motivo razoável pra isso.

O cheiro dela, aquele cheiro maravilhoso estava no apartamento. Capim limão, com um toque de animal. Fêmea. Calma. Muita calma.

Voltou da cozinha, me ofereceu água. Aceitei, adoro água, e começamos a conversar. Ela não demorou a perguntar:
– Mas você operou, então? – e eu concordei com a cabeça – Operou o quê?
Apontei para o zíper da calça, e disse simples, "fimose". Ela quis saber o que era, e não me furtei. Expliquei que era uma pele. Na cabeça do... você sabe, né?
– Ué, mas isso opera? Ela não fica só pra trás, quando ele cresce?
Ariana me perguntar a coisa desse jeito me deu a entender que ela talvez tivesse uma experiência que me deixou incomodado. Imaginei uma foto dela de biquini de lantejoulas na porta da Boate México, fazendo pose de quem tem problema de coluna. E vendo paus com prepúcio que se retrai pra todo lado. Piranha, era a imagem.
Mas respondi que nem sempre era assim, alguns rapazes não tinham a pele tão elástica assim, e precisavam de uma operação que era até bem simples, apesar de achar que meu médico pegou meio pesado no trato comigo. Ia falando e deixando a imagem de lado.
– Mas então você já está... recuperado?
– Não. Tem uns trinta ou quarenta pontos ao redor da minha cabeça. Parecem uma coroa de espinhos.
– Posso ver?
Ok, a Ariana quer ver meu pau. Pelo motivo errado, a ação que eu esperaria uma vida pra realizar podia acontecer ali mesmo. Percebi um pequeno brilho no olhar dela, curiosidade genuína. Me encarava, mas baixou uma vez os olhos pra minha calça.
– Eu.. n-não tenho m-muito o que mostrar. Te-tem muito esparadrapo em cima ainda...
– Ah. Notei o desapontamento dela.
– Mas quando eu tirar, posso mostrar, se quiser ver.
– Eu hein? Queria ver os pontos!
Ri. Não consigo manter a ironia de uma situação pra mim, e acho que esse é o pior sintoma de ser homem.
– Ariana, não duvide que a coisa que mais queria era abrir minhas calças pra você. M-mas nem posso pensar em fazer isso.
Nunca tinha falado assim na vida com ninguém, acho uma violação. Mas não resisti. Era mais forte que eu, e realmente era a parte errada do que fui fazer ali, mas ainda assim parte. Continuei, estendendo um indicador pra explicar melhor.
– Os pontos estão numa arrumação de anel. Ao redor de toda a cabeça. Mas esse anel tem a minha medida "murcho". Se eu começar a t-ter a menor idéia na cabeça, er.. ele reage. C-cresce, se estrangulando no anel. E eu não sei o que pode acontecer...
A tensão tinha me feito sentar na pontinha do sofá, e ela olhava às vezes pro meio das minhas pernas como se imaginasse a cena. Foi ficando com um olhar estranho. Quando terminei de falar, ela resolveu mudar de assunto, com um muxoxo de quem vê que não tem nada legal na TV, só A Gangue dos Dobermanns de novo.
– Valdo, saí com a minha mãe pra comprar uniforme novo. Lá no meu colégio, as inspetoras estavam reclamando que eu tinha crescido muito, o antigo não estava bom mais. Sabe que eu achei um absurdo? Peraí.
Correu pro quarto, com aquele jeito caucasiano de correr. Percebi que estava usando um short de moleton amarelo, e uma camiseta cor de maçã verde. Claro que olhei suas costas, sua bunda, pela bilionésima vez, mas agora não podia pensar nisso. Lembrei de um lance de respiração pra essas horas, e fiquei um tempo focado nisso.
Affuuuuu.
Affuuuuu.
Me toquei que ela estava demorando um tantinho naquele quarto pequeno que tem. Se queria me mostrar alguma coisa, não ia ficar procurando, nem tinha muito espaço: era só a cama de solteiro, um armário de duas portas e uma escrivaninha pra estudar. A tal porta era até de correr, pra tentar dar algum espaço a mais. Ainda assim, duas pessoas só ficavam juntas naquele quarto se uma subisse na cama e a outra sentasse no chão.

De repente, ela voltou de lá de dentro.

Vestia um uniforme de colégio público, sapatos inclusive. Saia de tergal realmente curta, a camisa daquele tecido meio transparente que não me lembro mais o nome, e apertada. O sutiã branco, via-se seu corte simples e funcional, protegendo os seios empinados e ainda crescentes. E por sinal, de bicos duros no momento.

Um sorriso que eu já vi antes, não sei quando, apareceu no rosto dela, enquanto ela perguntava:

– Você acha que esse uniforme está pequeno em mim?

Projetou o peito pra frente, e alisou o corpo dos peitos até às coxas, com as duas mãos, e voltou pra parar com elas nos quadris. Que, além de ficarem mais desenhados, ainda repuxaram um pouquinho mais da saia pra cima.

4 comentários:

I'm Nina, Marie, etc... disse...

hahahahahahaha!!!!
Isso, respira, respira...
Vamos lá, junto comigo: afuuuuu... aaaafuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu!!!
hahahaha!

(PS: essa é mesmo a Ariana?)

Heinz Prellwitz disse...

Essa é tua, querida! Precisei usar, se é que me entende...

editor disse...

e o cap para ali!!!!!!!!!
perai. faça me o favor.
cortava o heinz e deixava mais ariana
alias revanche ate agora nada
o 5 cap da primeira parte foi melhor

Heinz Prellwitz disse...

Olha só, caro Sr. EPS (já que insisite em ficar mudando vossa alcunha, meto-lhe um apelido meu):
não sabe que tenho que terminar o capítulo com um cliffhanging? O herói pendurado no penhasco, e será que ele vai conseguir sair?
Diana Gabaldon me ensinou isso, lá no site dela.
A Revanche é da Ariana, rapaz! Tranho provocou ela no arco anterior, e ela deixou guardada a revanche dela. Tá tendo agora.


Nina, não entendi a pergunta. Sobre a foto? Não, a Ari era mais fininha um pouco. E se parecia com a Sigourney mesmo. E era loura natural.
Só coloquei a foto porque precisava dar uma idéia do que estava na minha frente. E ao contrário do que todas as sexshops do Rio acreditam, a "fantasia" de colegial é a coisa mais lame do mundo, chega a ser broxante. E a roupa original provoca, atiça, justamente por ser uma espécie de embalagem refrescante do que está dentro. Ou seja, dá até certo ponto um ar de frescor para a menina.

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