quarta-feira, janeiro 20, 2010

Batizado (Ou: amor dói) parte 3

Entramos no consultório, eu e seu Ulysses, e ele finalmente explica o que estávamos fazendo lá. Eu tinha o problema, era fimose, e o que que o doutor achava. Explica diretamente para o médico, que eu sou só um eletrodoméstico com defeito.
O médico, gorduchinho de cabelos grisalhos e desgrenhados, vira-se para mim com ar de divertimento, e comenta, "eu não posso achar sem ver, certo?" e a seguir se afasta da mesa, e estende as mãos para mim. "Vem aqui um instantinho, pro titio ver".
Fui, né? Meu pai não era de fazer brincadeira com essas coisas, se eu estava num médico era pra ser medicado. Por assim dizer, claro. Cheguei perto, ele se virou na cadeira para me encarar, e com um sorriso de canto de boca, me olhando de baixo, pediu: "deixa eu ver o piupiuzinho?"
Gostar de exame médico, acho que ninguém gosta. Mas tem que fazer, e até uma criança difícil como eu entendia claramente que é assim que é a vida. Estava acostumado a médicos, por causa do problema de pele que ninguem resolvia. Via os bobos, os chatos, os profissionais. Mas "piupiuzinho"? Aquilo ali, na minha frente, era novo. Novo e horrível. Mas mesmo assim eu abri a bermuda, e pus pra fora o que havia para se por. Que no momento, era o mínimo possível. Eu já tinha visto antes o meu pênis em repouso. É, ele que já é pequeno fica minúsculo. Mas naquela hora, ele parecia retraído. Intencionalmente retraído, quero dizer.
O médico estendeu as duas mãos, como se fosse colher um botão de rosa, o que parecia ser quase o caso. E, para minha vergonha, ao toque daqueles dedos, algo que eu ainda não conhecia aconteceu: uma ereção contida.
Numa ereção regular, o corpo cavernoso relaxa, para ser preenchido com sangue e garantir o pênis naquele estado que muita gente já conhece. Grandioso, valente, decidido, apto. Naquela, e ainda em alguns outros momentos da minha vida, o corpo cavernoso se manteve tenso, ainda que o sangue começasse a aparecer na área. A diferença é a mesma que qualquer um pode ver entre um pepino ao natural e um pepino em conserva: tom pálido, tamanho reduzido, densidade estranha. O primeiro, qualquer um corta em rodelinha na cozinha; o outro, só o McDonald's.
Tergisversar sobre o momento é fácil. Eu, ali na hora, tinha no cérebro um ruído branco. Uma pequena parte ainda era a consciência que registrava tudo, havia ainda na borda da consciência uma lembrança semelhante a esta, mas talvez ainda pior, e o resto era a mente se protegendo, negando os sentidos, negando o raciocínio, negando tudo. Enquanto o tal médico tentava expor a glande retraindo o prepúcio. Em tentativas ritmadas. Para quem ainda não entendeu, antes de desenhar, eu falo claramente: ele estava, ali na frente do meu pai, à guisa de exame, me masturbando. Aquele filho da puta.
Depois de algumas estocadas, quando eu entendi o que ele estava fazendo, simplesmente fechei o zíper. Sinceramente, eu nem notaria se meu zíper tivesse tirado minha fimose ali mesmo. Acho que até preferia assim. Ou se arrancaria um dedo dele. Melhor ainda.
O doutor ainda conseguiu se surpreender com minha atitude, com um pequeno "ah!" de susto. Uma memória ruim, bem ruim, mas parecidíssima com essa, brincava no limiar da consciência. Eu a sentia ali, mas não conseguia lembrá-la de verdade. Era ruim, lá dentro da cabeça e cá, dentro do consultório. Parei perto da minha cadeira, e interrompi meu pai no meio de uma frase qualquer para informar que estava esperando ele lá fora.
Ele ficou tão desconcertado, ou já estava antes, que apenas aquiesceu, meneando a cabeça. Normalmente a cerimônia entre nós mandaria que ele me mandasse não interromper os adultos, mas algo que ele viu no meu olhar decidiu por ele.
"Lá fora", de acordo com o que descobri dos meus impulsos, era na calçada. Na banca, onde os jornais pendurados ofereciam algo para se ler. Sir Laurence Olivier falecera. Câncer de estômago. Grande perda para o mundo. O resto da minha cabeça era ruído. Grande perda.
Tomei um sacolejo no braço. Seu Ulysses, com olhos arregalados, me encarava, agarrando meu antebraço esquerdo. Ele talvez tenha dito alguma coisa, gritado alguma coisa, deve ter perguntado se eu fiquei maluco. Não lembro. Lembro apenas que rodei o braço que ele esteve agarrando, passando eu a agarrar o braço dele, e como se fosse um passo de tango, trouxe a minha perna esquerda pra trás da perna esquerda dele, puxando, enquanto o braço esquerdo dele era empurrado pra trás. Só quando ele bateu as costas na calçada, eu comecei a ficar consciente de verdade.
As pessoas estavam prestando atenção, ao nosso redor. O olhar do seu Ulysses era de uma fúria assassina. Ele se levantou com a vista fixa em mim, e me carregou para a outra esquina como se eu fosse um bandido, indo para a cadeia. Chamou um táxi, me levou pra casa da minha mãe e não me lembro se falamos alguma coisa. Acho que não. Havia uma exclamação tão grande entre nós que não podíamos falar.
Entrei em casa, deixei o cartão do plano de saúde em cima de algum móvel, e parei apenas pra telefonar. "Ari, tá em casa?" "Tô Valdo, atendi o telefone, né?" "Tô indo aí.", desliguei. Fui. Minha mãe chegou a me olhar, por um instante, mas não quis ou não pôde, falar nada.

Ariana estava curiosa comigo. Nunca tinha me visto daquele jeito antes. Eu falava, eu respondia, eu contava coisas dos colegas do colégio, mas eu não estava ali. Piscava os olhos de repente, e percebia que olhava para um objeto qualquer há tanto tempo que os olhos ardiam. Ria de nervoso, e não de achar graça.
Ela não fez perguntas. Mas não por respeito, ela não era assim, mas por não saber o que perguntar.
Decidi ir embora, fiz o gestual todo, mas quando ela se levantou, eu pedi um abraço. Ela, compreensiva, mas sem entender nada, abriu os braços. Vi, sem abaixar a vista, os bicos dos seios através da camisa de algodão, as pernas saindo de dentro do short, os pés gordinhos descalços. A cintura. A penugem loura do rosto, os olhos azuis que pareciam de mentira, lindos de doer. E devagar como quem entra num banho quente, abracei Ariana. Uma ereção lenta e intensa pedia licença dentro das minhas calças. Meu coração estava entre parada completa e taquicardia, sem escalas.
Minha boca roçou a lateral do pescoço, de leve, sentindo com aquele tato mais detalhado a textura da pele, e aquele cheiro, aquele cheiro maravilhoso, maior que a vida, o cheiro dela, ocupava minhas narinas ofegantes e ansiosas. As duas mãos se apoiavam na coluna dela, sentindo cada músculo que a apoiava de pé trabalhando. O cheiro dela, ali perto da nuca, adquiriu uma tonalidade acre, que eu não entendi mas era ainda melhor do que antes. O corpo dela estava falando com o meu, e a consciência das mentes não tinha nada que fazer ali. Meu corpo respondia, com meu pau ganhando a maior dimensão que eu jamais podia imaginar. A fimose parecia que ia estourar sozinha, mas não se engane em pensar que doía. Ou, se doía, eu não estava notando.
Os músculos da coluna dela mudaram sutilmente de posição, e uma joelhada me acertou os testículos. A dor me tirou do corpo. Sério, eu vi toda aquela cena de cima, vi minha expressão idiota, enganado, e senti o ar de divertimento dela, a cretina da Ariana. Ela transformou aquele momento de pura sensação num palco estrelado de dor, e ria disso. Ria cada vez mais alto, enquanto eu voltava pro corpo, sentia de volta o peso da minha carne, a inconveniência da minha forma, a rejeição. Eu não era bem-vindo como seu amante, e ela transformava seu gesto de rejeição numa brincadeira, porque minha amizade, essa sim, era bem-vinda.

Sua risada me lembrava alguém, enquanto ela socava meu ombro numa saudação escandinava escondida em seu DNA. Levei muito tempo para perceber como ela era parecida com a Sigourney Weaver, inclusive porque a referência da época era Aliens. E os olhos dela eram cor de avelã. Isso mudava muita coisa, mas era tudo.
Fui pra casa, depois de alguma despedida. A cabeça estava nas nuvens, porque pela primeira vez, sabia onde queria estar. Sabia o que queria da minha vida, qual era minha luta e minha saga, e pela primeira vez entendi que lutaria para sempre pelo direito de me sentir bem-vindo. Lá, onde poderia me sentir em casa como nada no mundo me faria sentir.
Claro que estava irremediavelmente apaixonado, minha cueca estava melada com essa informação, meu corpo inteiro precisava se entregar e esquecer que havia morte no mundo, Sir Laurence que visse sua própria luz: eu sabia o que queria, e ali comecei a virar homem.
Descendo a Mem de Sá, de noite de novo, lá estavam os travestis, e dessa vez eles mexeram comigo. "Oi, gatinho", e convites mais detalhados passavam pelos meus ouvidos como se fosse um batismo: ali estava um homem, pelo padrão deles também.
Chegando em casa, embaraçado, cansado, cheio de coisas para pensar no banho, com aquele novo cheiro da Ariana dentro das narinas, minha mãe me dava o recado: outra consulta, terça-feira que vem, com outro médico. Aquela primeira consulta tinha sido inconclusiva.
"A da semana que vem é com um doutor chamado Flávio", disse minha mãe, perscutando minha reação, que era alívio: fosse quem fosse, aquele miserável não se chamava Flávio, e isso era tudo que eu precisava saber.
O recado tinha ainda um subtexto: "filho, entendo sua reação, mas temos que examinar você direito. Você ainda é meu filho, e sou responsável pelo seu bem estar. O que passou, passou."
Se fosse diferente, ele nunca mais ligaria para mim, nunca mais veria a cara do seu Ulysses Tranho na minha vida.
O mundo, de jeito torto, fazia sentido. E eu precisava conquistá-lo.

Um comentário:

Required field must be blank disse...

so amigos e cruel demais

todas as mulheres deveriam ser proibidas de pronunciar essa frase

fimose? tirei a minha no 5X1 aos 10

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