sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Amor Dói: Revanche (3)

O antiinflamatório estava me deixando mole e com sede. O que quer dizer que toda hora levantava, ou ao banheiro, ou à geladeira. As horas foram ficando doidas. Ler era impossível. Tudo parecia confuso e interminável. A dor foi virando um hábito, trocar ataduras dava trabalho, e eu comecei a rir ciclicamente da imagem de boneco vodu de múmia que eu tinha que tratar. A cicatrização era um enigma, porque os pontos eram escuros, o sangue era escuro, o povidine era escuro e no meio daquilo o que ia sobrar era um enigma.

Era de tarde quando o Valdir apareceu. A gente se via de vez em quando, esses tempos. E falava dos nossos assuntos, ainda mais que ele era o feliz dono de um MSX da Gradiente, equipamento irado para acessar um mundo novo de possibilidades... Nossa isso era papo pra mais de metro.

Até que o assunto virou Ariana. Na época, a indiferença dele parecia genuína. Quando a gente fica mais crescidinho, vai entendendo que isso pode ser um desdém de quem quer comprar. Mas ele só ouvia, enquanto eu contava sobre minha epifania na sala, um dia antes da cirurgia. Quando eu não tinha mais o que contar, ele só me deu o conselho padrão. "Essa garota te arruína, cara. Ela não pode ficar contando com você sempre por perto."

A gente discordava disso. Eu adorava Ariana, era uma fonte de alegria estar do lado dela o tempo todo. Ele sempre me lembrava que o mundo estava cheio de garotas legais, tinha até aquela Viviane lá da ACM que de vez em quando conversava comigo. É, verdade, mas a Viviane era linda demais pra querer alguma coisa comigo. Além disso, a nossa afinidade era por conta de uma suposta ascendência judia na minha família, muita gente pensava que eu tinha algum pé com o Povo. Até o Geraldo (um cara do meu colégio) achava isso, mas no caso dele isso era um demérito; ele tinha uma certa tara pelo nazismo, e sentia ciúmes da minha amizade com o Heinz. Queria convencer o Heinz a contar o que o pai dele sabia da época de Hitler, e achava que a coisa não progredia porque eu usei minha "manipulação hebraica de culpa" na mente dele.

Fiquei feliz com a mudança de assunto, afinal o Heinz era um dos poucos amigos que eu tinha, além do Valdir. Entrou no meu colégio logo depois da saída dele, então eu colocava um a par do que o outro fazia. Além disso, o Heinz era mais parecido comigo nas dúvidas, e nas leituras. E o avô dele tinha sido de um partido de oposição ao nazismo na época do Governante...

Eu sei que estou narrando esta parte em porções esparsas, mas isso dá uma idéia da transição que senti naquele dia. As idéias iam e vinham, a consciência também, e num desses cochilos percebi de repente que o Valdir não estava mais lá.

Em algum momento no meio desse devaneio, o segundo dia de recuperação virou terceiro. Ariana, Valdir, Geraldo, Viviane, o pequeno grupo de testemunho da minha passagem pela vida, apareciam na minha imaginação lentamente, sem nada dizer, sem muito o que resolver.

E estava um calor dos diabos.

2 comentários:

Required field must be blank disse...

1 parada
tive ideia similar antes(incluir-se)

2 a estoria nao era minha
por isso tinha relevancia, ja que eatava editando e nao narrando

3 ate agora nao aconteceu NADA

Heinz Prellwitz disse...

1Esse negócio de me incluir no texto andou mexendo com uma ou duas pessoas. É só um meio, como decidir se viaja de táxi, a pé ou de ônibus.
2?
3Você não teve treze anos, nem é mulher. O que está acontecendo não é onde você está olhando.

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