quinta-feira, agosto 30, 2012
terça-feira, agosto 21, 2012
Random thinking (if that's possible for me)
Sete pecados capitais, cada um custa a sua cabeça. Você pode achar formas novas de cometer velhos pecados. Os joguinhos, os joguinhos todos de Facebook e derivados, eles podem te ajudar com a sua avareza e cobiça, fornecem novas gramas mais verdes em novos vizinhos. Você pode ter novas gulas, novas glutonias, e devorar livros que enchem sua cabeça e jamais te levam praquele mito poderoso que irá curar sua nação.
Povo de Canaã, aceite o Pilão desta Capital!
Em algum momento que é memória, portanto já passou, admito que minha memória é sem distinção da passagem do tempo. Ontem e na infância são a mesma coisa, o que no meu caso faz um sentido especial. Mas aí ouço em resposta que essa é uma das características da psicose. Que eu pensava que tinha a ver também com gostar das coisas sempre na mesma ordem.
Toc, toc.
Minha nave está à deriva, combustível demais e propulsão de menos. Falta o navegador falar alguma coisa. Malditos, malditos mapas, eles sempre são confusos de entender. Mas ainda bem que eu sou o capitão. Quem tem que ficar nervoso com a falta de rumo sou eu. E eu já me acostumei a ser de Peixes.
O problema de ser amigo dos monolitos é que você começa a entender a manha deles. Eles parecem lapidares, mas nunca foram. Mudam de idéia mais do que patricinha bulímica na Gávea. Elas sim, se você quer saber, elas sim são determinadas. Apesar de se renderem a uma vaidade de serem nada, cada vez mais nada, cada vez mais vazio ao redor delas, elas ainda assim tem mais coisa na cabeça do que a gente pensa. Mas a cabeça também rola, no capital dos pecados.
Ainda bem que eu não fui, mas queria ter ido. Se tivesse ido, não estaria onde precisam de curativos. Emergência, emergência, onde eu posso sedar a arrogância?
Eu já senti a pata do leão me guardar antes. Pra depois. Ainda estou aqui, mas até quando? E esse pavio, qual a regra dele? Tão curto, mas tão curto, e ainda assim sempre está a meio caminho de terminar.
Até que um dia termina, e você descobre que o arqueiro do paradoxo é você.
Povo de Canaã, aceite o Pilão desta Capital!
Em algum momento que é memória, portanto já passou, admito que minha memória é sem distinção da passagem do tempo. Ontem e na infância são a mesma coisa, o que no meu caso faz um sentido especial. Mas aí ouço em resposta que essa é uma das características da psicose. Que eu pensava que tinha a ver também com gostar das coisas sempre na mesma ordem.
Toc, toc.
Minha nave está à deriva, combustível demais e propulsão de menos. Falta o navegador falar alguma coisa. Malditos, malditos mapas, eles sempre são confusos de entender. Mas ainda bem que eu sou o capitão. Quem tem que ficar nervoso com a falta de rumo sou eu. E eu já me acostumei a ser de Peixes.
O problema de ser amigo dos monolitos é que você começa a entender a manha deles. Eles parecem lapidares, mas nunca foram. Mudam de idéia mais do que patricinha bulímica na Gávea. Elas sim, se você quer saber, elas sim são determinadas. Apesar de se renderem a uma vaidade de serem nada, cada vez mais nada, cada vez mais vazio ao redor delas, elas ainda assim tem mais coisa na cabeça do que a gente pensa. Mas a cabeça também rola, no capital dos pecados.
Ainda bem que eu não fui, mas queria ter ido. Se tivesse ido, não estaria onde precisam de curativos. Emergência, emergência, onde eu posso sedar a arrogância?
Eu já senti a pata do leão me guardar antes. Pra depois. Ainda estou aqui, mas até quando? E esse pavio, qual a regra dele? Tão curto, mas tão curto, e ainda assim sempre está a meio caminho de terminar.
Até que um dia termina, e você descobre que o arqueiro do paradoxo é você.
quinta-feira, agosto 16, 2012
Desculpas
Eu nunca culpei. Nem vou culpar. Ninguém.
Depois de um tempo, com o nível de compreensão certo, podemos simplesmente entender que nossas ações são responsáveis pelas consequências. O mundo não é, perceba, tão simples. Histórias de séculos atrás ainda tem influência nos eventos atuais. O que aconteceu ontem não tem a menor importância, por outro lado. Nenhum peso é absoluto, tudo depende do observador. Se o observador for eu, a minha decisão é me responsabilizar por tudo. Até onde minha vista alcança, a culpa é minha e eu vivo assim.
Pode parecer triste, a mentalidade de um deprimido. Mas aí vai o segredo: não me arrependo de nada, e na medida do meu possível, as histórias que passam por mim ficam amarradas e encerradas. Se não ficaram, ainda que minha culpa esteja lá, é porque não pude fazer mais nada. Portanto, não me arrependo de quase praticamente nada.
Apostei, por exemplo, uma caixa de cerveja num relacionamento. Na hora parecia divertido, porque eu tenho essa vaidade de ver no futuro. E eu achei genuinamente que ninguém se machucaria, que tudo seria uma espécie de "polícia e ladrão" de adultos, uma farra. Hoje eu me envergonho de ter feito isso.
Essa é uma das raras vezes que guardei arrependimento. Tiveram outras. Até bem piores. Droga, eu erro. E daí?
Por muito tempo na minha vida eu tentei montar meu time. Não as pessoas perfeitas, mas aquelas que tinham o que eu não tinha. Crente que basta informar seu intento, e ser compreendido, eu me comunico com todo mundo, conto meus planos, me preparo. Luto o tempo todo pelo que eu quero, e não pense que desejo ser feliz - quero apenas ser dono dos meus problemas.
Não quero ser culpado do que os outros decidem jogar nas minhas costas. Não quero carregar ninguém. Não quero parecer um morador de vilarejo de videogame, que está sempre disposto a ajudar qualquer um que passe pela porta.
Quero ter minha família, passar uma chave na porta e respirar. Enquanto o mundo fica lá fora. Fora do meu endereço.
O que eu não aguento é perceber que a insegurança dos outros tem que ser jogada na minha cara. Eu já tenho minhas dúvidas. Eu já tenho meus aborrecimentos. Eu já compartilhei o que era só meu. Vai cuidar da sua vida.
Eu não quero é conviver com pessoas que me irritam profundamente, esbravejam suas verdades na minha cara, interrompem minhas respostas. E quando eu finalmente perco a paciência, de dois em dois anos, e tomo uma atitude, não fiquem choramingando pelos cantos, querendo fugir do monstro.
Não quero aquele olhar imbecil de ignorância, como se eu tivesse simplesmente ficado louco de repente, e o que passou há cinco minutos ser esquecido pelo benefício de uma vítima de ocasião.
Não quero os conhecidos me olhando como se eu fosse o pior ser humano, me encarando como se imaginassem de que maneira aquele homem civilizado se torna um doente mental que ataca sem razão, porque ao meu redor tudo que eu crio é opressão e desgraça.
E se não puder ser assim, então paciência. Vou embora. E nesse dia, desculpe, não vou me arrepender.
Cansei de ser idiota.
Depois de um tempo, com o nível de compreensão certo, podemos simplesmente entender que nossas ações são responsáveis pelas consequências. O mundo não é, perceba, tão simples. Histórias de séculos atrás ainda tem influência nos eventos atuais. O que aconteceu ontem não tem a menor importância, por outro lado. Nenhum peso é absoluto, tudo depende do observador. Se o observador for eu, a minha decisão é me responsabilizar por tudo. Até onde minha vista alcança, a culpa é minha e eu vivo assim.
Pode parecer triste, a mentalidade de um deprimido. Mas aí vai o segredo: não me arrependo de nada, e na medida do meu possível, as histórias que passam por mim ficam amarradas e encerradas. Se não ficaram, ainda que minha culpa esteja lá, é porque não pude fazer mais nada. Portanto, não me arrependo de quase praticamente nada.
Apostei, por exemplo, uma caixa de cerveja num relacionamento. Na hora parecia divertido, porque eu tenho essa vaidade de ver no futuro. E eu achei genuinamente que ninguém se machucaria, que tudo seria uma espécie de "polícia e ladrão" de adultos, uma farra. Hoje eu me envergonho de ter feito isso.
Essa é uma das raras vezes que guardei arrependimento. Tiveram outras. Até bem piores. Droga, eu erro. E daí?
Por muito tempo na minha vida eu tentei montar meu time. Não as pessoas perfeitas, mas aquelas que tinham o que eu não tinha. Crente que basta informar seu intento, e ser compreendido, eu me comunico com todo mundo, conto meus planos, me preparo. Luto o tempo todo pelo que eu quero, e não pense que desejo ser feliz - quero apenas ser dono dos meus problemas.
Não quero ser culpado do que os outros decidem jogar nas minhas costas. Não quero carregar ninguém. Não quero parecer um morador de vilarejo de videogame, que está sempre disposto a ajudar qualquer um que passe pela porta.
Quero ter minha família, passar uma chave na porta e respirar. Enquanto o mundo fica lá fora. Fora do meu endereço.
O que eu não aguento é perceber que a insegurança dos outros tem que ser jogada na minha cara. Eu já tenho minhas dúvidas. Eu já tenho meus aborrecimentos. Eu já compartilhei o que era só meu. Vai cuidar da sua vida.
Eu não quero é conviver com pessoas que me irritam profundamente, esbravejam suas verdades na minha cara, interrompem minhas respostas. E quando eu finalmente perco a paciência, de dois em dois anos, e tomo uma atitude, não fiquem choramingando pelos cantos, querendo fugir do monstro.
Não quero aquele olhar imbecil de ignorância, como se eu tivesse simplesmente ficado louco de repente, e o que passou há cinco minutos ser esquecido pelo benefício de uma vítima de ocasião.
Não quero os conhecidos me olhando como se eu fosse o pior ser humano, me encarando como se imaginassem de que maneira aquele homem civilizado se torna um doente mental que ataca sem razão, porque ao meu redor tudo que eu crio é opressão e desgraça.
E se não puder ser assim, então paciência. Vou embora. E nesse dia, desculpe, não vou me arrepender.
Cansei de ser idiota.
quarta-feira, junho 20, 2012
Pára esse táxi que eu tô perdendo honra!
Eu nem conseguiria imitar o jeito que meu amigo fala. Eu só sei dele que é o estúpido mais gentil do mundo. E que tudo que ele fala tá sempre um pouco mais pro lado esquisito do que você esperava.
Enquanto bons amigos dizem
Enquanto bons amigos dizem
Eu e meu amigo, que eu batizei de Ryu, mas já foi Mozart com bermuda havaiana, falamos assim
e não tamos nem aí.
Quem não gostou, que durma no beliche de baixo.
quarta-feira, junho 13, 2012
Educação e você, nada a ver
![]() |
| Encontrei essa citação do Chris Hedges no Facebook, e resolvi adicionar como primeiro recadinho do chalkboard. |
Compramos a idéia de que educação é sobre treinamento e "sucesso", definido monetariamente, mais do que aprender a pensar criticamente e questionar.Quando ele fala que nós compramos, é isso mesmo, o primeiro problema com a educação é que toda ela virou uma compra de conhecimento. Eu compreendo que existe a necessidade de se pagar pelo estudo, e aceito que uma instituição de ensino precise funcionar com dinheiro. Mas não entendo o abandono que o processo de pensamento apresenta nos dias de hoje.
Não podemos nos esquecer de que o principal objetivo da educação é produzir mentes, não carreiras.Com tantas diversidades no pensamento hoje em dia, seria de se esperar que a matriz básica, o feijão com arroz de todos os estabelecimentos de ensino fosse produzir em nós as dúvidas. Como ter dúvida, como debater as dúvidas, como encontrar respostas. Muitos problemas que passamos no dia a dia seriam muito fáceis de se superar com a tolerância gerada pelo verdadeiro diálogo.
Uma cultura que segue atentamente a interação vital entre moralidade e poder,Porque nós ficamos obcecados, e faz tempo, com o progresso da capacidade de registro e o regresso do conteúdo. Pensa nisso assistindo A Fazenda, o BBB, o Brasileirão ou a classe média se assassinando.
que confunde técnicas de gerência com sabedoria,Pense bem, porque afinal existe uma faculdade de Administração? Quando você vira Administrador do Comitê Gestor de Gerências, isso melhora qual parte daquilo que você é?
que falha em entender que a medida da civilização é sua compaixãoE isso infelizmente não significa fotos de gatinho com mensagens legais, juro, isso tá mais pra prestar atenção nas coisas que você faz.
e não sua velocidade ou habilidade para consumir, condena-se à morte.Super bacana você ter conteúdo visível no google, porque tem resenhas bacanas sobre produtos, e aí poder anunciar no seu espaço porque tem audiência o suficiente, mas em que exatamente isso melhora o ser humano que você era?
quarta-feira, abril 18, 2012
seu Mendes.
Quase esqueço de contar essa:
Tava ontem conversando com seu Mendes, esse camarada que vejo menos do que gostaria, e falávamos de um amigo em comum, o Paulo Neo, filho do Gaúcho.
Eu aqui com o ligamento rompido, dizia, e me sentindo meio diminuído por causa disso, contava ao seu Mendes que fui comentar isso com o Neo, e ele me responde que tem os dois ligamentos cruzados rompidos, há anos, só incomoda um pouquinho. Falei sobre como o Neo é um exemplo de força, bravura, coragem. Apesar de, de vez em quando, isso levar nosso amigo a acidentes fabulosos, mas isso não importa, só reafirma o que podemos ver. Dizia ao Mendes que achava o Neo um exemplo a ser admirado. Bem mais que eu, por exemplo, underachiever como me sinto regularmente.
Seu Mendes me encarou com aqueles olhos verdes, aquela chama inextinguível dentro dele, e me disse, "mas você é um exemplo, também. Um exemplo de amizade."
Vocês todos têm que ter a oportunidade de conhecer, um dia, seu Mendes. Algumas colocações dele, durante a conversa, são colocadas de maneira lapidar. É como se todo ele estivesse naquela frase em especial. E foi com esse tom que ele me encarou, e disse o que citei acima. Lapidar. Firme.
Eu não estava esperando. Esse comentário calou lá no fundo do meu coração.
Pior ainda, tinha que subir ao apartamento para resolver uns pequenos assuntos, pouco importantes porém urgentes. Tive que me despedir às pressas do seu Mendes, lágrimas correndo pelo rosto.
Ah, seu Mendes. Obrigado. Sei que você dificilmente vai ler estas linhas toscas, mas fica aqui meu agradecimento.
domingo, fevereiro 19, 2012
Fevereiro até aqui
As pessoas fazem um baita marketing desse negócio de entender o mundo pela bondade. Julga-se pelo luto, pela tristeza, julgar a tudo e a todos é fácil, só abrir o Facebook e tudo lá está.
Hoje, eu vou me expor a este julgamento.
Fazendo um rápido balanço desse mês, comecei rompendo o ligamento cruzado do joelho, usaram meu cartão de crédito na internet, clonaram meus cheques, a reforma da casa da minha mãe foi o dobro do esperado (tudo bem, sempre é, né). Estou de molho no carnaval, o que normalmente faço mesmo, mas desta vez esperando a perna dar uma melhorada enquanto avalio se vou operar ou não. Provavelmente não tem jeito. Uma ex namorada deu pequenos peripaques inexplicáveis.
Mas olhando pelo lado bom, estornei as compras indevidas com o cartão, estornei os cheques clonados, tenho alguns bons amigos com que contar, ganhei um PS3 com Skyrim e Fallout 3, tô quase terminando meu tratamento dentário radical e doloroso, tenho uma namorada fogosa que me adora...
E, mais importante, minha avó morreu.
Vamos lá, transeuntes, julguem à vontade. Me olhem feio. Sou abominável, estou em júbilo porque minha avó passou um ano sofrendo e morreu. E acrescento, foi é pouco. Quebrou a perna e passou um ano esperando a pressão regular pra poder operar, não deu, o calcanhar necrosou. E digo, de novo, foi é pouco.
Regularmente, sou ateu. Como qualquer pessoa, tem horas que a coisa enrosca e não dá pra explicar, sinto que tem um poder maior, uma força, não tenho erudição pra explicar, mas parece que às vezes sinto que faz sentido contar com um Deus. Essa é uma hora dessas. Quero que Deus exista, pra que, existindo, tenha criado um Inferno, complexo como os são os pecados dos homens. E nesse apelo desesperado por um além-vida, espero que este tipo de Deus esteja encarando minha avó agora.
Eu tenho certeza que alguns conhecidos, ao ler estas linhas, se escandalizará. Se a estes pobres for dado o hábito da leitura, sugiro que procurem num sebo o romance de Agatha Christie, Cai o Pano. Ou preste muita atenção na descrição factível que Holmes dá de seu arqui-rival Moriarty.
Um inimigo que manipula joguetes para seus crimes, uma entidade por trás do mal, fertilizando a discórdia e as mágoas. Um inimigo de inteligência tão versátil, de domínios tão variegados, que a única assinatura de seus malfeitos é que eles não têm assinatura alguma. Essa era a minha avó.
E para aqueles que ainda se escandalizam com minhas palavras, digo que foi tarde: dois de seus filhos ela conseguiu enterrar, ambos com problemas emocionais tão sérios que, pela tristeza, ou como eu creio, pela torpeza dos atos de outrém, foram levados dessa vida antes da hora. Eu mesmo, que me levantei na última hora tantas vezes da vala de emoções perdidas, poderia ter sido uma terceira alma a cair pela vilania indireta dessa monstra. Minha mãe, primogênita dela, até hoje com o emocional tão abalado que não se sente bem em lugar algum, poderia ter sido mais uma. De uma longa lista.
Falem o que quiser, mas eu sei do que eu vi: uma família numerosa, partida em vários pedaços, calcada em ódio, irmãos se odiando, mães e filhos que não se falam mais até hoje, e aquela criatura lamentável, com um brilho enfeitiçado no olhar, em regozijo, sorrindo, no meio. Vivi com ela, na intimidade, e lembro claramente de ouvi-la por horas se gabando de quem ela tinha deixado colérico naquele dia, ou no outro.
Tenho a mesma inteligência que a dela, talvez não tão desenvolvida, e sei que poderia fazer o mesmo que ela fazia, infernizar os outros só pelo mesmo sentimento que uma criança aleijando um inseto: o poder. Ou a ilusão dele. Não importa, não caí, não me nivelei, e estou aqui dizendo, "vivi, mais que ela, melhor que ela, e sou amado".
Ela que se dane.
Hoje, eu vou me expor a este julgamento.
Fazendo um rápido balanço desse mês, comecei rompendo o ligamento cruzado do joelho, usaram meu cartão de crédito na internet, clonaram meus cheques, a reforma da casa da minha mãe foi o dobro do esperado (tudo bem, sempre é, né). Estou de molho no carnaval, o que normalmente faço mesmo, mas desta vez esperando a perna dar uma melhorada enquanto avalio se vou operar ou não. Provavelmente não tem jeito. Uma ex namorada deu pequenos peripaques inexplicáveis.
Mas olhando pelo lado bom, estornei as compras indevidas com o cartão, estornei os cheques clonados, tenho alguns bons amigos com que contar, ganhei um PS3 com Skyrim e Fallout 3, tô quase terminando meu tratamento dentário radical e doloroso, tenho uma namorada fogosa que me adora...
E, mais importante, minha avó morreu.
Vamos lá, transeuntes, julguem à vontade. Me olhem feio. Sou abominável, estou em júbilo porque minha avó passou um ano sofrendo e morreu. E acrescento, foi é pouco. Quebrou a perna e passou um ano esperando a pressão regular pra poder operar, não deu, o calcanhar necrosou. E digo, de novo, foi é pouco.
Regularmente, sou ateu. Como qualquer pessoa, tem horas que a coisa enrosca e não dá pra explicar, sinto que tem um poder maior, uma força, não tenho erudição pra explicar, mas parece que às vezes sinto que faz sentido contar com um Deus. Essa é uma hora dessas. Quero que Deus exista, pra que, existindo, tenha criado um Inferno, complexo como os são os pecados dos homens. E nesse apelo desesperado por um além-vida, espero que este tipo de Deus esteja encarando minha avó agora.
Eu tenho certeza que alguns conhecidos, ao ler estas linhas, se escandalizará. Se a estes pobres for dado o hábito da leitura, sugiro que procurem num sebo o romance de Agatha Christie, Cai o Pano. Ou preste muita atenção na descrição factível que Holmes dá de seu arqui-rival Moriarty.
Um inimigo que manipula joguetes para seus crimes, uma entidade por trás do mal, fertilizando a discórdia e as mágoas. Um inimigo de inteligência tão versátil, de domínios tão variegados, que a única assinatura de seus malfeitos é que eles não têm assinatura alguma. Essa era a minha avó.
E para aqueles que ainda se escandalizam com minhas palavras, digo que foi tarde: dois de seus filhos ela conseguiu enterrar, ambos com problemas emocionais tão sérios que, pela tristeza, ou como eu creio, pela torpeza dos atos de outrém, foram levados dessa vida antes da hora. Eu mesmo, que me levantei na última hora tantas vezes da vala de emoções perdidas, poderia ter sido uma terceira alma a cair pela vilania indireta dessa monstra. Minha mãe, primogênita dela, até hoje com o emocional tão abalado que não se sente bem em lugar algum, poderia ter sido mais uma. De uma longa lista.
Falem o que quiser, mas eu sei do que eu vi: uma família numerosa, partida em vários pedaços, calcada em ódio, irmãos se odiando, mães e filhos que não se falam mais até hoje, e aquela criatura lamentável, com um brilho enfeitiçado no olhar, em regozijo, sorrindo, no meio. Vivi com ela, na intimidade, e lembro claramente de ouvi-la por horas se gabando de quem ela tinha deixado colérico naquele dia, ou no outro.
Tenho a mesma inteligência que a dela, talvez não tão desenvolvida, e sei que poderia fazer o mesmo que ela fazia, infernizar os outros só pelo mesmo sentimento que uma criança aleijando um inseto: o poder. Ou a ilusão dele. Não importa, não caí, não me nivelei, e estou aqui dizendo, "vivi, mais que ela, melhor que ela, e sou amado".
Ela que se dane.
quinta-feira, dezembro 15, 2011
Paciência Acabando...
Mas então, né?
Continuamos a atender com carinho, mesmo o cliente mais dedicado ao esporte de aporrinhar nossos ovinhos.
***
"Moço, o mause que o senhor está vendendo aqui a duzentos reais está a cem reais aqui ao lado..."
Parabéns, madame, compre aqui ao lado, quer que eu diga o quê?
A madame sai satisfeita, depois de esfregar o mouse comprado na nossa carinha linda, e entra na loja de lingerie.
Desculpa, será que eu deveria ir atrás dela e dizer, "pare, madame, essa calcinha custa MUITO MAIS BARATO na Americanas, e seu marido não vai notar a menor diferença!" ?
***
Você muda de camisa aqui em Ipanema e o pessoal te trata diferente. Se você veste uma camiseta lisa, simples, as pessoas assumem que você é pobre, e precisa ser tratado com monossílabos. Se o senhor veste uma camisa social, com botões, o tratamento já muda, bem se vê.
Entendo, as pessoas em geral não gostam de pobre, e distinção social é uma coisa tão subjetiva que nem vale a pena se chatear com isso. Mas não parece justo a você, já que o morador de Zona Sul detesta pobre, que ele pare de imitar um? Vem aqui na loja, precisa de uma ajudinha, um favorzinho, só tirar uma dúvida. Tudo de graça, tudo pra poder escolher melhor o que vai comprar em outro lugar.
Aliás, desculpe, os pobres que eu conheço, na verdade, entram na loja sabendo o que querem, perguntam o preço, pagam na bucha (vá lá, às vezes pedem desconto e estão certíssimos) e saem da loja de informática sem nenhum drama na consciência.
Agora os ricos, acham que é uma graça entrarem na loja, fazem umas piadinhas ridículas, avisam de cara que não vão tolerar abuso, olham tudo, escolhem tudo, preço de tudo, e no final, a dúvida é se a gente vende lâmpada ou capa de celular.
"já tentou ver na loja de lâmpada se tem lâmpada?"
Continuamos a atender com carinho, mesmo o cliente mais dedicado ao esporte de aporrinhar nossos ovinhos.
***
"Moço, o mause que o senhor está vendendo aqui a duzentos reais está a cem reais aqui ao lado..."
Parabéns, madame, compre aqui ao lado, quer que eu diga o quê?
A madame sai satisfeita, depois de esfregar o mouse comprado na nossa carinha linda, e entra na loja de lingerie.
Desculpa, será que eu deveria ir atrás dela e dizer, "pare, madame, essa calcinha custa MUITO MAIS BARATO na Americanas, e seu marido não vai notar a menor diferença!" ?
***
Você muda de camisa aqui em Ipanema e o pessoal te trata diferente. Se você veste uma camiseta lisa, simples, as pessoas assumem que você é pobre, e precisa ser tratado com monossílabos. Se o senhor veste uma camisa social, com botões, o tratamento já muda, bem se vê.
Entendo, as pessoas em geral não gostam de pobre, e distinção social é uma coisa tão subjetiva que nem vale a pena se chatear com isso. Mas não parece justo a você, já que o morador de Zona Sul detesta pobre, que ele pare de imitar um? Vem aqui na loja, precisa de uma ajudinha, um favorzinho, só tirar uma dúvida. Tudo de graça, tudo pra poder escolher melhor o que vai comprar em outro lugar.
Aliás, desculpe, os pobres que eu conheço, na verdade, entram na loja sabendo o que querem, perguntam o preço, pagam na bucha (vá lá, às vezes pedem desconto e estão certíssimos) e saem da loja de informática sem nenhum drama na consciência.
Agora os ricos, acham que é uma graça entrarem na loja, fazem umas piadinhas ridículas, avisam de cara que não vão tolerar abuso, olham tudo, escolhem tudo, preço de tudo, e no final, a dúvida é se a gente vende lâmpada ou capa de celular.
"já tentou ver na loja de lâmpada se tem lâmpada?"
sexta-feira, novembro 18, 2011
Sra. Dafoe
| Mãe, deixa o moço terminar a outra venda! |
Sei que os amigos que acompanham outros blogs ficam com a impressão de que o atendente só está lá pra receber seu suado salarinho após hoooooras de conversa alegre e animada, mas eu tenho uma novidade incrível pra contar pra vocês: a gente precisa vender!
Enfim, encurtando que a hora tá passando rápido, no meio do atendimento do ca$al me entra uma mulher, que eu só posso definir como mãe do Willem Dafoe, aos brados, querendo um caaaaaboooaaam de enfiar no computadoaaaarrrm
Puta merda, viu. Depois eu falo mais, galerê.
Beijão.
sábado, novembro 05, 2011
Atenções e Atendimentos (espero que seja Parte I)
Pra começar o dia: chave na porta da loja, vem a simpática e mete (nove da manhã pelamorrrrr): "Oian, Você trabalha aquiahn?"
Sabe, aquela pessoa que mastiga o rabo das palavras? Solta cada uma com um 'ahn' no final? Pois é, eu acordei cedo pra chegar na loja e atender essa fofura.
"É que eu tô procurandoahn um modem 3d. Você vendeahn?"
Eu imaginando aqueles smurfs gigantes do filme do James Cameron correndo pra cá e pra lá com um cubo incrível na mão, recomendei que ela procurasse o modem numa loja de celular. Que ela pedisse um aparelho de terceira geração que usa chip de celular para acessar as internets.
-
Uma série de clientes depois, um mais lindo que o outro, como por exemplo a simpática senhora que veio comprar dois CDs e comentou que nosso horário de abertura era muito tarde. Ela esteve aqui, fez questão de dizer, às 8:50 da manhã, e nós ainda estávamos fechados. Incrível a capacidade dela de entrar antes do horário de abertura da galeria.
Mas eu dizia, entra um camarada com umas folhas disciplinadamente grampeadas na mão. Ipanema's People é alérgico a Bom Dia, Como Vai, Por Favor, então não preciso dizer que chegou com aqueles ares de quem inventou a roda, a pólvora e o bilboquê na mesma tarde de tédio. "Vim aqui porque você entende!", declarou o estranho, juro, mesmo com toda minha falta de memória, nunca vi o cabra mais gordo. Fiquei olhando com cara de cachorro que caiu da mudança, sabendo que falar perto de maluco pode agravar os sintomas.
"Eu estou prestes a comprar", disse o ilustre, enquanto re-organizava os papéis no balcão, deixando que eu perceba que eram dois grupos de folha devidamente grampeados, um original e uma xerox, "um receiver... E preciso saber se mil e oitocentos reais é um bom preço".
Percebi pelo silêncio que realmente não ia escapar dessa fazendo personagem de cinema mudo. Respondi "senhor, o que é um receiver?" pra ver se o gajo se apercebia da grosseria de incomodar quem trabalha.
Ele parou pra explicar.
Explicou detalhadamente, listando equipamentos, características gerais, marcas e modelos, e no final disse que precisava de ajuda para pensar em uma oferta de um amigo, porque viu na internet pela metade.
Eu acho lindo cliente que entra só pra olhar. Ele é muito melhor que o miserável que entra na loja pra pegar consultoria. Ou fazer um divãzinho básico no 0800.
Como matar um técnico
Eu parei de dar aula, inclusive, porque um determinado sujeito me pegou uma noite de sábado (eu de jantar marcado com a namorada), pra correr na casa dele, urgentíssimo, pra - note bem - continuar ajudando ele com o MP4 francês. Na época, realmente era o último grito ter um MP4, mas a gente fica meio desencantado com essas besteiras depois de alguns anos de estrada. Ele fez questão de dizer que pagava pela urgência. Eu tomei nota.O camarada já sabia que ia pagar pelo táxi, e por cada hora de atendimento, quando eu cheguei na casa dele. Ainda assim, fez questão de terminar de jantar sem me convidar. Fiquei de terno, em pé, num canto da sala enquanto ele e a irmã jantavam fingindo que eu era parte da mobília. Nesse mesmo canto, falei ao celular, desmarcando o jantar e tomando o cacetésimo esporro da minha vida. É, eu adoro a gandaia encantadora de ser técnico/instrutor.
Só para esclarecer, o cidadão me pagava para ouvir a pergunta dele, procurar no manual dele a resposta, e ler a resposta em voz alta. Juro. Instruções sobre um MP4. Sábado à noite. Juro.
Ele me dava uma olhada de cima a baixo, a cada dez minutos, enquanto perguntava se eu não tinha mesmo um arquivo de MP4 em algum bolso. O que demonstrava 1) o quanto ele prestava atenção no que eu dizia de verdade; 2) que eu era um mago digital que dava hadouken de arquivo; 3) que criatura miserável ele era.
Depois de quarenta minutos lendo historinha pra ele dormir (mesmo efeito), ele se deu por cansado da brincadeira e resolveu que ia me pagar. Surpresa, em cheque. Surpresa, querendo saber quanto davam quarenta minutos da minha hora habitual (R$ 30,00 na época).
"Amigo," expliquei ainda calmamente "eu estou há uma hora e meia aqui dentro da sua casa. Hoje é sábado à noite, eu cancelei um compromisso pessoal para atender o senhor em emergência, e além do táxi, o senhor me deve duas horas, de oitenta reais cada."
Você argumentaria comigo numa hora dessas? Ele tentou.
Eu estava de frente pra ele, encostado numa estante, e no começo da resposta dele, eu estiquei o braço pra trás e fechei os dedos na primeira coisa que coube. Eu realmente, juro, realmente ia matar o cara. Minha mão estava fechada num objeto de metal qualquer e eu ia avançar pra cima dele, depois matar a irmã dele, e mais qualquer um que estivesse na casa.
No exato momento que estava passando o braço pra frente, pra armar o golpe, o pai dele apareceu no quarto, atrás de mim. Deu um sorriso conciliador, e ainda no sorriso, virou-se para o filho e suavemente disse: "filho, cale a porra da sua boca". Era um ator Global, mais tarde viria a ser candidato a alguma coisa, e com todo o carinho, com a voz suave que já tinha usadi pra seduzir Tonias Carreros, Cristianes Torlonis, Suzanas Vieiras e outras que tais, ele singelamente resolveu a extensão de tempo de vida do filho. Nesse ínterim, eu olhava para minha própria mão e analisava a arma do quase-crime: uma miniatura de kombi, branca e azul.
domingo, junho 19, 2011
Ela
Já esteve aqui alguns anteontens. Morou um pouco na minha cabeça, um pouco no meu coração e se mudou para onde a vida dos outros se muda, depois que somem. Lá, ela cuidou com todo o carinho dela mesma, mas não deixou de ser si mesma, nem sofrendo nem gozando. Que nem eu, acho, mas eu falho às vezes. Aqui e ali.
Importante mesmo é que ela voltou. De toda a terra de Ausência, ela voltou com histórias, cicatrizes, aquilo que todos temos depois de algumas peregrinações. Forte como sempre.
Dá a cada dia sua força, de cada dia tem o que é seu, e vive sua vida em paz.
Agora, aqui. Em mim.
Importante mesmo é que ela voltou. De toda a terra de Ausência, ela voltou com histórias, cicatrizes, aquilo que todos temos depois de algumas peregrinações. Forte como sempre.
Dá a cada dia sua força, de cada dia tem o que é seu, e vive sua vida em paz.
Agora, aqui. Em mim.
Assinar:
Postagens (Atom)
Atualização
Na última vez que escrevi neste blog, estava me despedindo de Denise. Uma vida inteira pensando se poderíamos ficar juntos, e o tempo que t...
-
A Anne Rice compartilhou esta matéria pelo Facebook, e decidi traduzir. Notem que não sou tradutor profissional, estou apenas oferecendo o...
-
O sentimento de novo mestre da humanidade foi sumindo nos dias que vieram, e foi dando espaço a um sentimento de execução iminente. Ia doer?...




.jpg)