As pessoas fazem um baita marketing desse negócio de entender o mundo pela bondade. Julga-se pelo luto, pela tristeza, julgar a tudo e a todos é fácil, só abrir o Facebook e tudo lá está.
Hoje, eu vou me expor a este julgamento.
Fazendo um rápido balanço desse mês, comecei rompendo o ligamento cruzado do joelho, usaram meu cartão de crédito na internet, clonaram meus cheques, a reforma da casa da minha mãe foi o dobro do esperado (tudo bem, sempre é, né). Estou de molho no carnaval, o que normalmente faço mesmo, mas desta vez esperando a perna dar uma melhorada enquanto avalio se vou operar ou não. Provavelmente não tem jeito. Uma ex namorada deu pequenos peripaques inexplicáveis.
Mas olhando pelo lado bom, estornei as compras indevidas com o cartão, estornei os cheques clonados, tenho alguns bons amigos com que contar, ganhei um PS3 com Skyrim e Fallout 3, tô quase terminando meu tratamento dentário radical e doloroso, tenho uma namorada fogosa que me adora...
E, mais importante, minha avó morreu.
Vamos lá, transeuntes, julguem à vontade. Me olhem feio. Sou abominável, estou em júbilo porque minha avó passou um ano sofrendo e morreu. E acrescento, foi é pouco. Quebrou a perna e passou um ano esperando a pressão regular pra poder operar, não deu, o calcanhar necrosou. E digo, de novo, foi é pouco.
Regularmente, sou ateu. Como qualquer pessoa, tem horas que a coisa enrosca e não dá pra explicar, sinto que tem um poder maior, uma força, não tenho erudição pra explicar, mas parece que às vezes sinto que faz sentido contar com um Deus. Essa é uma hora dessas. Quero que Deus exista, pra que, existindo, tenha criado um Inferno, complexo como os são os pecados dos homens. E nesse apelo desesperado por um além-vida, espero que este tipo de Deus esteja encarando minha avó agora.
Eu tenho certeza que alguns conhecidos, ao ler estas linhas, se escandalizará. Se a estes pobres for dado o hábito da leitura, sugiro que procurem num sebo o romance de Agatha Christie, Cai o Pano. Ou preste muita atenção na descrição factível que Holmes dá de seu arqui-rival Moriarty.
Um inimigo que manipula joguetes para seus crimes, uma entidade por trás do mal, fertilizando a discórdia e as mágoas. Um inimigo de inteligência tão versátil, de domínios tão variegados, que a única assinatura de seus malfeitos é que eles não têm assinatura alguma. Essa era a minha avó.
E para aqueles que ainda se escandalizam com minhas palavras, digo que foi tarde: dois de seus filhos ela conseguiu enterrar, ambos com problemas emocionais tão sérios que, pela tristeza, ou como eu creio, pela torpeza dos atos de outrém, foram levados dessa vida antes da hora. Eu mesmo, que me levantei na última hora tantas vezes da vala de emoções perdidas, poderia ter sido uma terceira alma a cair pela vilania indireta dessa monstra. Minha mãe, primogênita dela, até hoje com o emocional tão abalado que não se sente bem em lugar algum, poderia ter sido mais uma. De uma longa lista.
Falem o que quiser, mas eu sei do que eu vi: uma família numerosa, partida em vários pedaços, calcada em ódio, irmãos se odiando, mães e filhos que não se falam mais até hoje, e aquela criatura lamentável, com um brilho enfeitiçado no olhar, em regozijo, sorrindo, no meio. Vivi com ela, na intimidade, e lembro claramente de ouvi-la por horas se gabando de quem ela tinha deixado colérico naquele dia, ou no outro.
Tenho a mesma inteligência que a dela, talvez não tão desenvolvida, e sei que poderia fazer o mesmo que ela fazia, infernizar os outros só pelo mesmo sentimento que uma criança aleijando um inseto: o poder. Ou a ilusão dele. Não importa, não caí, não me nivelei, e estou aqui dizendo, "vivi, mais que ela, melhor que ela, e sou amado".
Ela que se dane.
domingo, fevereiro 19, 2012
quinta-feira, dezembro 15, 2011
Paciência Acabando...
Mas então, né?
Continuamos a atender com carinho, mesmo o cliente mais dedicado ao esporte de aporrinhar nossos ovinhos.
***
"Moço, o mause que o senhor está vendendo aqui a duzentos reais está a cem reais aqui ao lado..."
Parabéns, madame, compre aqui ao lado, quer que eu diga o quê?
A madame sai satisfeita, depois de esfregar o mouse comprado na nossa carinha linda, e entra na loja de lingerie.
Desculpa, será que eu deveria ir atrás dela e dizer, "pare, madame, essa calcinha custa MUITO MAIS BARATO na Americanas, e seu marido não vai notar a menor diferença!" ?
***
Você muda de camisa aqui em Ipanema e o pessoal te trata diferente. Se você veste uma camiseta lisa, simples, as pessoas assumem que você é pobre, e precisa ser tratado com monossílabos. Se o senhor veste uma camisa social, com botões, o tratamento já muda, bem se vê.
Entendo, as pessoas em geral não gostam de pobre, e distinção social é uma coisa tão subjetiva que nem vale a pena se chatear com isso. Mas não parece justo a você, já que o morador de Zona Sul detesta pobre, que ele pare de imitar um? Vem aqui na loja, precisa de uma ajudinha, um favorzinho, só tirar uma dúvida. Tudo de graça, tudo pra poder escolher melhor o que vai comprar em outro lugar.
Aliás, desculpe, os pobres que eu conheço, na verdade, entram na loja sabendo o que querem, perguntam o preço, pagam na bucha (vá lá, às vezes pedem desconto e estão certíssimos) e saem da loja de informática sem nenhum drama na consciência.
Agora os ricos, acham que é uma graça entrarem na loja, fazem umas piadinhas ridículas, avisam de cara que não vão tolerar abuso, olham tudo, escolhem tudo, preço de tudo, e no final, a dúvida é se a gente vende lâmpada ou capa de celular.
"já tentou ver na loja de lâmpada se tem lâmpada?"
Continuamos a atender com carinho, mesmo o cliente mais dedicado ao esporte de aporrinhar nossos ovinhos.
***
"Moço, o mause que o senhor está vendendo aqui a duzentos reais está a cem reais aqui ao lado..."
Parabéns, madame, compre aqui ao lado, quer que eu diga o quê?
A madame sai satisfeita, depois de esfregar o mouse comprado na nossa carinha linda, e entra na loja de lingerie.
Desculpa, será que eu deveria ir atrás dela e dizer, "pare, madame, essa calcinha custa MUITO MAIS BARATO na Americanas, e seu marido não vai notar a menor diferença!" ?
***
Você muda de camisa aqui em Ipanema e o pessoal te trata diferente. Se você veste uma camiseta lisa, simples, as pessoas assumem que você é pobre, e precisa ser tratado com monossílabos. Se o senhor veste uma camisa social, com botões, o tratamento já muda, bem se vê.
Entendo, as pessoas em geral não gostam de pobre, e distinção social é uma coisa tão subjetiva que nem vale a pena se chatear com isso. Mas não parece justo a você, já que o morador de Zona Sul detesta pobre, que ele pare de imitar um? Vem aqui na loja, precisa de uma ajudinha, um favorzinho, só tirar uma dúvida. Tudo de graça, tudo pra poder escolher melhor o que vai comprar em outro lugar.
Aliás, desculpe, os pobres que eu conheço, na verdade, entram na loja sabendo o que querem, perguntam o preço, pagam na bucha (vá lá, às vezes pedem desconto e estão certíssimos) e saem da loja de informática sem nenhum drama na consciência.
Agora os ricos, acham que é uma graça entrarem na loja, fazem umas piadinhas ridículas, avisam de cara que não vão tolerar abuso, olham tudo, escolhem tudo, preço de tudo, e no final, a dúvida é se a gente vende lâmpada ou capa de celular.
"já tentou ver na loja de lâmpada se tem lâmpada?"
sexta-feira, novembro 18, 2011
Sra. Dafoe
| Mãe, deixa o moço terminar a outra venda! |
Sei que os amigos que acompanham outros blogs ficam com a impressão de que o atendente só está lá pra receber seu suado salarinho após hoooooras de conversa alegre e animada, mas eu tenho uma novidade incrível pra contar pra vocês: a gente precisa vender!
Enfim, encurtando que a hora tá passando rápido, no meio do atendimento do ca$al me entra uma mulher, que eu só posso definir como mãe do Willem Dafoe, aos brados, querendo um caaaaaboooaaam de enfiar no computadoaaaarrrm
Puta merda, viu. Depois eu falo mais, galerê.
Beijão.
sábado, novembro 05, 2011
Atenções e Atendimentos (espero que seja Parte I)
Pra começar o dia: chave na porta da loja, vem a simpática e mete (nove da manhã pelamorrrrr): "Oian, Você trabalha aquiahn?"
Sabe, aquela pessoa que mastiga o rabo das palavras? Solta cada uma com um 'ahn' no final? Pois é, eu acordei cedo pra chegar na loja e atender essa fofura.
"É que eu tô procurandoahn um modem 3d. Você vendeahn?"
Eu imaginando aqueles smurfs gigantes do filme do James Cameron correndo pra cá e pra lá com um cubo incrível na mão, recomendei que ela procurasse o modem numa loja de celular. Que ela pedisse um aparelho de terceira geração que usa chip de celular para acessar as internets.
-
Uma série de clientes depois, um mais lindo que o outro, como por exemplo a simpática senhora que veio comprar dois CDs e comentou que nosso horário de abertura era muito tarde. Ela esteve aqui, fez questão de dizer, às 8:50 da manhã, e nós ainda estávamos fechados. Incrível a capacidade dela de entrar antes do horário de abertura da galeria.
Mas eu dizia, entra um camarada com umas folhas disciplinadamente grampeadas na mão. Ipanema's People é alérgico a Bom Dia, Como Vai, Por Favor, então não preciso dizer que chegou com aqueles ares de quem inventou a roda, a pólvora e o bilboquê na mesma tarde de tédio. "Vim aqui porque você entende!", declarou o estranho, juro, mesmo com toda minha falta de memória, nunca vi o cabra mais gordo. Fiquei olhando com cara de cachorro que caiu da mudança, sabendo que falar perto de maluco pode agravar os sintomas.
"Eu estou prestes a comprar", disse o ilustre, enquanto re-organizava os papéis no balcão, deixando que eu perceba que eram dois grupos de folha devidamente grampeados, um original e uma xerox, "um receiver... E preciso saber se mil e oitocentos reais é um bom preço".
Percebi pelo silêncio que realmente não ia escapar dessa fazendo personagem de cinema mudo. Respondi "senhor, o que é um receiver?" pra ver se o gajo se apercebia da grosseria de incomodar quem trabalha.
Ele parou pra explicar.
Explicou detalhadamente, listando equipamentos, características gerais, marcas e modelos, e no final disse que precisava de ajuda para pensar em uma oferta de um amigo, porque viu na internet pela metade.
Eu acho lindo cliente que entra só pra olhar. Ele é muito melhor que o miserável que entra na loja pra pegar consultoria. Ou fazer um divãzinho básico no 0800.
Como matar um técnico
Eu parei de dar aula, inclusive, porque um determinado sujeito me pegou uma noite de sábado (eu de jantar marcado com a namorada), pra correr na casa dele, urgentíssimo, pra - note bem - continuar ajudando ele com o MP4 francês. Na época, realmente era o último grito ter um MP4, mas a gente fica meio desencantado com essas besteiras depois de alguns anos de estrada. Ele fez questão de dizer que pagava pela urgência. Eu tomei nota.O camarada já sabia que ia pagar pelo táxi, e por cada hora de atendimento, quando eu cheguei na casa dele. Ainda assim, fez questão de terminar de jantar sem me convidar. Fiquei de terno, em pé, num canto da sala enquanto ele e a irmã jantavam fingindo que eu era parte da mobília. Nesse mesmo canto, falei ao celular, desmarcando o jantar e tomando o cacetésimo esporro da minha vida. É, eu adoro a gandaia encantadora de ser técnico/instrutor.
Só para esclarecer, o cidadão me pagava para ouvir a pergunta dele, procurar no manual dele a resposta, e ler a resposta em voz alta. Juro. Instruções sobre um MP4. Sábado à noite. Juro.
Ele me dava uma olhada de cima a baixo, a cada dez minutos, enquanto perguntava se eu não tinha mesmo um arquivo de MP4 em algum bolso. O que demonstrava 1) o quanto ele prestava atenção no que eu dizia de verdade; 2) que eu era um mago digital que dava hadouken de arquivo; 3) que criatura miserável ele era.
Depois de quarenta minutos lendo historinha pra ele dormir (mesmo efeito), ele se deu por cansado da brincadeira e resolveu que ia me pagar. Surpresa, em cheque. Surpresa, querendo saber quanto davam quarenta minutos da minha hora habitual (R$ 30,00 na época).
"Amigo," expliquei ainda calmamente "eu estou há uma hora e meia aqui dentro da sua casa. Hoje é sábado à noite, eu cancelei um compromisso pessoal para atender o senhor em emergência, e além do táxi, o senhor me deve duas horas, de oitenta reais cada."
Você argumentaria comigo numa hora dessas? Ele tentou.
Eu estava de frente pra ele, encostado numa estante, e no começo da resposta dele, eu estiquei o braço pra trás e fechei os dedos na primeira coisa que coube. Eu realmente, juro, realmente ia matar o cara. Minha mão estava fechada num objeto de metal qualquer e eu ia avançar pra cima dele, depois matar a irmã dele, e mais qualquer um que estivesse na casa.
No exato momento que estava passando o braço pra frente, pra armar o golpe, o pai dele apareceu no quarto, atrás de mim. Deu um sorriso conciliador, e ainda no sorriso, virou-se para o filho e suavemente disse: "filho, cale a porra da sua boca". Era um ator Global, mais tarde viria a ser candidato a alguma coisa, e com todo o carinho, com a voz suave que já tinha usadi pra seduzir Tonias Carreros, Cristianes Torlonis, Suzanas Vieiras e outras que tais, ele singelamente resolveu a extensão de tempo de vida do filho. Nesse ínterim, eu olhava para minha própria mão e analisava a arma do quase-crime: uma miniatura de kombi, branca e azul.
domingo, junho 19, 2011
Ela
Já esteve aqui alguns anteontens. Morou um pouco na minha cabeça, um pouco no meu coração e se mudou para onde a vida dos outros se muda, depois que somem. Lá, ela cuidou com todo o carinho dela mesma, mas não deixou de ser si mesma, nem sofrendo nem gozando. Que nem eu, acho, mas eu falho às vezes. Aqui e ali.
Importante mesmo é que ela voltou. De toda a terra de Ausência, ela voltou com histórias, cicatrizes, aquilo que todos temos depois de algumas peregrinações. Forte como sempre.
Dá a cada dia sua força, de cada dia tem o que é seu, e vive sua vida em paz.
Agora, aqui. Em mim.
Importante mesmo é que ela voltou. De toda a terra de Ausência, ela voltou com histórias, cicatrizes, aquilo que todos temos depois de algumas peregrinações. Forte como sempre.
Dá a cada dia sua força, de cada dia tem o que é seu, e vive sua vida em paz.
Agora, aqui. Em mim.
quarta-feira, abril 13, 2011
Branca da net e os 7 linux
Por Teo Ruf Ools
Era uma vez.
Um dia de péssimas conexões, onde se conectava e caia, em uma vasta rede de comunicações tudo era possível de acontecer.
Bits vão, bites vem. Branca da net logava-se em seu netbook, e no quarto ao lado estava sua terrível madrasta, com a morte de seu pai a branca da net passou a ser cuidada pela sua madrasta, que logo seria sua terrível inimiga. A madrasta tinha mania de beleza e todos os dias se logava e repetia a mesma frase “Google, Google meu existe netbook melhor que o meu?” e as resposta sempre era a mesma: “Sua pesquisa - netbook mais rápido que o da madrasta - não encontrou nenhum documento correspondente.”.
Mas um belo dia “Google, Google meu existe netbook melhor que o meu?” e a resposta não foi muito boa “O Google encontrou um resultado para netbook mais rápido que o da madrasta: ‘Branca de Neve com netbook Pentium i7”, e a rainha “nãooooooo seu traste, como pode ter um net tão rápido que o meu?” e o Google respondeu “sua verção de pentium 4 já esta ultrapassada minha senhora!!!”. A rainha então com muita raiva por ter perdido seu posto decidiu acabar com sua rival.
Enquanto isso branca da net estava em seu Orkut e e-mail. Quando de repente recebeu um spam que dizia “acesse suas fotos, e verás sua grande inimiga e que quer te assassinar! Pois você é a detentora do processador mas rápido”. Sem entender branca da net desconecta seu netbook e sai correndo floresta a dentro, quando de repente avistou um casinha no meio da imensidão da floresta e sem saber de quem era aquela pequenina casinha ela adentro.
A noite foi caindo, o sono foi chegando e branca da net adormeceu, e os donos da casinha voltarão de um dia exaustivo de processos e construções de bancos de dados. Quando chegaram em casa viram uma bela moça deitada em uma das pequenas camas. Assustados os linux, foram chegando perto da linda mulher. Trataram de acessar sua pequena rede wi-fi e rapidamente descobriram que a linda mulher era na verdade a princesa da cidade de Microsoft, filha do rei Bill Gates.
No castelo, a rainha começou sua busca por um assassino cruel e encontrou no Vale do Silício, o senhor Cavalo de Tróia, prometendo jóias, se o mesmo acaba se com sua enteada, e o Cavalo de Tróia foi atrás da princesa. Dias de buscas sem sucesso.
Na casinha, branca da net acordara e descobriu que não estava só: seus anfitriões os pequeninos linux a observavam dormir, então eles se conheceram. Alguns dias depois a princesa resolveu ir ao chipset para colher informaçãs quando finalmente o sr Cavalo de Tróia a encontrou e disse para ela “princesa, vim aqui para mata-la” mas intrigado por sou aura de norton que jamais viu no Vale do Silício. O sr Cavalo de Tróia não teve coragem para matá-la, mas como tinha que levar provas de que tinha cumprido as ordens da rainha ele decidiu “não vou fazer essa crueldade”. Guardou o pen drive, tirou do bolso um pentium i7 e disse ”Vou entregar esse, como se tivesse arrancado do seu equipamento”.
Voltando para casinha Branca colocou seu computador para carregar e ligou-o na internet. Fez a conexão com o provedor Oiiiiiiiiiii.com e entrou numa sala de bate-papo. Conversa vai, conversa vem, ficou um tempão papeando e em busca do nick de Príncipe.
Enquanto isso... no castelo da rainha, chegava um e-mail dizendo que o Sr Cavalo de Tróia havia cumprido o que prometeu pois era muito poderoso. Desconfiada a madrasta rainha tratou de certificar-se que ele tinha cumprido a missão, mas nada daquilo era verdade: o Sr Cavalo de Tróia tinha tentado enganar a rainha e o que lhe mostrou a ela foi na verdade objetos dele mesmo. “Você me enganou! Viruz traidor”. Tome pipipipipipipi fez uma magia e o coitado do vírus virou bateria CR-2032. A rainha então pensou “vou acabar de vez com aquela safada, sem-vergonha e nojenta. Vou achá-la e acabar com ela! No google maps a rainha “Ah! Conseguirei encontrá-la!”.
Próximo a casinha e retornando depois de um dia exaustivo os 7 linux cantavam, “Eu vou, eu vou, pro data mining agora eu vou, pararatibun, pararatibun, eu vou, eu vou, eu vou, eu vou”
Já em casa “dungaaaaaaaaaa! Cadê meu Blastoise” kkkkkkkkk gesticulando ele expressava, quem não mexera na Blastoise. Atchiiiiiiiiiiiiiiiiiii vire a mão spytchi então foi você! Atchiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii. O Zangado, que não tinha papas na língua, logo foi dizendo foi ele mesmo o spytchi, e que não queria confusões.
No dia seguinte voltando para a empresa onde trabalhavam fo facebook e procupados pela princesa. Desenvolviam um meio de bloquear a rainha, No Chat e princesa conversa-va enquanto o príncipe não entrava então deixou um recado para ele. Depois de procuras no maps a rainha achou a branca “Ah! Finalmente a encontrei. Amanhã me transformarei em Vendedora de inforMaçãs e vou dar à Branca uma informaçã cheinha de viruz para aquela vigarista. E destruirei seu i7 hauahahauaha”.
Na manhã seguinte.
Branca da net finalmente consegue conversar com o Príncipe! Era meu bem pra lá, meu amor pra cá. Estava rolando um clima! Opa vai rolar cam
Toc, toc, toc.
Droga quem esta hora quer me atrapalhar. Oi Branca. “Quem é a senhora?”
– Sou a Vendedora de inforMaçãs fui enviada pelos seus amiguinos do facebook para melhorar o desempenha ainda mas de seu netbook. Basta aceitar esse aplicativo, clicar na informaçã e...
Depois da atualização seu net acabou dando tela azul e não voltou mais, perdeu conectividade com o príncipe, deu vários erros, e com isso, a pobre Branca teve um piripaque e caiu dura no chão, de camisola e tudo.
No castelo “Google, Google meu, existe netbook melhor que o meu?” e as resposta “Não minha rainha, você e a tem o net mais rápido do mundo”. Oooo deliciaaaaa!
Então o príncipe percebeu que seu amor virtual não entrava mas deseperado começou a pesquisar e ate se cadastro no facebook para encontrar sua princesa!
Na casinha os pequenos linux acharam o net e a princesa no chão ela estava em um sonho profundo, quando Zangado resmungou “que mulherzinha mas frescurenta! eu empresto meu pc 100 a ela, precisava disso? E agora o que faremos?” e vários dias dormindo no seu teclado e com o mouse em sua mão Marck da Soneca acordou e disse “ ela tem que ser acordada por que a ama” e começaram a sua busca incansavel pelos fóruns.
Do outro lado da linha o príncipe se conectou a rede social e por coincidência conversou com um dos administradores da rede um linux, “Sr linux, tenho como rastrear uma usuária com nick de Branca da Net?” então o dengoddr3 pergunto “o que vc é dela?”, “eu a amo, e quero achá-la” então o linux deu-lhe as coordenadas.
E o príncipe foi atrás de sua amada, ele encontro a pequena casinha, entrou porta a dentro e logo viu sua amada deitada naquela caminha minúscula, escondidos os linux observavam. Ele se direciona a ela e então beijo-a, e dengoddr3 falou” hoje temmm”. A princesa acordou.
Sabe-se que q rainha foi hackeada, provavelmente pelos pequenos linux seu netbook foi totalmente destruído, com isso ela perdeu seu encanto, e logo descobriram que ela que havia envenenado o rei Bill Gates. Com sua poção Windows vista, a princesa e seu príncipe retornaram ao castelo e seu pequenos amigos se tornaram os maiores da rede social o facebook estava decolando já que tinham um amenos pois marckdasoneca (Zuckenberg), so sabia dormir.
E todos viveram felizes para sempre... bom quase, que lá vem o Windows 7!
kkkkkkkkkkkkkkkkk
Só um comentário: o autor desse conto maravilhoso é meu colega de loja, eu só precisei espalhar isso aqui para todo mundo, porque esse nível de criatividade tem que ser incentivado a rodo!!!!
domingo, outubro 24, 2010
Amor Dói: Renascimento (2)
Enquanto andamos mais um pouco pelos corredores, contei minha história àquele homem tão solícito, e ocasionalmente ele me interrompia, mas só pra tirar dúvidas. Nos alojamos no morgue, e fui vendo que ele procurava entender melhor as motivações da Ariana, e me surpreendi às vezes defendendo, às vezes criticando as atitudes dela. O plantão dele estava bem devagar mesmo, porque não fomos interrompidos em momento nenhum, exceto por um choro de mulher, ocasionalmente. Fiquei imaginando quando seria o horário de "alto tráfego" naquele ramo de trabalho. Terminei minha história, naquele momento em que fui salvo por ele.
Zé Pedro se aprumou, estava encostado nas gavetas. Durante minha história, andara por toda aquela espaçosa sala de autópsia, ajeitando os instrumentos, limpando mesas, e agora parou. Acendeu um cigarro, matutando, e disse, "você pretende seguir essa promessa?". "Claro", respondi, "é importante que esse tipo de coisa deixe de acontecer, e a gentileza pode mudar o mundo de muita gente".
A sala era iluminada também por uma generosa clarabóia, cujas telhas de vidro do meio eram de um branco leitoso, e as das bordas eram verdes. Naquele finzinho de tarde, o legista ficava com uma luz verde-claro se impondo sobre ele. Aliás sobre tudo ao meu redor, e me imaginei sendo visto por ele em lamúrias verde-claro de adolescente. Daquela imobilidade enfumaçada, Zé Pedro parecia estar sopesando sua própria consciência.
Ninguém olhava daquele jeito, especialmente para mim. Fiquei fascinado demais para interromper os devaneios dele, e não sei dizer quanto tempo isso durou.Então, aquele homem esculpido em esmeralda subitamente voltou a se mexer, ainda com o cigarro a meio caminho do fim. Ficou ereto e me pediu que abrisse a gaveta 5-E.
Olhei para a fileira de gavetas onde se guardavam os corpos. E tornei a olhar para ele. Entendi o que ele disse, mas não entendi o que significava essa autorização. Ainda gesticulei, mais do que falei, um tímido "eu?", que ele confirmou com um meneio de cabeça aquiescente.
Olhei para a gaveta. A etiqueta com borda vermelha, onde a mão escreveu com cuidado o cinco e a letra E maiúscula, separados por um hífen determinado. A alça de metal veio facilmente, revelando o volume que um lençol branco guardava.
Zé Pedro apareceu em silêncio ao meu lado enquanto eu hesitava. Levantou um dos lados do lençol, revelando a cabeça e os ombros do corpo de uma mulher jovem.
A pele morena, além da genética, era bronzeada por repetidos banhos de sol. Podia-se notar pela marca de biquini nos ombros. Os cabelos negros, longos e lisos emolduravam o rosto sereno e de proporções convidativas. Os lábios estavam secos, gretados, mas compunham uma boca carnuda. O nariz, pequeno, seguia reto no rosto até formar uma delicada almofada para as narinas.
Sem que eu percebesse, Zé Pedro voltou a se encostar na maca de rodas travadas onde estivera fumando. Quando consegui vencer o magnetismo daquela mulher, olhei para ele.
Naquele momento, começava a sentir um impulso de indignação. Aos treze anos, não entendemos rapidamente expressões, ainda mais quando são mistas. Quando nossos olhares se cruzaram, ele disse, "a vida é triste, mas sabe contar piadas, não?" e continuou, já que meu silêncio era a única resposta que eu sabia oferecer, "uma linda moça, encontrada caída no chão, em Copacabana, chegou aqui um pouco antes de você. Não tinha documentos, só alguns anéis e um colar. Vestia biquini, canga de praia, sandálias e não carregava bolsa."
Tornei a olhar para ela. Serena. Parecia dormir, não morta. Fiquei constrangido, porque o homem que falava comigo me salvou, mas também ia violar esse corpo que devia virar estátua. Não que ele fosse violar, tipo vilão de filme, mas o trabalho dele é achar a verdade. Anotar numa ficha o porquê dessa moça, cândida e bela, ter sido levada do mundo dos vivos ainda no frescor.
Hoje, entendo que Zé Pedro estava apenas tentando me contar a dureza do trabalho dele. As coisas que ele via, todos os dias, somavam um ângulo da vida completamente diferente daqueles que estamos acostumados. Naquelas macas iam e vinham as pessoas que determinavam o lado que o mundo girava, as pessoas que alimentavam as caldeiras, as que davam respeito, as que tiravam o respeito, todas. Todos nós. E ele estava tentando me contar a piada.
Mas naquele momento, eu vi uma criatura má. E estava diante de algo que, em contraste com a moça serena à minha frente, parecia crua, bruta, insensível. E meus hormônios de adolescente, pra cima e pra baixo no meu organismo, não me permitiam sintetizar em uma frase decente o que queria falar, não gritar, para essa critatura, esse Tanatos do Centro do Rio. A fala engasgava, eu estava indignado, Zé Pedro tentava entender o que acontecia, e a moça se mexeu na maca.
Ela se mexeu.
Foi uma ajeitada, como se estivesse dormindo nua apenas. Mas de repente, a sala de autópsia foi ficando mais escura, mais alta, e nem notei que bati com a cabeça enquanto desmaiava.
Zé Pedro se aprumou, estava encostado nas gavetas. Durante minha história, andara por toda aquela espaçosa sala de autópsia, ajeitando os instrumentos, limpando mesas, e agora parou. Acendeu um cigarro, matutando, e disse, "você pretende seguir essa promessa?". "Claro", respondi, "é importante que esse tipo de coisa deixe de acontecer, e a gentileza pode mudar o mundo de muita gente".
A sala era iluminada também por uma generosa clarabóia, cujas telhas de vidro do meio eram de um branco leitoso, e as das bordas eram verdes. Naquele finzinho de tarde, o legista ficava com uma luz verde-claro se impondo sobre ele. Aliás sobre tudo ao meu redor, e me imaginei sendo visto por ele em lamúrias verde-claro de adolescente. Daquela imobilidade enfumaçada, Zé Pedro parecia estar sopesando sua própria consciência.
Ninguém olhava daquele jeito, especialmente para mim. Fiquei fascinado demais para interromper os devaneios dele, e não sei dizer quanto tempo isso durou.Então, aquele homem esculpido em esmeralda subitamente voltou a se mexer, ainda com o cigarro a meio caminho do fim. Ficou ereto e me pediu que abrisse a gaveta 5-E.
Olhei para a fileira de gavetas onde se guardavam os corpos. E tornei a olhar para ele. Entendi o que ele disse, mas não entendi o que significava essa autorização. Ainda gesticulei, mais do que falei, um tímido "eu?", que ele confirmou com um meneio de cabeça aquiescente.
Olhei para a gaveta. A etiqueta com borda vermelha, onde a mão escreveu com cuidado o cinco e a letra E maiúscula, separados por um hífen determinado. A alça de metal veio facilmente, revelando o volume que um lençol branco guardava.
Zé Pedro apareceu em silêncio ao meu lado enquanto eu hesitava. Levantou um dos lados do lençol, revelando a cabeça e os ombros do corpo de uma mulher jovem.
A pele morena, além da genética, era bronzeada por repetidos banhos de sol. Podia-se notar pela marca de biquini nos ombros. Os cabelos negros, longos e lisos emolduravam o rosto sereno e de proporções convidativas. Os lábios estavam secos, gretados, mas compunham uma boca carnuda. O nariz, pequeno, seguia reto no rosto até formar uma delicada almofada para as narinas.
Sem que eu percebesse, Zé Pedro voltou a se encostar na maca de rodas travadas onde estivera fumando. Quando consegui vencer o magnetismo daquela mulher, olhei para ele.
Naquele momento, começava a sentir um impulso de indignação. Aos treze anos, não entendemos rapidamente expressões, ainda mais quando são mistas. Quando nossos olhares se cruzaram, ele disse, "a vida é triste, mas sabe contar piadas, não?" e continuou, já que meu silêncio era a única resposta que eu sabia oferecer, "uma linda moça, encontrada caída no chão, em Copacabana, chegou aqui um pouco antes de você. Não tinha documentos, só alguns anéis e um colar. Vestia biquini, canga de praia, sandálias e não carregava bolsa."
Tornei a olhar para ela. Serena. Parecia dormir, não morta. Fiquei constrangido, porque o homem que falava comigo me salvou, mas também ia violar esse corpo que devia virar estátua. Não que ele fosse violar, tipo vilão de filme, mas o trabalho dele é achar a verdade. Anotar numa ficha o porquê dessa moça, cândida e bela, ter sido levada do mundo dos vivos ainda no frescor.
Hoje, entendo que Zé Pedro estava apenas tentando me contar a dureza do trabalho dele. As coisas que ele via, todos os dias, somavam um ângulo da vida completamente diferente daqueles que estamos acostumados. Naquelas macas iam e vinham as pessoas que determinavam o lado que o mundo girava, as pessoas que alimentavam as caldeiras, as que davam respeito, as que tiravam o respeito, todas. Todos nós. E ele estava tentando me contar a piada.
Mas naquele momento, eu vi uma criatura má. E estava diante de algo que, em contraste com a moça serena à minha frente, parecia crua, bruta, insensível. E meus hormônios de adolescente, pra cima e pra baixo no meu organismo, não me permitiam sintetizar em uma frase decente o que queria falar, não gritar, para essa critatura, esse Tanatos do Centro do Rio. A fala engasgava, eu estava indignado, Zé Pedro tentava entender o que acontecia, e a moça se mexeu na maca.
Ela se mexeu.
Foi uma ajeitada, como se estivesse dormindo nua apenas. Mas de repente, a sala de autópsia foi ficando mais escura, mais alta, e nem notei que bati com a cabeça enquanto desmaiava.
domingo, maio 09, 2010
Amor Dói: Renascimento (1)
Cruzando a rua dos Inválidos, que além da Mem de Sá também tem um encontro marcado com a rua do Rezende. Só o boteco embaixo do prédio novo estava aberto. Eu estivera me entendendo com a dor, e de alguma forma o sistema do meu corpo entendeu que teria de terminar a caminhada antes de conseguir socorro, por isso pude começar a pensar com um pouco mais de clareza. E a alma estava ferida.
Aquilo que acontecera estava há meses de distância. entendi que desrespeitei uma mulher, e isso não se faz. Paguei pelo que fiz, e nunca mais faria isso de novo. Toleraria com paciência todos os desejos, birras, beicinhos, manhas, tudo sem julgamento, pois se alguém precisa daquela retribuição pela qual passei, é porque o macho da espécie humana cometeu mais do que tinha direito em falta de cavalheirismo. Seria, dali, a paga de meu gênero: gentil, discreto e generoso com qualquer mulher.
Fui interrompido de meus devaneios por um esbarrão. Um senhor saía do boteco para atravessar a Inválidos, ainda passando à boca um guardanapo, e sem me ver ao virar, interrompeu meus passos, meu raciocínio, mas não minha promessa. Com uma voz grave e familiar, se desculpou enquanto me observava. A memória de ambos estava voltando ao mesmo tempo: era José Pedro, funcionário do IML, que me reconhecia.
Tentou falar comigo, e eu tentei responder, mas pela expressão de preocupação logo vi que devia estar apenas gemendo minhas respostas, quando me parecia estar sendo bastante claro. Me explicou que estava voltando de um lanche no meio do turno, e me perguntou se queria andar com ele até o Instituto. Disse que não podia. Tinha que ir pra casa.
João Pedro insistiu. Especialmente porque via-se que algo comigo não estava bem. Me concentrei pra ser o mais claro possível, e confiando numa discrição que não precisava esperar de estranho algum, contei a ele como realmente estava minha situação.
Seu comportamento mudou na hora. "Você precisa ver um médico logo. Ainda bem que eu sou um. Venha, me deixe ajudar você.", e sem mais cerimônia me apoiou nele, e me levou até o Instituto.
Que diferença de atitude, entre pessoas do mesmo ramo! Aquele urologista de toque feminino, voz falsamente mansa, o dr. Flávio com sua indiferença profissional, e o homem que agora só se apresentava como médico! Ele não me deixava fazer esforços com as pernas, realmente dando uma pausa para os puxões.
Passamos o vigia, e em seguida os corredores vazios até as salas de corpo de delito. Fora um ou outro parente esperando pelo pior, já desenganado, ninguém nos incomodou. Entramos na sala, onde ele limpou a mesa antes de me por sentado, e eu fui tirando a roupa lentamente. Depois que estive lá por causa de um cérebro, acho que não poderia ter ninguém melhor para me ver naquele estado vergonhoso.
Quando fiquei de cuecas, parei de me despir e me sentei na mesa de aço. Já via pontos de sangue. José Pedro entendeu e me ajudou com essa parte. Tirou a cueca, e removeu com cuidado o curativo, mas lentamente. Seu olhar era de um homem ocupado, e apesar da análise criteriosa, cautelosamente foi falando que não estava tão mau assim, com aquela voz que a gente às vezes quer ouvir em casa, de um parente calmo e protetor.
Ele pegou alguns produtos, e entendi que ia começar a lavar tudo para ver realmente e refazer o curativo. Encostei a cabeça no aço da cama, e só para me tranquilizar ele foi narrando o que estava fazendo. Daqui a pouco, soltou sem mais nem menos:
- Pena que não podemos dar queixa desse tipo de violência. Ela devia ouvir uma bronca do delegado, só pra tomar um rumo na vida.
O frio da mesa de aço, estar num lugar totalmente inesperado e sozinho, com um completo estranho, tudo isso que poderia me fazer sentir um medo inexplicável, naquele momento ficou de lado e eu só senti vontade de rir. E ri feito um bobo, como se tivesse escapado do pior desafio da minha vida com alguns arranhões. Ao levantar a cabeça vi que o curativo já estava trocado, e bem feito. José Pedro estava tirando as luvas e se afastando, para que eu pudesse me vestir.
- Doutor, não tenho como lhe agradecer, comecei a dizer, quando colocava o cinto.
- Pra começar, Zé Pedro é um jeito bem legal de me chamar. E faz parte do meu trabalho ajudar as pessoas em dificuldades.
- E que dificuldade infeliz, essa, comentei olhando de banda, com um sorriso triste.
- De fato, meu amigo. Gostaria de conhecer os detalhes dela, se ninguém estiver te esperando em casa. Espero não constranger você com esse pedido, mas o plantão de domingo é meio chato e seria bom ter um pouco de companhia pra esperar as horas passarem.
Olhou pra mim com jeito de troça.
- Afinal, já fizemos um mendigo dançar, certo?
Aquilo que acontecera estava há meses de distância. entendi que desrespeitei uma mulher, e isso não se faz. Paguei pelo que fiz, e nunca mais faria isso de novo. Toleraria com paciência todos os desejos, birras, beicinhos, manhas, tudo sem julgamento, pois se alguém precisa daquela retribuição pela qual passei, é porque o macho da espécie humana cometeu mais do que tinha direito em falta de cavalheirismo. Seria, dali, a paga de meu gênero: gentil, discreto e generoso com qualquer mulher.
Fui interrompido de meus devaneios por um esbarrão. Um senhor saía do boteco para atravessar a Inválidos, ainda passando à boca um guardanapo, e sem me ver ao virar, interrompeu meus passos, meu raciocínio, mas não minha promessa. Com uma voz grave e familiar, se desculpou enquanto me observava. A memória de ambos estava voltando ao mesmo tempo: era José Pedro, funcionário do IML, que me reconhecia.
Tentou falar comigo, e eu tentei responder, mas pela expressão de preocupação logo vi que devia estar apenas gemendo minhas respostas, quando me parecia estar sendo bastante claro. Me explicou que estava voltando de um lanche no meio do turno, e me perguntou se queria andar com ele até o Instituto. Disse que não podia. Tinha que ir pra casa.
João Pedro insistiu. Especialmente porque via-se que algo comigo não estava bem. Me concentrei pra ser o mais claro possível, e confiando numa discrição que não precisava esperar de estranho algum, contei a ele como realmente estava minha situação.
Seu comportamento mudou na hora. "Você precisa ver um médico logo. Ainda bem que eu sou um. Venha, me deixe ajudar você.", e sem mais cerimônia me apoiou nele, e me levou até o Instituto.
Que diferença de atitude, entre pessoas do mesmo ramo! Aquele urologista de toque feminino, voz falsamente mansa, o dr. Flávio com sua indiferença profissional, e o homem que agora só se apresentava como médico! Ele não me deixava fazer esforços com as pernas, realmente dando uma pausa para os puxões.
Passamos o vigia, e em seguida os corredores vazios até as salas de corpo de delito. Fora um ou outro parente esperando pelo pior, já desenganado, ninguém nos incomodou. Entramos na sala, onde ele limpou a mesa antes de me por sentado, e eu fui tirando a roupa lentamente. Depois que estive lá por causa de um cérebro, acho que não poderia ter ninguém melhor para me ver naquele estado vergonhoso.
Quando fiquei de cuecas, parei de me despir e me sentei na mesa de aço. Já via pontos de sangue. José Pedro entendeu e me ajudou com essa parte. Tirou a cueca, e removeu com cuidado o curativo, mas lentamente. Seu olhar era de um homem ocupado, e apesar da análise criteriosa, cautelosamente foi falando que não estava tão mau assim, com aquela voz que a gente às vezes quer ouvir em casa, de um parente calmo e protetor.
Ele pegou alguns produtos, e entendi que ia começar a lavar tudo para ver realmente e refazer o curativo. Encostei a cabeça no aço da cama, e só para me tranquilizar ele foi narrando o que estava fazendo. Daqui a pouco, soltou sem mais nem menos:
- Pena que não podemos dar queixa desse tipo de violência. Ela devia ouvir uma bronca do delegado, só pra tomar um rumo na vida.
O frio da mesa de aço, estar num lugar totalmente inesperado e sozinho, com um completo estranho, tudo isso que poderia me fazer sentir um medo inexplicável, naquele momento ficou de lado e eu só senti vontade de rir. E ri feito um bobo, como se tivesse escapado do pior desafio da minha vida com alguns arranhões. Ao levantar a cabeça vi que o curativo já estava trocado, e bem feito. José Pedro estava tirando as luvas e se afastando, para que eu pudesse me vestir.
- Doutor, não tenho como lhe agradecer, comecei a dizer, quando colocava o cinto.
- Pra começar, Zé Pedro é um jeito bem legal de me chamar. E faz parte do meu trabalho ajudar as pessoas em dificuldades.
- E que dificuldade infeliz, essa, comentei olhando de banda, com um sorriso triste.
- De fato, meu amigo. Gostaria de conhecer os detalhes dela, se ninguém estiver te esperando em casa. Espero não constranger você com esse pedido, mas o plantão de domingo é meio chato e seria bom ter um pouco de companhia pra esperar as horas passarem.
Olhou pra mim com jeito de troça.
- Afinal, já fizemos um mendigo dançar, certo?
segunda-feira, março 08, 2010
Amor Dói: Revanche (final)
Voltando pra casa.
Cada passo deveria ser de dor, mas na verdade é indiferente. Simplesmente dói o tempo todo. Lateja. Repuxa. Aquela dor aguda, o corpo requerendo atenção imediata, tem algo simplesmente muito errado aqui. Por isso, não consigo muito avançar rápido: estou apenas resistindo à essa vontade desgraçada.
Pensa em alguma coisa, Valdo. Qualquer coisa. Anda e pensa.
Voltando pra casa.
Lembro da Ariana vindo, devagar, me pondo sentado de novo no sofá. As cenas, junto com a dor, se repetem na minha cabeça. Passando as duas mãos nas minhas pernas. Indo para o quadril. Sentando, pernas abertas, nos meus joelhos. Alisando, agora, as próprias coxas, subindo mais um pouquinho a saia já curta, deixando uma calcinha de algodão aparecer.
E aquele olhar.
Eu queria que aquilo acontecesse. Queria com quase todas as fibras dentro de mim. Exceto aquelas envolvidas pelos pontos. Que também eram fibras, ainda mais determinadas que as minhas. Suava, tenso. Meu rosto era um braseiro, entre excitado e envergonhado, e querendo, e não querendo.
Ela me olhava, media minhas reações, e se divertia. Analisando o meu desequilíbrio naquela ponta de faca que me encontrava. Sabendo, sabendo de verdade que não era apenas prazer que eu sentia, mas a necessidade urgente de renegar o prazer. E gostando. Ela estava gostando de fazer aquilo comigo!
Podia ver a pequena curva, no meio de suas pernas, protegida pela calcinha. Lembrei que muitas vezes sobrepunha, em imaginação, diagramas anatômicos ao corpo dela, imaginando que parte ia em qual canto da roupa. Olhava, nos relances, sua barriga e imaginava, canal vaginal, útero...
Meu desespero, minha excitação, meu corpo cheio de vontades contraditórias, eu me torturando, mesmerizado, incapaz de sair ou ficar, uma inação entregue ao momento da verdade. Numa ação desesperada, puxei meu aparelho reprodutor para dentro, numa contração muscular que não me lembro de tentar antes na vidinha que tive até ali.
Agora ainda, no presente, contraía igual. Pra tentar minimizar as coisas.
... Trompas. Voltava a pensar nos grandes lábios, pequenos lábios, clitóris. O conjunto me lembrava exatamente o desenho do portal principal da Igreja de São Pedro, em Santa Tereza. Como será que o diagrama da vagina virou desenho de porta de igreja?
Ariana percebia quando eu conseguia recuar a mente pra dentro de mim mesmo. Abriu as pernas, pude ver os tendões da coxa, levando ao meio. Ela levantou mais a saia, enquanto puxava os elásticos das pernas da calcinha pra dentro. Pude ver alguns pêlos. Uma carne macia começou a sobrar do tecido apertado. Com alguns pêlos aparecendo. Louros. Ela largou a calcinha e segurou meu rosto pelo queixo, erguendo. Se inclinou pra muito perto de mim, um quase beijo que não era pra ser agora, mas podia ser qualquer outra hora da minha vida. Senti o hálito, a respiração. Vi detalhadamente os pelos suaves do rosto. O olhar era sádico. Entre o divertimento e o disciplinamento. Duro e divertido. Os dentes brancos apareciam quando ela falava.
— Que foi? Tem alguma coisa te incomodando?
A porta da Igreja de São Pedro tem arquitetura gótica, e a construção de um arco gótico demandava uma sequencia de pedras devidamente talhadas, e depois adequadamente empilhadas, com cuidado e método, para que todo o conjunto se apoiasse na pedra superior, gerando pressão uniforme entre as partes. Era uma queda constante. Constantemente mantida pela pedra menos provável.
Devo portanto, ter grunhido.
Ela olhou para trás, e pude ver quando o torso ficou virado, através do vão entre os botões da camisa, um seio. Seu volume, seu traço, a aréola, o mamilo duro. Ela voltou só o rosto, acompanhou meu olhar, sorriu.
— Acho que você precisa de uma televisão pra se distrair. Será que consigo ligar daqui?
Levantou-se do meu colo, e por cima da mesinha de centro da sala, tentou ligar a tevê.
— Ah, não alcanço o botão.
Dessa vez ela se apoiou de quatro na mesinha, que resistiu tão bem quanto eu até ali.
Comecei a pensar que deveria reter na minha memória reflexos condicionados, como não pensar a palavra "bunda" ao ver uma. Deveria ser mais cavalheiresco, até no meu íntimo, e pensar termos como glúteos, nádegas, quarto posterior. No máximo, em momentos mais discretos entre duas pessoas, para não desmerecer minha companheira, um recatado "bumbum", em voga na época. Isso que eu estava fazendo, enquanto a Ariana estava de quatro sobre a mesinha de centro, com a bunda na minha cara, embalada em uma suave e angelical calcinha de algodão, se chamava tergiversar. Essa palavra, diretamente do latim, queria dizer apenas o que Ariana estava fazendo, dar as costas. E o significado indireto, usar de evasivas, rodeios, subterfúgios, servia bem para o que estava fazendo agora, dentro da minha mente. Incapaz de me mexer, e entendendo claramente que não conseguiria sequer olhar para o lado, estava vendo o que era me posto diante dos olhos para ver, e procurava não associar aquilo a nada.
Voltando pra casa.
Benditos marinheiros de Odisseu! Tinham apenas que se amarrar no navio, deixar as sereias passarem, lalalá, e estavam salvos. Já esta aqui, em cima do deque, indo e vindo e querendo que meu mastro se dane!
Voltando pra casa. Os passos não causam dor, ela já existe, acredita nisso. Por favor. Você ainda está na altura da Lavradio, Valdo.
O olhar tinha toda a maldade que eu já vi em uma só pessoa. Instigava, e analisava o resultado, brilhava em júbilo. Instigava de novo.
Eu pensava na Litania contra o Medo, e de alguma coisa me valeu, porque esse caso pedia que meu medo estivesse sob controle. Com o medo, o sangue rodava desvairado no corpo. Não se concentrava necessariamente aos órgãos da reprodução. Mas eu precisava de mais medo. Precisava pensar em uma grande queda, de uma grande altura, queriam meu mal e me largavam lá do alto, alguém, eles, sem uma história não consigo acreditar na minha emulação!
Ariana viu que meu esforço dava algum resultado, desligou a tevê, e se sentou de frente pra mim. Com olhar de menina. Fazendo beicinho.
— Acho que estou pegando pesado com você.
Fez uma pausa, esperou que eu lentamente fechasse e abrisse os olhos, me acostumasse com a mudança.
— É que eu não pude resistir. Me fizeram um comentário outro dia sobre essa roupa, e eu achei que não era possível. A gente se arruma tanto, e a coisa que deixa os homens interessados é justamente esse uniforme ridículo! Me disseram que até tem um escritor, há anos ele fala que essa roupa devia ser vista em puteiros.
Pensei, Nelson Rodrigues, nunca me deixaram ler por causa disso. Mas respirar nesse momento já tomava todo o meu fôlego. Ela estava sentada de frente pra mim, reclinada, sem sutiã, com ar de chorinho. ufff, grunhi.
— Precisava ter certeza. E nesse seu estado... Não tem como você fazer nada se for verdade, nem mentir, se não for.
Miserável.
— Mas eu tenho um jeito de compensar você. Lembra que você sempre me disse que gostava do meu cheiro?
— Ahã.
Ela pôs uma das mãos dentro da calcinha.
—Eu até te flagrei uma vez, quando voltava do banho, cheirando uma camiseta minha usada da ACM... A expressão do seu rosto era tão esquisita! Mas eu só vi de lado.
Eu achei que isso seria motivo de briga, mas se ela estava tão curiosa eu talvez devesse tentar concatenar uma explicação que deixasse a gente bem. Certamente haveria uma.
— Então. Esse teste me deixou meio... empolgada, também, sabe? Ver você assim...
E subitamente, a mão partiu de lá de baixo, como num tapa, de baixo pra cima, a ponta dos dedos raspou na minha camiseta, queixo e nariz. Os dedos estavam molhados.
Eu demorei pra entender o que isso queria dizer. O cheiro era diferente, mas ainda mais convidativo que o capim-limão de sempre. Ainda que estivesse incluído ele, também.
Meu pau entendeu primeiro. Numa arrancada digna de motor de Ferrari, ele simplesmente saltou daquele estado intermediário de suspense, para... o limite do curativo.
Aí o raciocínio compreendeu aquele estímulo. Reprodução. Agora.
A montagem do curativo era com a gaze para dentro. Essa gaze, agora, com seus fios espaçosos, fazia a resistência natural ao crescimento da glande e o arrastar da área cheia de pontos. E era escorada, por fora, pelo esparadrapo em espiral. Feito para não soltar, a não ser com cuidado. Eu sentia, em vários cantos, os pontos passando, como se fosse pequenos gatilhos, pelos fios que cruzavam seu caminho. Sentia a vibração na carne, um tectectec cada vez mais lento.
A glande, decidida ao seu papel, progredia dentro da armação. E atrás dela, os fios gradualmente iam se prendendo aqui e ali. Alguns já esticavam.
Nesse tempo impossível de medir, se em horas, ou milésimos, pressenti meu destino e perguntei em lamúria: "porquê isso? O que eu te fiz?"
E Ariana, enquanto caía encolhido de lado no sofá, se levantou, me olhou de cima, e enquanto o meu centro de corpo estalava e ameaçava se condenar, explicou:
— Porque vocês merecem. Vocês, homens, são todos iguais. Merecem um castigo por nos impor limites, regras, formas. Por nos pegarem e depois jogarem fora de qualquer jeito. Nos usarem!
O cheiro preso em mim cegava qualquer medo daquela pessoa estranha à minha frente. Me deixava sem ação.
— Pensa que eu não vejo, o que você quer de mim esse tempo todo? Ao menos o Valdir foi honesto e direto, veio e disse o que queria. Ele foi homem.
Eu comecei a andar de gatinhas no chão, pra porta de saída. Me arrastava e sabia disso. E as palavras combinavam com o cheiro, para dar um efeito ao mesmo tempo acre e doce.
—Mas você, Valdo, você ficou! Ficou se insinuando, esses meses todos, se aproximando, de conversinha! Olhava pra mim com olhar de fome, toda a hora, e eu entendi muito bem que você me comia com os olhos! Que você me queria! E ainda quer, até mesmo agora!
Ela começou a andar atrás de mim. Na verdade, me passou, abriu a porta do apartamento, e terminou:
—Essa, Valdo, é minha revanche! Hoje eu fui à forra de tudo que você pensou de sacanagem, de ruim, de mim!
Passei o batente da porta. Ela me chutou no traseiro, terminando de me expulsar para o corredor.
— Some daqui!
E bateu a porta. E eu me levantei, sei lá como, chamei o elevador, alcancei a rua. E estou voltando pra casa.
Já estou quase na Gomes Freire.
Voltando pra casa.
Benditos marinheiros de Odisseu! Tinham apenas que se amarrar no navio, deixar as sereias passarem, lalalá, e estavam salvos. Já esta aqui, em cima do deque, indo e vindo e querendo que meu mastro se dane!
Voltando pra casa. Os passos não causam dor, ela já existe, acredita nisso. Por favor. Você ainda está na altura da Lavradio, Valdo.
O olhar tinha toda a maldade que eu já vi em uma só pessoa. Instigava, e analisava o resultado, brilhava em júbilo. Instigava de novo.
Eu pensava na Litania contra o Medo, e de alguma coisa me valeu, porque esse caso pedia que meu medo estivesse sob controle. Com o medo, o sangue rodava desvairado no corpo. Não se concentrava necessariamente aos órgãos da reprodução. Mas eu precisava de mais medo. Precisava pensar em uma grande queda, de uma grande altura, queriam meu mal e me largavam lá do alto, alguém, eles, sem uma história não consigo acreditar na minha emulação!
Ariana viu que meu esforço dava algum resultado, desligou a tevê, e se sentou de frente pra mim. Com olhar de menina. Fazendo beicinho.
— Acho que estou pegando pesado com você.
Fez uma pausa, esperou que eu lentamente fechasse e abrisse os olhos, me acostumasse com a mudança.
— É que eu não pude resistir. Me fizeram um comentário outro dia sobre essa roupa, e eu achei que não era possível. A gente se arruma tanto, e a coisa que deixa os homens interessados é justamente esse uniforme ridículo! Me disseram que até tem um escritor, há anos ele fala que essa roupa devia ser vista em puteiros.
Pensei, Nelson Rodrigues, nunca me deixaram ler por causa disso. Mas respirar nesse momento já tomava todo o meu fôlego. Ela estava sentada de frente pra mim, reclinada, sem sutiã, com ar de chorinho. ufff, grunhi.
— Precisava ter certeza. E nesse seu estado... Não tem como você fazer nada se for verdade, nem mentir, se não for.
Miserável.
— Mas eu tenho um jeito de compensar você. Lembra que você sempre me disse que gostava do meu cheiro?
— Ahã.
Ela pôs uma das mãos dentro da calcinha.
—Eu até te flagrei uma vez, quando voltava do banho, cheirando uma camiseta minha usada da ACM... A expressão do seu rosto era tão esquisita! Mas eu só vi de lado.
Eu achei que isso seria motivo de briga, mas se ela estava tão curiosa eu talvez devesse tentar concatenar uma explicação que deixasse a gente bem. Certamente haveria uma.
— Então. Esse teste me deixou meio... empolgada, também, sabe? Ver você assim...
E subitamente, a mão partiu de lá de baixo, como num tapa, de baixo pra cima, a ponta dos dedos raspou na minha camiseta, queixo e nariz. Os dedos estavam molhados.
Eu demorei pra entender o que isso queria dizer. O cheiro era diferente, mas ainda mais convidativo que o capim-limão de sempre. Ainda que estivesse incluído ele, também.
Meu pau entendeu primeiro. Numa arrancada digna de motor de Ferrari, ele simplesmente saltou daquele estado intermediário de suspense, para... o limite do curativo.
Aí o raciocínio compreendeu aquele estímulo. Reprodução. Agora.
A montagem do curativo era com a gaze para dentro. Essa gaze, agora, com seus fios espaçosos, fazia a resistência natural ao crescimento da glande e o arrastar da área cheia de pontos. E era escorada, por fora, pelo esparadrapo em espiral. Feito para não soltar, a não ser com cuidado. Eu sentia, em vários cantos, os pontos passando, como se fosse pequenos gatilhos, pelos fios que cruzavam seu caminho. Sentia a vibração na carne, um tectectec cada vez mais lento.
A glande, decidida ao seu papel, progredia dentro da armação. E atrás dela, os fios gradualmente iam se prendendo aqui e ali. Alguns já esticavam.
Nesse tempo impossível de medir, se em horas, ou milésimos, pressenti meu destino e perguntei em lamúria: "porquê isso? O que eu te fiz?"
E Ariana, enquanto caía encolhido de lado no sofá, se levantou, me olhou de cima, e enquanto o meu centro de corpo estalava e ameaçava se condenar, explicou:
— Porque vocês merecem. Vocês, homens, são todos iguais. Merecem um castigo por nos impor limites, regras, formas. Por nos pegarem e depois jogarem fora de qualquer jeito. Nos usarem!
O cheiro preso em mim cegava qualquer medo daquela pessoa estranha à minha frente. Me deixava sem ação.
— Pensa que eu não vejo, o que você quer de mim esse tempo todo? Ao menos o Valdir foi honesto e direto, veio e disse o que queria. Ele foi homem.
Eu comecei a andar de gatinhas no chão, pra porta de saída. Me arrastava e sabia disso. E as palavras combinavam com o cheiro, para dar um efeito ao mesmo tempo acre e doce.
—Mas você, Valdo, você ficou! Ficou se insinuando, esses meses todos, se aproximando, de conversinha! Olhava pra mim com olhar de fome, toda a hora, e eu entendi muito bem que você me comia com os olhos! Que você me queria! E ainda quer, até mesmo agora!
Ela começou a andar atrás de mim. Na verdade, me passou, abriu a porta do apartamento, e terminou:
—Essa, Valdo, é minha revanche! Hoje eu fui à forra de tudo que você pensou de sacanagem, de ruim, de mim!
Passei o batente da porta. Ela me chutou no traseiro, terminando de me expulsar para o corredor.
— Some daqui!
E bateu a porta. E eu me levantei, sei lá como, chamei o elevador, alcancei a rua. E estou voltando pra casa.
Já estou quase na Gomes Freire.
quarta-feira, março 03, 2010
Amor Dói: Revanche (5)
Caminhar na rua. O sol, o tímido movimento dos domingos no Centro. Gatos andavam, desconfiados, devagar. E eu nesse passinho de malandro, medrado de abrir mais as pernas nos meus passos bem dados de antes, pontos cuidados.
Ia de calças jeans, que me envergonhava de mostrar pernas brancas, ainda não sabendo que seriam as melhores coisas a se mostrar quando começasse a fazer as garotas me notarem.
Olhava as calçadinhas estreitas, os sobrados longos e sem espaço. Pontuava o passo, pensando: por que raios estava indo ver justamente Ariana?
Mas isso já havia pensado antes, não me sentia bem de estar com os rapazes, ainda que pareça-me ridículo pensar em pôr à baila o assunto que me tomava toda a atenção no momento com uma garota, parecia ainda pior expor minhas fraquezas a quem certamente tomaria proveito do caso. Zombariam de mim, sem dúvida. Ou sei lá.
Ia vê-la porque era onde poderia confessar meu pequeno resguardo, e quem sabe ganhar algum colo. Seria engraçado estar em uma ternura interrompida, porque afinal não posso me empolgar agora. Me imaginava numa situação de dizer a ela, "não me beija não, que aqui embaixo a coisa complica de repente". Imaginava a reação dela, aquele "oh" da menina do desenho da Heidi, talvez tentando não olhar para baixo, um vínculo se formando por tão pouquinho bem aonde queria me vincular com ela.
E ia, subindo a Mem de Sá, os ônibus vindo tão devagar na minha direção, e tão sozinhos na rua, que desconfiava que às vezes os motoristas paravam o carro para apreciar o domingo sossegado.
Sentia o cheiro de plantas no ar, as árvores ainda conseguiam fazer isso naquela época, apesar de todos os postes de fios e luz, toda a fumaça preta.
Quando cruzava a Gomes Freire, um jogo de vôlei. A bola veio na minha direção, era só esticar o pé que parava a danada, mas agora... a bola que se virasse. Os garotos do jogo olharam pra mim com cara feia, mais desapontados que outra coisa. Um passou por mim correndo pra ir buscar. Ah, nem gosto de vôlei, sou do basquete. Quem gostava desse jogo era Heinz, que "detestava contato físico com marmanjo".
Lembrei dele, jogando na Olimpíada da ACM. Meu time de basquete tinha caído nas semifinais, mas o dele disputava o bronze. Estava lá vendo. As quadras da Associação Cristã de Moços eram num prédio de andares altos, e as salas que elas ocupavam eram pouco maiores que as marcações das quadras, e quando estava lá há uns cinco minutos testemunhei uma cena incomum.
O time do Heinz estava no fundo do salão, ou seja, de frente para a sacada dos espectadores que era no andar de cima. A sacada era curta, para dar espaço adicional no andar para a bola poder subir nos saques. Bernard tinha recém-inventado a Jornada nas Estrelas, mas a quadra não permitia tanta empolgação assim. Os saques eram aqueles altos, que todo mundo faz hoje, parecendo o do tênis: jogam a bola, e pulam atrás pra dar aquele tapa safado e mandar a pelota pro adversário lidar com ela. Mandaram um saque desses, o time do meu amigo pegou, serviu, devolveu numa cortada meia de quadra, fraca. Os adversários embaixo de mim, ao invés da sequência de três toques, simplesmente devolveu a bola para o meio do campo dele, onde estava um garoto que era meio mole pra reagir. Um dos jogadores das laterais, impaciente, catou de manchete, e mandou pro fundo da quadra, na direção da parede. Já era ponto, certeza: ia bater a uns três metros de altura, sem chance.
Nisso, o Heinz, que estava na posição de saque, foi atrás da bola. O juiz já estava levantando o apito, e ele simplesmente continuou correndo, parede acima. Nada prodigioso, dois passos, mas com isso pôde alcançar a bola, e de costas, devolver pra quadra adversária. Incrédulos, os adversários não se mexeram, e até o juiz viu a bola quicar duas vezes antes de entender que, afinal de contas, não tinha nada de errado no que ele fez. Ponto pro time do meu amigo, estava na morte súbita, e a partida terminou ali mesmo. Foi uma bela medalha de bronze.
Mas, o que seria do meu amigo, que hoje não conhece mais ninguém daquela época, se eu não tivesse testemunhado esse momento dele? Se eu não aparecesse com essa recordação da manga, anos depois, numa retomada da nossa amizade?
Testemunho. Precisamos desesperadamente dar sentido à nossa passagem nesse mundo, e a cabeça que pensa, e quer mais que nascer, crescer, dar cria e morrer, se sente confortável com essa idéia.
E, chegando no único prédio de apartamentos da Travessa Mosqueira, percebi que era isso que queria dela: testemunho para meu momento, apoio, aceitação. Remanso, talvez, mas nem precisava chegar a tanto. Bastava compartilhar aquele momento com ela, o pouquinho que fosse. Falar, talvez, daquele momento em que entendi que o mundo era cercado por aspectos de uma Deusa, que apenas entrevi, e me apoiou num dos meus momentos de necessidade. Saber dela, talvez, se havia algo a aprender disso, testemunhar as histórias dela também.
Ela abriu a porta, e me disse para ir pra sala. Era um apartamento pequeno, mas com dois quartos, ainda que o quarto da Ariana fosse na verdade uma porta nova no antigo quarto de empregada, originalmente abrindo dentro da área da cozinha, agora abrindo no corredor pra sala. Ela só me indicava a sala quando a mãe não estava em casa. Não se davam muito bem, e o temperamento sempre agressivo da minha amiga era um motivo razoável pra isso.
O cheiro dela, aquele cheiro maravilhoso estava no apartamento. Capim limão, com um toque de animal. Fêmea. Calma. Muita calma.
Voltou da cozinha, me ofereceu água. Aceitei, adoro água, e começamos a conversar. Ela não demorou a perguntar:
– Mas você operou, então? – e eu concordei com a cabeça – Operou o quê?
Apontei para o zíper da calça, e disse simples, "fimose". Ela quis saber o que era, e não me furtei. Expliquei que era uma pele. Na cabeça do... você sabe, né?
– Ué, mas isso opera? Ela não fica só pra trás, quando ele cresce?
Ariana me perguntar a coisa desse jeito me deu a entender que ela talvez tivesse uma experiência que me deixou incomodado. Imaginei uma foto dela de biquini de lantejoulas na porta da Boate México, fazendo pose de quem tem problema de coluna. E vendo paus com prepúcio que se retrai pra todo lado. Piranha, era a imagem.
Mas respondi que nem sempre era assim, alguns rapazes não tinham a pele tão elástica assim, e precisavam de uma operação que era até bem simples, apesar de achar que meu médico pegou meio pesado no trato comigo. Ia falando e deixando a imagem de lado.
– Mas então você já está... recuperado?
– Não. Tem uns trinta ou quarenta pontos ao redor da minha cabeça. Parecem uma coroa de espinhos.
– Posso ver?
Ok, a Ariana quer ver meu pau. Pelo motivo errado, a ação que eu esperaria uma vida pra realizar podia acontecer ali mesmo. Percebi um pequeno brilho no olhar dela, curiosidade genuína. Me encarava, mas baixou uma vez os olhos pra minha calça.
– Eu.. n-não tenho m-muito o que mostrar. Te-tem muito esparadrapo em cima ainda...
– Ah. Notei o desapontamento dela.
– Mas quando eu tirar, posso mostrar, se quiser ver.
– Eu hein? Queria ver os pontos!
Ri. Não consigo manter a ironia de uma situação pra mim, e acho que esse é o pior sintoma de ser homem.
– Ariana, não duvide que a coisa que mais queria era abrir minhas calças pra você. M-mas nem posso pensar em fazer isso.
Nunca tinha falado assim na vida com ninguém, acho uma violação. Mas não resisti. Era mais forte que eu, e realmente era a parte errada do que fui fazer ali, mas ainda assim parte. Continuei, estendendo um indicador pra explicar melhor.
– Os pontos estão numa arrumação de anel. Ao redor de toda a cabeça. Mas esse anel tem a minha medida "murcho". Se eu começar a t-ter a menor idéia na cabeça, er.. ele reage. C-cresce, se estrangulando no anel. E eu não sei o que pode acontecer...
A tensão tinha me feito sentar na pontinha do sofá, e ela olhava às vezes pro meio das minhas pernas como se imaginasse a cena. Foi ficando com um olhar estranho. Quando terminei de falar, ela resolveu mudar de assunto, com um muxoxo de quem vê que não tem nada legal na TV, só A Gangue dos Dobermanns de novo.
– Valdo, saí com a minha mãe pra comprar uniforme novo. Lá no meu colégio, as inspetoras estavam reclamando que eu tinha crescido muito, o antigo não estava bom mais. Sabe que eu achei um absurdo? Peraí.
Correu pro quarto, com aquele jeito caucasiano de correr. Percebi que estava usando um short de moleton amarelo, e uma camiseta cor de maçã verde. Claro que olhei suas costas, sua bunda, pela bilionésima vez, mas agora não podia pensar nisso. Lembrei de um lance de respiração pra essas horas, e fiquei um tempo focado nisso.
Affuuuuu.
Affuuuuu.
Me toquei que ela estava demorando um tantinho naquele quarto pequeno que tem. Se queria me mostrar alguma coisa, não ia ficar procurando, nem tinha muito espaço: era só a cama de solteiro, um armário de duas portas e uma escrivaninha pra estudar. A tal porta era até de correr, pra tentar dar algum espaço a mais. Ainda assim, duas pessoas só ficavam juntas naquele quarto se uma subisse na cama e a outra sentasse no chão.
De repente, ela voltou de lá de dentro.
Vestia um uniforme de colégio público, sapatos inclusive. Saia de tergal realmente curta, a camisa daquele tecido meio transparente que não me lembro mais o nome, e apertada. O sutiã branco, via-se seu corte simples e funcional, protegendo os seios empinados e ainda crescentes. E por sinal, de bicos duros no momento.
Um sorriso que eu já vi antes, não sei quando, apareceu no rosto dela, enquanto ela perguntava:
– Você acha que esse uniforme está pequeno em mim?
Projetou o peito pra frente, e alisou o corpo dos peitos até às coxas, com as duas mãos, e voltou pra parar com elas nos quadris. Que, além de ficarem mais desenhados, ainda repuxaram um pouquinho mais da saia pra cima.
Ia de calças jeans, que me envergonhava de mostrar pernas brancas, ainda não sabendo que seriam as melhores coisas a se mostrar quando começasse a fazer as garotas me notarem.
Olhava as calçadinhas estreitas, os sobrados longos e sem espaço. Pontuava o passo, pensando: por que raios estava indo ver justamente Ariana?
Mas isso já havia pensado antes, não me sentia bem de estar com os rapazes, ainda que pareça-me ridículo pensar em pôr à baila o assunto que me tomava toda a atenção no momento com uma garota, parecia ainda pior expor minhas fraquezas a quem certamente tomaria proveito do caso. Zombariam de mim, sem dúvida. Ou sei lá.
Ia vê-la porque era onde poderia confessar meu pequeno resguardo, e quem sabe ganhar algum colo. Seria engraçado estar em uma ternura interrompida, porque afinal não posso me empolgar agora. Me imaginava numa situação de dizer a ela, "não me beija não, que aqui embaixo a coisa complica de repente". Imaginava a reação dela, aquele "oh" da menina do desenho da Heidi, talvez tentando não olhar para baixo, um vínculo se formando por tão pouquinho bem aonde queria me vincular com ela.
E ia, subindo a Mem de Sá, os ônibus vindo tão devagar na minha direção, e tão sozinhos na rua, que desconfiava que às vezes os motoristas paravam o carro para apreciar o domingo sossegado.
Sentia o cheiro de plantas no ar, as árvores ainda conseguiam fazer isso naquela época, apesar de todos os postes de fios e luz, toda a fumaça preta.
Quando cruzava a Gomes Freire, um jogo de vôlei. A bola veio na minha direção, era só esticar o pé que parava a danada, mas agora... a bola que se virasse. Os garotos do jogo olharam pra mim com cara feia, mais desapontados que outra coisa. Um passou por mim correndo pra ir buscar. Ah, nem gosto de vôlei, sou do basquete. Quem gostava desse jogo era Heinz, que "detestava contato físico com marmanjo".
Lembrei dele, jogando na Olimpíada da ACM. Meu time de basquete tinha caído nas semifinais, mas o dele disputava o bronze. Estava lá vendo. As quadras da Associação Cristã de Moços eram num prédio de andares altos, e as salas que elas ocupavam eram pouco maiores que as marcações das quadras, e quando estava lá há uns cinco minutos testemunhei uma cena incomum.
O time do Heinz estava no fundo do salão, ou seja, de frente para a sacada dos espectadores que era no andar de cima. A sacada era curta, para dar espaço adicional no andar para a bola poder subir nos saques. Bernard tinha recém-inventado a Jornada nas Estrelas, mas a quadra não permitia tanta empolgação assim. Os saques eram aqueles altos, que todo mundo faz hoje, parecendo o do tênis: jogam a bola, e pulam atrás pra dar aquele tapa safado e mandar a pelota pro adversário lidar com ela. Mandaram um saque desses, o time do meu amigo pegou, serviu, devolveu numa cortada meia de quadra, fraca. Os adversários embaixo de mim, ao invés da sequência de três toques, simplesmente devolveu a bola para o meio do campo dele, onde estava um garoto que era meio mole pra reagir. Um dos jogadores das laterais, impaciente, catou de manchete, e mandou pro fundo da quadra, na direção da parede. Já era ponto, certeza: ia bater a uns três metros de altura, sem chance.
Nisso, o Heinz, que estava na posição de saque, foi atrás da bola. O juiz já estava levantando o apito, e ele simplesmente continuou correndo, parede acima. Nada prodigioso, dois passos, mas com isso pôde alcançar a bola, e de costas, devolver pra quadra adversária. Incrédulos, os adversários não se mexeram, e até o juiz viu a bola quicar duas vezes antes de entender que, afinal de contas, não tinha nada de errado no que ele fez. Ponto pro time do meu amigo, estava na morte súbita, e a partida terminou ali mesmo. Foi uma bela medalha de bronze.
Mas, o que seria do meu amigo, que hoje não conhece mais ninguém daquela época, se eu não tivesse testemunhado esse momento dele? Se eu não aparecesse com essa recordação da manga, anos depois, numa retomada da nossa amizade?
Testemunho. Precisamos desesperadamente dar sentido à nossa passagem nesse mundo, e a cabeça que pensa, e quer mais que nascer, crescer, dar cria e morrer, se sente confortável com essa idéia.
E, chegando no único prédio de apartamentos da Travessa Mosqueira, percebi que era isso que queria dela: testemunho para meu momento, apoio, aceitação. Remanso, talvez, mas nem precisava chegar a tanto. Bastava compartilhar aquele momento com ela, o pouquinho que fosse. Falar, talvez, daquele momento em que entendi que o mundo era cercado por aspectos de uma Deusa, que apenas entrevi, e me apoiou num dos meus momentos de necessidade. Saber dela, talvez, se havia algo a aprender disso, testemunhar as histórias dela também.
Ela abriu a porta, e me disse para ir pra sala. Era um apartamento pequeno, mas com dois quartos, ainda que o quarto da Ariana fosse na verdade uma porta nova no antigo quarto de empregada, originalmente abrindo dentro da área da cozinha, agora abrindo no corredor pra sala. Ela só me indicava a sala quando a mãe não estava em casa. Não se davam muito bem, e o temperamento sempre agressivo da minha amiga era um motivo razoável pra isso.
O cheiro dela, aquele cheiro maravilhoso estava no apartamento. Capim limão, com um toque de animal. Fêmea. Calma. Muita calma.
Voltou da cozinha, me ofereceu água. Aceitei, adoro água, e começamos a conversar. Ela não demorou a perguntar:
– Mas você operou, então? – e eu concordei com a cabeça – Operou o quê?
Apontei para o zíper da calça, e disse simples, "fimose". Ela quis saber o que era, e não me furtei. Expliquei que era uma pele. Na cabeça do... você sabe, né?
– Ué, mas isso opera? Ela não fica só pra trás, quando ele cresce?
Ariana me perguntar a coisa desse jeito me deu a entender que ela talvez tivesse uma experiência que me deixou incomodado. Imaginei uma foto dela de biquini de lantejoulas na porta da Boate México, fazendo pose de quem tem problema de coluna. E vendo paus com prepúcio que se retrai pra todo lado. Piranha, era a imagem.
Mas respondi que nem sempre era assim, alguns rapazes não tinham a pele tão elástica assim, e precisavam de uma operação que era até bem simples, apesar de achar que meu médico pegou meio pesado no trato comigo. Ia falando e deixando a imagem de lado.
– Mas então você já está... recuperado?
– Não. Tem uns trinta ou quarenta pontos ao redor da minha cabeça. Parecem uma coroa de espinhos.
– Posso ver?
Ok, a Ariana quer ver meu pau. Pelo motivo errado, a ação que eu esperaria uma vida pra realizar podia acontecer ali mesmo. Percebi um pequeno brilho no olhar dela, curiosidade genuína. Me encarava, mas baixou uma vez os olhos pra minha calça.
– Eu.. n-não tenho m-muito o que mostrar. Te-tem muito esparadrapo em cima ainda...
– Ah. Notei o desapontamento dela.
– Mas quando eu tirar, posso mostrar, se quiser ver.
– Eu hein? Queria ver os pontos!
Ri. Não consigo manter a ironia de uma situação pra mim, e acho que esse é o pior sintoma de ser homem.
– Ariana, não duvide que a coisa que mais queria era abrir minhas calças pra você. M-mas nem posso pensar em fazer isso.
Nunca tinha falado assim na vida com ninguém, acho uma violação. Mas não resisti. Era mais forte que eu, e realmente era a parte errada do que fui fazer ali, mas ainda assim parte. Continuei, estendendo um indicador pra explicar melhor.
– Os pontos estão numa arrumação de anel. Ao redor de toda a cabeça. Mas esse anel tem a minha medida "murcho". Se eu começar a t-ter a menor idéia na cabeça, er.. ele reage. C-cresce, se estrangulando no anel. E eu não sei o que pode acontecer...
A tensão tinha me feito sentar na pontinha do sofá, e ela olhava às vezes pro meio das minhas pernas como se imaginasse a cena. Foi ficando com um olhar estranho. Quando terminei de falar, ela resolveu mudar de assunto, com um muxoxo de quem vê que não tem nada legal na TV, só A Gangue dos Dobermanns de novo.
– Valdo, saí com a minha mãe pra comprar uniforme novo. Lá no meu colégio, as inspetoras estavam reclamando que eu tinha crescido muito, o antigo não estava bom mais. Sabe que eu achei um absurdo? Peraí.
Correu pro quarto, com aquele jeito caucasiano de correr. Percebi que estava usando um short de moleton amarelo, e uma camiseta cor de maçã verde. Claro que olhei suas costas, sua bunda, pela bilionésima vez, mas agora não podia pensar nisso. Lembrei de um lance de respiração pra essas horas, e fiquei um tempo focado nisso.
Affuuuuu.
Affuuuuu.
Me toquei que ela estava demorando um tantinho naquele quarto pequeno que tem. Se queria me mostrar alguma coisa, não ia ficar procurando, nem tinha muito espaço: era só a cama de solteiro, um armário de duas portas e uma escrivaninha pra estudar. A tal porta era até de correr, pra tentar dar algum espaço a mais. Ainda assim, duas pessoas só ficavam juntas naquele quarto se uma subisse na cama e a outra sentasse no chão.
De repente, ela voltou de lá de dentro.
Vestia um uniforme de colégio público, sapatos inclusive. Saia de tergal realmente curta, a camisa daquele tecido meio transparente que não me lembro mais o nome, e apertada. O sutiã branco, via-se seu corte simples e funcional, protegendo os seios empinados e ainda crescentes. E por sinal, de bicos duros no momento.
Um sorriso que eu já vi antes, não sei quando, apareceu no rosto dela, enquanto ela perguntava:
– Você acha que esse uniforme está pequeno em mim?
Projetou o peito pra frente, e alisou o corpo dos peitos até às coxas, com as duas mãos, e voltou pra parar com elas nos quadris. Que, além de ficarem mais desenhados, ainda repuxaram um pouquinho mais da saia pra cima.
segunda-feira, fevereiro 22, 2010
Amor Dói: Revanche (4)
Foram três dias de banho na base da esponja, usando cuecas. Mas hoje, eu tinha que reagir. Era banho de chuveiro ou nada. Afinal, hoje eu estava liberado para pequenas caminhadas. Não que eu esteja querendo, aqui, valorizar uma cirurgia tão elementar, mas é que foram dezenas de pontos numa região no meio das pernas, então realmente não convinha repuxar nem um pouquinho com alegres caminhadas. Especialmente eu, que já sabia de outros acidentes que cicatrizava com quelóides expressivas e fartas, meu joelho que o diga.
Dona Patranha me olhou, antes que eu entrasse no banho, e com aquele radar infalível, materno, fulminou:
– Você vai visitar a Ariana, né?
A minha perplexidade respondeu a ela melhor que palavras, pois ela se afastou com o seu registrado "ai, meudeush" de tantas vezes que me julgava à beira de um precipício. E, claro, foi preparar o remédio para todas as ocasiões: comida.
Entrei no banheiro, tirei a roupa e o curativo, e fui pro chuveiro.
A água foi descendo pelo meu peito, escorrendo normalmente, mas para mim em câmera lenta, até que passou do umbigo, cruzou a pelve, e moldou meu membro em recuperação numa escultura corrente, a dor fazendo mais parte da minha imaginação do que da realidade.
Deixei a atenção nele um pouco de lado, e realmente tomei banho, sabonete na pele, água... Até que uma sensação lancinante apareceu, quando a espuma começou a percorrer todos aqueles pequenos buraquinhos de ponto, e o corte. Para meu pavor, a água descia vermelha.
Naquele momento, uma leve náusea tomou conta de mim. Eu valorizava bastante o que estava em jogo, entendam. Com o perigo aparente, a dor parou, e uma capacidade analítica surgiu acima do suave embotamento do antiinflamatório. Um Osvaldo muito calmo, dentro de mim, notava que a água descia colorida, sim, mas de um tom alaranjado. Portanto, estávamos falando de uma diluição de povidine, e pensando bem, talvez um pouco do sangue pisado também estivesse descendo com a espuma. Não precisa ter pânico. Era a caixa, testando o príncipe, para que ele se tornasse o Muad'Dib um dia.
Juntei as mãos e fiz uma concha embaixo dele, deixando apenas a água limpa envolver. É, era o povidine mesmo, que besteira a minha. Sujeito mais apavorado. E naquele momento pude encarar a situação.
Eu imagino que seja algo meio tolo, a essas alturas do campeonato descrever um pênis, mas pode ser que uma ou outra pessoa ainda não tenha visto um, ou faça muito tempo desde o último, então vou fazer um pequeno esforço, para ajudar a descrever o que vi.
Imagine que alguém tenha feito um Darth Vader de carne e forrado com pele na parte que teria a capa. Imagine que a capa na verdade está fechada, do pescoço pra baixo. Vire este boneco de costas para você, e temos uma descrição do que vi entre minhas mãos. Em miniatura, claro. Era a primeira vez na vida que via minha própria glande, antes sempre encoberta. No caso em questão, com a água fria, o medo, e uma natural desvantagem propiciada pela minha natureza genética, parecia uma criatura frágil e incapaz de sobreviver por muito tempo. Estava esbranquiçada, talvez pela recuperação, talvez pela posição inerte em termos de funcionamento.
Os pontos era parecidíssimos com uma coroa de espinhos, e não quis muito assunto com eles(embora tenha imaginado rapidamente alguém decapitando o Darth Vader e costurando o pescoço dele de volta com arame farpado). Mas me lembrei que o bom doutor mencionara uma certa área de cabresto, abaixo da glande, e passei um dedo sobre ela. A água escapou da concha, e a resposta que meus nervos deram foi alucinante. Percorria todo meu corpo! Aquele pequeno conjunto de nervos, tão perto da costura que na verdade tinham até mesmo um ponto sob eles, me faziam reflexos da ponta dos dedos do pé até a nuca!
Meu rosto ficou quente. Ansiava explorar aquele contato, aquele terminal que mexia com toda uma fiação dentro de mim, e nesse microssegundo entre a experiência e suas possibilidades em minha mente, alguma válvula se abriu, e um pouco de sangue começou a ser injetado onde não devia.
Ainda atônito, comecei a sentir ali a força da costura dos pontos, apertando a carne como um aviso. Olhei pra cima imediatamente, e comecei a imaginar cenas terríveis de acidentes, carnificina... Lembrei da minha visita ao IML, o corpo diante de mim, e ainda não sentia o sangue parar de ser bombeado. Carne morta virava rapidamente carne viva na minha imaginação, o instinto urgente de dentro de todo animal neste mundo gritando para ser realizado, a vontade de obedecer à natureza ignorando detalhes da situação.
Vi dentro da minha mente, o lado bicho. Ele queria se realizar. Queria acontecer. Porque a demora? Porque imagens de simples caça? Reproduza! Exerça! E então pude dar a ele a imagem certa: me imaginei diante de uma mulher, anos no futuro, exibindo um pau terminando em nada, e imaginei essa mulher reagindo com risos. Imaginei outra reagindo com medo. Imaginei várias, todas e cada uma nos rejeitando, infinitamente. E finalmente consegui convencer a besta a recuar.
Suava frio. Terminei meu banho, me enxuguei com cuidado e escolhi uma calça e uma camisa pólo. Antes até de ver Ariana, queria ver as ruas do Centro do Rio. Me sentir livre, ainda que um pouquinho só. E o resto que se ajeitasse, vamos ver.
Dona Patranha me olhou, antes que eu entrasse no banho, e com aquele radar infalível, materno, fulminou:
– Você vai visitar a Ariana, né?
A minha perplexidade respondeu a ela melhor que palavras, pois ela se afastou com o seu registrado "ai, meudeush" de tantas vezes que me julgava à beira de um precipício. E, claro, foi preparar o remédio para todas as ocasiões: comida.
Entrei no banheiro, tirei a roupa e o curativo, e fui pro chuveiro.
A água foi descendo pelo meu peito, escorrendo normalmente, mas para mim em câmera lenta, até que passou do umbigo, cruzou a pelve, e moldou meu membro em recuperação numa escultura corrente, a dor fazendo mais parte da minha imaginação do que da realidade.
Deixei a atenção nele um pouco de lado, e realmente tomei banho, sabonete na pele, água... Até que uma sensação lancinante apareceu, quando a espuma começou a percorrer todos aqueles pequenos buraquinhos de ponto, e o corte. Para meu pavor, a água descia vermelha.
Naquele momento, uma leve náusea tomou conta de mim. Eu valorizava bastante o que estava em jogo, entendam. Com o perigo aparente, a dor parou, e uma capacidade analítica surgiu acima do suave embotamento do antiinflamatório. Um Osvaldo muito calmo, dentro de mim, notava que a água descia colorida, sim, mas de um tom alaranjado. Portanto, estávamos falando de uma diluição de povidine, e pensando bem, talvez um pouco do sangue pisado também estivesse descendo com a espuma. Não precisa ter pânico. Era a caixa, testando o príncipe, para que ele se tornasse o Muad'Dib um dia.Juntei as mãos e fiz uma concha embaixo dele, deixando apenas a água limpa envolver. É, era o povidine mesmo, que besteira a minha. Sujeito mais apavorado. E naquele momento pude encarar a situação.
Eu imagino que seja algo meio tolo, a essas alturas do campeonato descrever um pênis, mas pode ser que uma ou outra pessoa ainda não tenha visto um, ou faça muito tempo desde o último, então vou fazer um pequeno esforço, para ajudar a descrever o que vi.
Imagine que alguém tenha feito um Darth Vader de carne e forrado com pele na parte que teria a capa. Imagine que a capa na verdade está fechada, do pescoço pra baixo. Vire este boneco de costas para você, e temos uma descrição do que vi entre minhas mãos. Em miniatura, claro. Era a primeira vez na vida que via minha própria glande, antes sempre encoberta. No caso em questão, com a água fria, o medo, e uma natural desvantagem propiciada pela minha natureza genética, parecia uma criatura frágil e incapaz de sobreviver por muito tempo. Estava esbranquiçada, talvez pela recuperação, talvez pela posição inerte em termos de funcionamento.
Os pontos era parecidíssimos com uma coroa de espinhos, e não quis muito assunto com eles(embora tenha imaginado rapidamente alguém decapitando o Darth Vader e costurando o pescoço dele de volta com arame farpado). Mas me lembrei que o bom doutor mencionara uma certa área de cabresto, abaixo da glande, e passei um dedo sobre ela. A água escapou da concha, e a resposta que meus nervos deram foi alucinante. Percorria todo meu corpo! Aquele pequeno conjunto de nervos, tão perto da costura que na verdade tinham até mesmo um ponto sob eles, me faziam reflexos da ponta dos dedos do pé até a nuca!
Meu rosto ficou quente. Ansiava explorar aquele contato, aquele terminal que mexia com toda uma fiação dentro de mim, e nesse microssegundo entre a experiência e suas possibilidades em minha mente, alguma válvula se abriu, e um pouco de sangue começou a ser injetado onde não devia.
Ainda atônito, comecei a sentir ali a força da costura dos pontos, apertando a carne como um aviso. Olhei pra cima imediatamente, e comecei a imaginar cenas terríveis de acidentes, carnificina... Lembrei da minha visita ao IML, o corpo diante de mim, e ainda não sentia o sangue parar de ser bombeado. Carne morta virava rapidamente carne viva na minha imaginação, o instinto urgente de dentro de todo animal neste mundo gritando para ser realizado, a vontade de obedecer à natureza ignorando detalhes da situação.
Vi dentro da minha mente, o lado bicho. Ele queria se realizar. Queria acontecer. Porque a demora? Porque imagens de simples caça? Reproduza! Exerça! E então pude dar a ele a imagem certa: me imaginei diante de uma mulher, anos no futuro, exibindo um pau terminando em nada, e imaginei essa mulher reagindo com risos. Imaginei outra reagindo com medo. Imaginei várias, todas e cada uma nos rejeitando, infinitamente. E finalmente consegui convencer a besta a recuar.
Suava frio. Terminei meu banho, me enxuguei com cuidado e escolhi uma calça e uma camisa pólo. Antes até de ver Ariana, queria ver as ruas do Centro do Rio. Me sentir livre, ainda que um pouquinho só. E o resto que se ajeitasse, vamos ver.
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