domingo, outubro 24, 2010

Amor Dói: Renascimento (2)

Enquanto andamos mais um pouco pelos corredores, contei minha história àquele homem tão solícito, e ocasionalmente ele me interrompia, mas só pra tirar dúvidas. Nos alojamos no morgue, e fui vendo que ele procurava entender melhor as motivações da Ariana, e me surpreendi às vezes defendendo, às vezes criticando as atitudes dela. O plantão dele estava bem devagar mesmo, porque não fomos interrompidos em momento nenhum, exceto por um choro de mulher, ocasionalmente. Fiquei imaginando quando seria o horário de "alto tráfego" naquele ramo de trabalho. Terminei minha história, naquele momento em que fui salvo por ele.

Zé Pedro se aprumou, estava encostado nas gavetas. Durante minha história, andara por toda aquela espaçosa sala de autópsia, ajeitando os instrumentos, limpando mesas, e agora parou. Acendeu um cigarro, matutando, e disse, "você pretende seguir essa promessa?". "Claro", respondi, "é importante que esse tipo de coisa deixe de acontecer, e a gentileza pode mudar o mundo de muita gente".

A sala era iluminada também por uma generosa clarabóia, cujas telhas de vidro do meio eram de um branco leitoso, e as das bordas eram verdes. Naquele finzinho de tarde, o legista ficava com uma luz verde-claro se impondo sobre ele. Aliás sobre tudo ao meu redor, e me imaginei sendo visto por ele em lamúrias verde-claro de adolescente. Daquela imobilidade enfumaçada, Zé Pedro parecia estar sopesando sua própria consciência.

Ninguém olhava daquele jeito, especialmente para mim. Fiquei fascinado demais para interromper os devaneios dele, e não sei dizer quanto tempo isso durou.Então, aquele homem esculpido em esmeralda subitamente voltou a se mexer, ainda com o cigarro a meio caminho do fim. Ficou ereto e me pediu que abrisse a gaveta 5-E.

Olhei para a fileira de gavetas onde se guardavam os corpos. E tornei a olhar para ele. Entendi o que ele disse, mas não entendi o que significava essa autorização. Ainda gesticulei, mais do que falei, um tímido "eu?", que ele confirmou com um meneio de cabeça aquiescente.

Olhei para a gaveta. A etiqueta com borda vermelha, onde a mão escreveu com cuidado o cinco e a letra E maiúscula, separados por um hífen determinado. A alça de metal veio facilmente, revelando o volume que um lençol branco guardava.

Zé Pedro apareceu em silêncio ao meu lado enquanto eu hesitava. Levantou um dos lados do lençol, revelando a cabeça e os ombros do corpo de uma mulher jovem.

A pele morena, além da genética, era bronzeada por repetidos banhos de sol. Podia-se notar pela marca de biquini nos ombros. Os cabelos negros, longos e lisos emolduravam o rosto sereno e de proporções convidativas. Os lábios estavam secos, gretados, mas compunham uma boca carnuda. O nariz, pequeno, seguia reto no rosto até formar uma delicada almofada para as narinas.

Sem que eu percebesse, Zé Pedro voltou a se encostar na maca de rodas travadas onde estivera fumando. Quando consegui vencer o magnetismo daquela mulher, olhei para ele.

Naquele momento, começava a sentir um impulso de indignação. Aos treze anos, não entendemos rapidamente expressões, ainda mais quando são mistas. Quando nossos olhares se cruzaram, ele disse, "a vida é triste, mas sabe contar piadas, não?" e continuou, já que meu silêncio era a única resposta que eu sabia oferecer, "uma linda moça, encontrada caída no chão, em Copacabana, chegou aqui um pouco antes de você. Não tinha documentos, só  alguns anéis e um colar. Vestia biquini, canga de praia, sandálias e não carregava bolsa."

Tornei a olhar para ela. Serena. Parecia dormir, não morta. Fiquei constrangido, porque o homem que falava comigo me salvou, mas também ia violar esse corpo que devia virar estátua. Não que ele fosse violar, tipo vilão de filme, mas o trabalho dele é achar a verdade. Anotar numa ficha o porquê dessa moça, cândida e bela, ter sido levada do mundo dos vivos ainda no frescor.

Hoje, entendo que Zé Pedro estava apenas tentando me contar a dureza do trabalho dele. As coisas que ele via, todos os dias, somavam um ângulo da vida completamente diferente daqueles que estamos acostumados. Naquelas macas iam e vinham as pessoas que determinavam o lado que o mundo girava, as pessoas que alimentavam as caldeiras, as que davam respeito, as que tiravam o respeito, todas. Todos nós. E ele estava tentando me contar a piada.

Mas naquele momento, eu vi uma criatura má. E estava diante de algo que, em contraste com a moça serena à minha frente, parecia crua, bruta, insensível. E meus hormônios de adolescente, pra cima e pra baixo no meu organismo, não me permitiam sintetizar em uma frase decente o que queria falar, não gritar, para essa critatura, esse Tanatos do Centro do Rio. A fala engasgava, eu estava indignado, Zé Pedro tentava entender o que acontecia, e a moça se mexeu na maca.

Ela se mexeu.


Foi uma ajeitada, como se estivesse dormindo nua apenas. Mas de repente, a sala de autópsia foi ficando mais escura, mais alta, e nem notei que bati com a cabeça enquanto desmaiava.

domingo, maio 09, 2010

Amor Dói: Renascimento (1)

Cruzando a rua dos Inválidos, que além da Mem de Sá também tem um encontro marcado com a rua do Rezende. Só o boteco embaixo do prédio novo estava aberto. Eu estivera me entendendo com a dor, e de alguma forma o sistema do meu corpo entendeu que teria de terminar a caminhada antes de conseguir socorro, por isso pude começar a pensar com um pouco mais de clareza. E a alma estava ferida.

Aquilo que acontecera estava há meses de distância. entendi que desrespeitei uma mulher, e isso não se faz. Paguei pelo que fiz, e nunca mais faria isso de novo. Toleraria com paciência todos os desejos, birras, beicinhos, manhas, tudo sem julgamento, pois se alguém precisa daquela retribuição pela qual passei, é porque o macho da espécie humana cometeu mais do que tinha direito em falta de cavalheirismo. Seria, dali, a paga de meu gênero: gentil, discreto e generoso com qualquer mulher.

Fui interrompido de meus devaneios por um esbarrão. Um senhor saía do boteco para atravessar a Inválidos, ainda passando à boca um guardanapo, e sem me ver ao virar, interrompeu meus passos, meu raciocínio, mas não minha promessa. Com uma voz grave e familiar, se desculpou enquanto me observava. A memória de ambos estava voltando ao mesmo tempo: era José Pedro, funcionário do IML, que me reconhecia.

Tentou falar comigo, e eu tentei responder, mas pela expressão de preocupação logo vi que devia estar apenas gemendo minhas respostas, quando me parecia estar sendo bastante claro. Me explicou que estava voltando de um lanche no meio do turno, e me perguntou se queria andar com ele até o Instituto. Disse que não podia. Tinha que ir pra casa.

João Pedro insistiu. Especialmente porque via-se que algo comigo não estava bem. Me concentrei pra ser o mais claro possível, e confiando numa discrição que não precisava esperar de estranho algum, contei a ele como realmente estava minha situação.

Seu comportamento mudou na hora. "Você precisa ver um médico logo. Ainda bem que eu sou um. Venha, me deixe ajudar você.", e sem mais cerimônia me apoiou nele, e me levou até o Instituto.

Que diferença de atitude, entre pessoas do mesmo ramo! Aquele urologista de toque feminino, voz falsamente mansa, o dr. Flávio com sua indiferença profissional, e o homem que agora só se apresentava como médico! Ele não me deixava fazer esforços com as pernas, realmente dando uma pausa para os puxões.

Passamos o vigia, e em seguida os corredores vazios até as salas de corpo de delito. Fora um ou outro parente esperando pelo pior, já desenganado, ninguém nos incomodou. Entramos na sala, onde ele limpou a mesa antes de me por sentado, e eu fui tirando a roupa lentamente. Depois que estive lá por causa de um cérebro, acho que não poderia ter ninguém melhor para me ver naquele estado vergonhoso.

Quando fiquei de cuecas, parei de me despir e me sentei na mesa de aço. Já via pontos de sangue. José Pedro entendeu e me ajudou com essa parte. Tirou a cueca, e removeu com cuidado o curativo, mas lentamente. Seu olhar era de um homem ocupado, e apesar da análise criteriosa, cautelosamente foi falando que não estava tão mau assim, com aquela voz que a gente às vezes quer ouvir em casa, de um parente calmo e protetor.

Ele pegou alguns produtos, e entendi que ia começar a lavar tudo para ver realmente e refazer o curativo. Encostei a cabeça no aço da cama, e só para me tranquilizar ele foi narrando o que estava fazendo. Daqui a pouco, soltou sem mais nem menos:

- Pena que não podemos dar queixa desse tipo de violência. Ela devia ouvir uma bronca do delegado, só pra tomar um rumo na vida.

O frio da mesa de aço, estar num lugar totalmente inesperado e sozinho, com um completo estranho, tudo isso que poderia me fazer sentir um medo inexplicável, naquele momento ficou de lado e eu só senti vontade de rir. E ri feito um bobo, como se tivesse escapado do pior desafio da minha vida com alguns arranhões. Ao levantar a cabeça vi que o curativo já estava trocado, e bem feito. José Pedro estava tirando as luvas e se afastando, para que eu pudesse me vestir.

- Doutor, não tenho como lhe agradecer, comecei a dizer, quando colocava o cinto.
- Pra começar, Zé Pedro é um jeito bem legal de me chamar. E faz parte do meu trabalho ajudar as pessoas em dificuldades.
- E que dificuldade infeliz, essa, comentei olhando de banda, com um sorriso triste.
- De fato, meu amigo. Gostaria de conhecer os detalhes dela, se ninguém estiver te esperando em casa. Espero não constranger você com esse pedido, mas o plantão de domingo é meio chato e seria bom ter um pouco de companhia pra esperar as horas passarem.

Olhou pra mim com jeito de troça.

- Afinal, já fizemos um mendigo dançar, certo?

segunda-feira, março 08, 2010

Amor Dói: Revanche (final)

Voltando pra casa.
Cada passo deveria ser de dor, mas na verdade é indiferente. Simplesmente dói o tempo todo. Lateja. Repuxa. Aquela dor aguda, o corpo requerendo atenção imediata, tem algo simplesmente muito errado aqui. Por isso, não consigo muito avançar rápido: estou apenas resistindo à essa vontade desgraçada.
Pensa em alguma coisa, Valdo. Qualquer coisa. Anda e pensa.
Voltando pra casa.
Lembro da Ariana vindo, devagar, me pondo sentado de novo no sofá. As cenas, junto com a dor, se repetem na minha cabeça. Passando as duas mãos nas minhas pernas. Indo para o quadril. Sentando, pernas abertas, nos meus joelhos. Alisando, agora, as próprias coxas, subindo mais um pouquinho a saia já curta, deixando uma calcinha de algodão aparecer.
E aquele olhar.
Eu queria que aquilo acontecesse. Queria com quase todas as fibras dentro de mim. Exceto aquelas envolvidas pelos pontos. Que também eram fibras, ainda mais determinadas que as minhas. Suava, tenso. Meu rosto era um braseiro, entre excitado e envergonhado, e querendo, e não querendo.
Ela me olhava, media minhas reações, e se divertia. Analisando o meu desequilíbrio naquela ponta de faca que me encontrava. Sabendo, sabendo de verdade que não era apenas prazer que eu sentia, mas a necessidade urgente de renegar o prazer. E gostando. Ela estava gostando de fazer aquilo comigo! 
Podia ver a pequena curva, no meio de suas pernas, protegida pela calcinha. Lembrei que muitas vezes sobrepunha, em imaginação, diagramas anatômicos ao corpo dela, imaginando que parte ia em qual canto da roupa. Olhava, nos relances, sua barriga e imaginava, canal vaginal, útero...
Meu desespero, minha excitação, meu corpo cheio de vontades contraditórias, eu me torturando, mesmerizado, incapaz de sair ou ficar, uma inação entregue ao momento da verdade. Numa ação desesperada, puxei meu aparelho reprodutor para dentro, numa contração muscular que não me lembro de tentar antes na vidinha que tive até ali.
Agora ainda, no presente, contraía igual. Pra tentar minimizar as coisas.
... Trompas. Voltava a pensar nos grandes lábios, pequenos lábios, clitóris. O conjunto me lembrava exatamente o desenho do portal principal da Igreja de São Pedro, em Santa Tereza. Como será que o diagrama da vagina virou desenho de porta de igreja?
Ariana percebia quando eu conseguia recuar a mente pra dentro de mim mesmo. Abriu as pernas, pude ver os tendões da coxa, levando ao meio. Ela levantou mais a saia, enquanto puxava os elásticos das pernas da calcinha pra dentro. Pude ver alguns pêlos. Uma carne macia começou a sobrar do tecido apertado. Com alguns pêlos aparecendo. Louros. Ela largou a calcinha e segurou meu rosto pelo queixo, erguendo. Se inclinou pra muito perto de mim, um quase beijo que não era pra ser agora, mas podia ser qualquer outra hora da minha vida. Senti o hálito, a respiração. Vi detalhadamente os pelos suaves do rosto. O olhar era sádico. Entre o divertimento e o disciplinamento. Duro e divertido. Os dentes brancos apareciam quando ela falava.
— Que foi? Tem alguma coisa te incomodando?
A porta da Igreja de São Pedro tem arquitetura gótica, e a construção de um arco gótico demandava uma sequencia de pedras devidamente talhadas, e depois adequadamente empilhadas, com cuidado e método, para que todo o conjunto se apoiasse na pedra superior, gerando pressão uniforme entre as partes. Era uma queda constante. Constantemente mantida pela pedra menos provável.
Devo portanto, ter grunhido.
Ela olhou para trás, e pude ver quando o torso ficou virado, através do vão entre os botões da camisa, um seio. Seu volume, seu traço, a aréola, o mamilo duro. Ela voltou só o rosto, acompanhou meu olhar, sorriu.
— Acho que você precisa de uma televisão pra se distrair. Será que consigo ligar daqui?
Levantou-se do meu colo, e por cima da mesinha de centro da sala, tentou ligar a tevê.
— Ah, não alcanço o botão.
Dessa vez ela se apoiou de quatro na mesinha, que resistiu tão bem quanto eu até ali.
Comecei a pensar que deveria reter na minha memória reflexos condicionados, como não pensar a palavra "bunda" ao ver uma. Deveria ser mais cavalheiresco, até no meu íntimo, e pensar termos como glúteos, nádegas, quarto posterior. No máximo, em momentos mais discretos entre duas pessoas, para não desmerecer minha companheira, um recatado "bumbum", em voga na época. Isso que eu estava fazendo, enquanto a Ariana estava de quatro sobre a mesinha de centro, com a bunda na minha cara, embalada em uma suave e angelical calcinha de algodão, se chamava tergiversar. Essa palavra, diretamente do latim, queria dizer apenas o que Ariana estava fazendo, dar as costas. E o significado indireto, usar de evasivas, rodeios, subterfúgios, servia bem para o que estava fazendo agora, dentro da minha mente. Incapaz de me mexer, e entendendo claramente que não conseguiria sequer olhar para o lado, estava vendo o que era me posto diante dos olhos para ver, e procurava não associar aquilo a nada.
Voltando pra casa.
Benditos marinheiros de Odisseu! Tinham apenas que se amarrar no navio, deixar as sereias passarem, lalalá, e estavam salvos. Já esta aqui, em cima do deque, indo e vindo e querendo que meu mastro se dane!
Voltando pra casa. Os passos não causam dor, ela já existe, acredita nisso. Por favor. Você ainda está na altura da Lavradio, Valdo.
O olhar tinha toda a maldade que eu já vi em uma só pessoa. Instigava, e analisava o resultado, brilhava em júbilo. Instigava de novo.
Eu pensava na Litania contra o Medo, e de alguma coisa me valeu, porque esse caso pedia que meu medo estivesse sob controle. Com o medo, o sangue rodava desvairado no corpo. Não se concentrava necessariamente aos órgãos da reprodução. Mas eu precisava de mais medo. Precisava pensar em uma grande queda, de uma grande altura, queriam meu mal e me largavam lá do alto, alguém, eles, sem uma história não consigo acreditar na minha emulação!
Ariana viu que meu esforço dava algum resultado, desligou a tevê, e se sentou de frente pra mim. Com olhar de menina. Fazendo beicinho.
— Acho que estou pegando pesado com você.
Fez uma pausa, esperou que eu lentamente fechasse e abrisse os olhos, me acostumasse com a mudança.
— É que eu não pude resistir. Me fizeram um comentário outro dia sobre essa roupa, e eu achei que não era possível. A gente se arruma tanto, e a coisa que deixa os homens interessados é justamente esse uniforme ridículo! Me disseram que até tem um escritor, há anos ele fala que essa roupa devia ser vista em puteiros.
Pensei, Nelson Rodrigues, nunca me deixaram ler por causa disso. Mas respirar nesse momento já tomava todo o meu fôlego. Ela estava sentada de frente pra mim, reclinada, sem sutiã, com ar de chorinho. ufff, grunhi.
— Precisava ter certeza. E nesse seu estado... Não tem como você fazer nada se for verdade, nem mentir, se não for.
Miserável.
— Mas eu tenho um jeito de compensar você. Lembra que você sempre me disse que gostava do meu cheiro?
— Ahã.
Ela pôs uma das mãos dentro da calcinha.
—Eu até te flagrei uma vez, quando voltava do banho, cheirando uma camiseta minha  usada da ACM... A expressão do seu rosto era tão esquisita! Mas eu só vi de lado.
Eu achei que isso seria motivo de briga, mas se ela estava tão curiosa eu talvez devesse tentar concatenar uma explicação que deixasse a gente bem. Certamente haveria uma.
— Então. Esse teste me deixou meio... empolgada, também, sabe? Ver você assim...
E subitamente, a mão partiu de lá de baixo, como num tapa, de baixo pra cima, a ponta dos dedos raspou na minha camiseta, queixo e nariz. Os dedos estavam molhados.
Eu demorei pra entender o que isso queria dizer. O cheiro era diferente, mas ainda mais convidativo que o capim-limão de sempre. Ainda que estivesse incluído ele, também.
Meu pau entendeu primeiro. Numa arrancada digna de motor de Ferrari, ele simplesmente saltou daquele estado intermediário de suspense, para... o limite do curativo.
Aí o raciocínio compreendeu aquele estímulo. Reprodução. Agora.
A montagem do curativo era com a gaze para dentro. Essa gaze, agora, com seus fios espaçosos, fazia a resistência natural ao crescimento da glande e o arrastar da área cheia de pontos. E era escorada, por fora, pelo esparadrapo em espiral. Feito para não soltar, a não ser com cuidado. Eu sentia, em vários cantos, os pontos passando, como se fosse pequenos gatilhos, pelos fios que cruzavam seu caminho. Sentia a vibração na carne, um tectectec cada vez mais lento.
A glande, decidida ao seu papel, progredia dentro da armação. E atrás dela, os fios gradualmente iam se prendendo aqui e ali. Alguns já esticavam.
Nesse tempo impossível de medir, se em horas, ou milésimos, pressenti meu destino e perguntei em lamúria: "porquê isso? O que eu te fiz?"
E Ariana, enquanto caía encolhido de lado no sofá, se levantou, me olhou de cima, e enquanto  o meu centro de corpo estalava e ameaçava se condenar, explicou:
— Porque vocês merecem. Vocês, homens, são todos iguais. Merecem um castigo por nos impor limites, regras, formas. Por nos pegarem e depois jogarem fora de qualquer jeito. Nos usarem!
O cheiro preso em mim cegava qualquer medo daquela pessoa estranha à minha frente. Me deixava sem ação.
— Pensa que eu não vejo, o que você quer de mim esse tempo todo? Ao menos o Valdir foi honesto e direto, veio e disse o que queria. Ele foi homem.
Eu comecei a andar de gatinhas no chão, pra porta de saída. Me arrastava e sabia disso. E as palavras combinavam com o cheiro, para dar um efeito ao mesmo tempo acre e doce.
—Mas você, Valdo, você ficou! Ficou se insinuando, esses meses todos, se aproximando, de conversinha! Olhava pra mim com olhar de fome, toda a hora, e eu entendi muito bem que você me comia com os olhos! Que você me queria! E ainda quer, até mesmo agora!
Ela começou a andar atrás de mim. Na verdade, me passou, abriu a porta do apartamento, e terminou:
—Essa, Valdo, é minha revanche! Hoje eu fui à forra de tudo que você pensou de sacanagem, de ruim, de mim!
Passei o batente da porta. Ela me chutou no traseiro, terminando de me expulsar para o corredor.
— Some daqui!
E bateu a porta. E eu me levantei, sei lá como, chamei o elevador, alcancei a rua. E estou voltando pra casa.
Já estou quase na Gomes Freire.

quarta-feira, março 03, 2010

Amor Dói: Revanche (5)

Caminhar na rua. O sol, o tímido movimento dos domingos no Centro. Gatos andavam, desconfiados, devagar. E eu nesse passinho de malandro, medrado de abrir mais as pernas nos meus passos bem dados de antes, pontos cuidados.

Ia de calças jeans, que me envergonhava de mostrar pernas brancas, ainda não sabendo que seriam as melhores coisas a se mostrar quando começasse a fazer as garotas me notarem.

Olhava as calçadinhas estreitas, os sobrados longos e sem espaço. Pontuava o passo, pensando: por que raios estava indo ver justamente Ariana?

Mas isso já havia pensado antes, não me sentia bem de estar com os rapazes, ainda que pareça-me ridículo pensar em pôr à baila o assunto que me tomava toda a atenção no momento com uma garota, parecia ainda pior expor minhas fraquezas a quem certamente tomaria proveito do caso. Zombariam de mim, sem dúvida. Ou sei lá.

Ia vê-la porque era onde poderia confessar meu pequeno resguardo, e quem sabe ganhar algum colo. Seria engraçado estar em uma ternura interrompida, porque afinal não posso me empolgar agora. Me imaginava numa situação de dizer a ela, "não me beija não, que aqui embaixo a coisa complica de repente". Imaginava a reação dela, aquele "oh" da menina do desenho da Heidi, talvez tentando não olhar para baixo, um vínculo se formando por tão pouquinho bem aonde queria me vincular com ela.

E ia, subindo a Mem de Sá, os ônibus vindo tão devagar na minha direção, e tão sozinhos na rua, que desconfiava que às vezes os motoristas paravam o carro para apreciar o domingo sossegado.

Sentia o cheiro de plantas no ar, as árvores ainda conseguiam fazer isso naquela época, apesar de todos os postes de fios e luz, toda a fumaça preta.

Quando cruzava a Gomes Freire, um jogo de vôlei. A bola veio na minha direção, era só esticar o pé que parava a danada, mas agora... a bola que se virasse. Os garotos do jogo olharam pra mim com cara feia, mais desapontados que outra coisa. Um passou por mim correndo pra ir buscar. Ah, nem gosto de vôlei, sou do basquete. Quem gostava desse jogo era Heinz, que "detestava contato físico com marmanjo".

Lembrei dele, jogando na Olimpíada da ACM. Meu time de basquete tinha caído nas semifinais, mas o dele disputava o bronze. Estava lá vendo. As quadras da Associação Cristã de Moços eram num prédio de andares altos, e as salas que elas ocupavam eram pouco maiores que as marcações das quadras, e quando estava lá há uns cinco minutos testemunhei uma cena incomum.

O time do Heinz estava no fundo do salão, ou seja, de frente para a sacada dos espectadores que era no andar de cima. A sacada era curta, para dar espaço adicional no andar para a bola poder subir nos saques. Bernard tinha recém-inventado a Jornada nas Estrelas, mas a quadra não permitia tanta empolgação assim. Os saques eram aqueles altos, que todo mundo faz hoje, parecendo o do tênis: jogam a bola, e pulam atrás pra dar aquele tapa safado e mandar a pelota pro adversário lidar com ela. Mandaram um saque desses, o time do meu amigo pegou, serviu, devolveu numa cortada meia de quadra, fraca. Os adversários embaixo de mim, ao invés da sequência de três toques, simplesmente devolveu a bola para o meio do campo dele, onde estava um garoto que era meio mole pra reagir. Um dos jogadores das laterais, impaciente, catou de manchete, e mandou pro fundo da quadra, na direção da parede. Já era ponto, certeza: ia bater a uns três metros de altura, sem chance.

Nisso, o Heinz, que estava na posição de saque, foi atrás da bola. O juiz já estava levantando o apito, e ele simplesmente continuou correndo, parede acima. Nada prodigioso, dois passos, mas com isso pôde alcançar a bola, e de costas, devolver pra quadra adversária. Incrédulos, os adversários não se mexeram, e até o juiz viu a bola quicar duas vezes antes de entender que, afinal de contas, não tinha nada de errado no que ele fez. Ponto pro time do meu amigo, estava na morte súbita, e a partida terminou ali mesmo. Foi uma bela medalha de bronze.

Mas, o que seria do meu amigo, que hoje não conhece mais ninguém daquela época, se eu não tivesse testemunhado esse momento dele? Se eu não aparecesse com essa recordação da manga, anos depois, numa retomada da nossa amizade?

Testemunho. Precisamos desesperadamente dar sentido à nossa passagem nesse mundo, e a cabeça que pensa, e quer mais que nascer, crescer, dar cria e morrer, se sente confortável com essa idéia.

E, chegando no único prédio de apartamentos da Travessa Mosqueira, percebi que era isso que queria dela: testemunho para meu momento, apoio, aceitação. Remanso, talvez, mas nem precisava chegar a tanto. Bastava compartilhar aquele momento com ela, o pouquinho que fosse. Falar, talvez, daquele momento em que entendi que o mundo era cercado por aspectos de uma Deusa, que apenas entrevi, e me apoiou num dos meus momentos de necessidade. Saber dela, talvez, se havia algo a aprender disso, testemunhar as histórias dela também.

Ela abriu a porta, e me disse para ir pra sala. Era um apartamento pequeno, mas com dois quartos, ainda que o quarto da Ariana fosse na verdade uma porta nova no antigo quarto de empregada, originalmente abrindo dentro da área da cozinha, agora abrindo no corredor pra sala. Ela só me indicava a sala quando a mãe não estava em casa. Não se davam muito bem, e o temperamento sempre agressivo da minha amiga era um motivo razoável pra isso.

O cheiro dela, aquele cheiro maravilhoso estava no apartamento. Capim limão, com um toque de animal. Fêmea. Calma. Muita calma.

Voltou da cozinha, me ofereceu água. Aceitei, adoro água, e começamos a conversar. Ela não demorou a perguntar:
– Mas você operou, então? – e eu concordei com a cabeça – Operou o quê?
Apontei para o zíper da calça, e disse simples, "fimose". Ela quis saber o que era, e não me furtei. Expliquei que era uma pele. Na cabeça do... você sabe, né?
– Ué, mas isso opera? Ela não fica só pra trás, quando ele cresce?
Ariana me perguntar a coisa desse jeito me deu a entender que ela talvez tivesse uma experiência que me deixou incomodado. Imaginei uma foto dela de biquini de lantejoulas na porta da Boate México, fazendo pose de quem tem problema de coluna. E vendo paus com prepúcio que se retrai pra todo lado. Piranha, era a imagem.
Mas respondi que nem sempre era assim, alguns rapazes não tinham a pele tão elástica assim, e precisavam de uma operação que era até bem simples, apesar de achar que meu médico pegou meio pesado no trato comigo. Ia falando e deixando a imagem de lado.
– Mas então você já está... recuperado?
– Não. Tem uns trinta ou quarenta pontos ao redor da minha cabeça. Parecem uma coroa de espinhos.
– Posso ver?
Ok, a Ariana quer ver meu pau. Pelo motivo errado, a ação que eu esperaria uma vida pra realizar podia acontecer ali mesmo. Percebi um pequeno brilho no olhar dela, curiosidade genuína. Me encarava, mas baixou uma vez os olhos pra minha calça.
– Eu.. n-não tenho m-muito o que mostrar. Te-tem muito esparadrapo em cima ainda...
– Ah. Notei o desapontamento dela.
– Mas quando eu tirar, posso mostrar, se quiser ver.
– Eu hein? Queria ver os pontos!
Ri. Não consigo manter a ironia de uma situação pra mim, e acho que esse é o pior sintoma de ser homem.
– Ariana, não duvide que a coisa que mais queria era abrir minhas calças pra você. M-mas nem posso pensar em fazer isso.
Nunca tinha falado assim na vida com ninguém, acho uma violação. Mas não resisti. Era mais forte que eu, e realmente era a parte errada do que fui fazer ali, mas ainda assim parte. Continuei, estendendo um indicador pra explicar melhor.
– Os pontos estão numa arrumação de anel. Ao redor de toda a cabeça. Mas esse anel tem a minha medida "murcho". Se eu começar a t-ter a menor idéia na cabeça, er.. ele reage. C-cresce, se estrangulando no anel. E eu não sei o que pode acontecer...
A tensão tinha me feito sentar na pontinha do sofá, e ela olhava às vezes pro meio das minhas pernas como se imaginasse a cena. Foi ficando com um olhar estranho. Quando terminei de falar, ela resolveu mudar de assunto, com um muxoxo de quem vê que não tem nada legal na TV, só A Gangue dos Dobermanns de novo.
– Valdo, saí com a minha mãe pra comprar uniforme novo. Lá no meu colégio, as inspetoras estavam reclamando que eu tinha crescido muito, o antigo não estava bom mais. Sabe que eu achei um absurdo? Peraí.
Correu pro quarto, com aquele jeito caucasiano de correr. Percebi que estava usando um short de moleton amarelo, e uma camiseta cor de maçã verde. Claro que olhei suas costas, sua bunda, pela bilionésima vez, mas agora não podia pensar nisso. Lembrei de um lance de respiração pra essas horas, e fiquei um tempo focado nisso.
Affuuuuu.
Affuuuuu.
Me toquei que ela estava demorando um tantinho naquele quarto pequeno que tem. Se queria me mostrar alguma coisa, não ia ficar procurando, nem tinha muito espaço: era só a cama de solteiro, um armário de duas portas e uma escrivaninha pra estudar. A tal porta era até de correr, pra tentar dar algum espaço a mais. Ainda assim, duas pessoas só ficavam juntas naquele quarto se uma subisse na cama e a outra sentasse no chão.

De repente, ela voltou de lá de dentro.

Vestia um uniforme de colégio público, sapatos inclusive. Saia de tergal realmente curta, a camisa daquele tecido meio transparente que não me lembro mais o nome, e apertada. O sutiã branco, via-se seu corte simples e funcional, protegendo os seios empinados e ainda crescentes. E por sinal, de bicos duros no momento.

Um sorriso que eu já vi antes, não sei quando, apareceu no rosto dela, enquanto ela perguntava:

– Você acha que esse uniforme está pequeno em mim?

Projetou o peito pra frente, e alisou o corpo dos peitos até às coxas, com as duas mãos, e voltou pra parar com elas nos quadris. Que, além de ficarem mais desenhados, ainda repuxaram um pouquinho mais da saia pra cima.

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Amor Dói: Revanche (4)

Foram três dias de banho na base da esponja, usando cuecas. Mas hoje, eu tinha que reagir. Era banho de chuveiro ou nada. Afinal, hoje eu estava liberado para pequenas caminhadas. Não que eu esteja querendo, aqui, valorizar uma cirurgia tão elementar, mas é que foram dezenas de pontos numa região no meio das pernas, então  realmente não convinha repuxar nem um pouquinho com alegres caminhadas. Especialmente eu, que já sabia de outros acidentes que cicatrizava com quelóides expressivas e fartas, meu joelho que o diga.

Dona Patranha me olhou, antes que eu entrasse no banho, e com aquele radar infalível, materno, fulminou:
– Você vai visitar a Ariana, né?

A minha perplexidade respondeu a ela melhor que palavras, pois ela se afastou com o seu registrado "ai, meudeush" de tantas vezes que me julgava à beira de um precipício. E, claro, foi preparar o remédio para todas as ocasiões: comida.

Entrei no banheiro, tirei a roupa e o curativo, e fui pro chuveiro.

A água foi descendo pelo meu peito, escorrendo normalmente, mas para mim em câmera lenta, até que passou do umbigo, cruzou a pelve, e moldou meu membro em recuperação numa escultura corrente, a dor fazendo mais parte da minha imaginação do que da realidade.

Deixei a atenção nele um pouco de lado, e realmente tomei banho, sabonete na pele, água... Até que uma sensação lancinante apareceu, quando a espuma começou a percorrer todos aqueles pequenos buraquinhos de ponto, e o corte. Para meu pavor, a água descia vermelha.
Naquele momento, uma leve náusea tomou conta de mim. Eu valorizava bastante o que estava em jogo, entendam. Com o perigo aparente, a dor parou, e uma capacidade analítica surgiu acima do suave embotamento do antiinflamatório. Um Osvaldo muito calmo, dentro de mim, notava que a água descia colorida, sim, mas de um tom alaranjado. Portanto, estávamos falando de uma diluição de povidine, e pensando bem, talvez um pouco do sangue pisado também estivesse descendo com a espuma. Não precisa ter pânico. Era a caixa, testando o príncipe, para que ele se tornasse o Muad'Dib um dia.

Juntei as mãos e fiz uma concha embaixo dele, deixando apenas a água limpa envolver. É, era o povidine mesmo, que besteira a minha. Sujeito mais apavorado. E naquele momento pude encarar a situação.

Eu imagino que seja algo meio tolo, a essas alturas do campeonato descrever um pênis, mas pode ser que uma ou outra pessoa ainda não tenha visto um, ou faça muito tempo desde o último, então vou fazer um pequeno esforço, para ajudar a descrever o que vi.

Imagine que alguém tenha feito um Darth Vader de carne e forrado com pele na parte que teria a capa. Imagine que a capa na verdade está fechada, do pescoço pra baixo. Vire este boneco de costas para você, e temos uma descrição do que vi entre minhas mãos. Em miniatura, claro. Era a primeira vez na vida que via minha própria glande, antes sempre encoberta. No caso em questão, com a água fria, o medo, e uma natural desvantagem propiciada pela minha natureza genética, parecia uma criatura frágil e incapaz de sobreviver por muito tempo. Estava esbranquiçada, talvez pela recuperação, talvez pela posição inerte em termos de funcionamento.

Os pontos era parecidíssimos com uma coroa de espinhos, e não quis muito assunto com eles(embora tenha imaginado rapidamente alguém decapitando o Darth Vader e costurando o pescoço dele de volta com arame farpado). Mas me lembrei que o bom doutor mencionara uma certa área de cabresto, abaixo da  glande, e passei um dedo sobre ela. A água escapou da concha, e a resposta que meus nervos deram foi alucinante. Percorria todo meu corpo! Aquele pequeno conjunto de nervos, tão perto da costura que na verdade tinham até mesmo um ponto sob eles, me faziam reflexos da ponta dos dedos do pé até a nuca!
Meu rosto ficou quente. Ansiava explorar aquele contato, aquele terminal que mexia com toda uma fiação dentro de mim, e nesse microssegundo entre a experiência e suas possibilidades em minha mente, alguma válvula se abriu, e um pouco de sangue começou a ser injetado onde não devia.

Ainda atônito, comecei a sentir ali a força da costura dos pontos, apertando a carne como um aviso. Olhei pra cima imediatamente, e comecei a imaginar cenas terríveis de acidentes, carnificina... Lembrei da minha visita ao IML, o corpo diante de mim, e ainda não sentia o sangue parar de ser bombeado. Carne morta virava rapidamente carne viva na minha imaginação, o instinto urgente de dentro de  todo animal neste mundo gritando para ser realizado, a vontade de obedecer à natureza ignorando detalhes da situação.

Vi dentro da minha mente, o lado bicho. Ele queria se realizar. Queria acontecer. Porque a demora? Porque imagens de simples caça? Reproduza! Exerça! E então pude dar a ele a imagem certa: me imaginei diante de uma mulher, anos no futuro, exibindo um pau terminando em nada, e imaginei essa mulher reagindo com risos. Imaginei outra reagindo com medo. Imaginei várias, todas e cada uma nos rejeitando, infinitamente. E finalmente consegui convencer a besta a recuar.

Suava frio. Terminei meu banho, me enxuguei com cuidado e escolhi uma calça e uma camisa pólo. Antes até de ver Ariana, queria ver as ruas do Centro do Rio. Me sentir livre, ainda que um pouquinho só. E o resto que se ajeitasse, vamos ver.

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Amor Dói: Revanche (3)

O antiinflamatório estava me deixando mole e com sede. O que quer dizer que toda hora levantava, ou ao banheiro, ou à geladeira. As horas foram ficando doidas. Ler era impossível. Tudo parecia confuso e interminável. A dor foi virando um hábito, trocar ataduras dava trabalho, e eu comecei a rir ciclicamente da imagem de boneco vodu de múmia que eu tinha que tratar. A cicatrização era um enigma, porque os pontos eram escuros, o sangue era escuro, o povidine era escuro e no meio daquilo o que ia sobrar era um enigma.

Era de tarde quando o Valdir apareceu. A gente se via de vez em quando, esses tempos. E falava dos nossos assuntos, ainda mais que ele era o feliz dono de um MSX da Gradiente, equipamento irado para acessar um mundo novo de possibilidades... Nossa isso era papo pra mais de metro.

Até que o assunto virou Ariana. Na época, a indiferença dele parecia genuína. Quando a gente fica mais crescidinho, vai entendendo que isso pode ser um desdém de quem quer comprar. Mas ele só ouvia, enquanto eu contava sobre minha epifania na sala, um dia antes da cirurgia. Quando eu não tinha mais o que contar, ele só me deu o conselho padrão. "Essa garota te arruína, cara. Ela não pode ficar contando com você sempre por perto."

A gente discordava disso. Eu adorava Ariana, era uma fonte de alegria estar do lado dela o tempo todo. Ele sempre me lembrava que o mundo estava cheio de garotas legais, tinha até aquela Viviane lá da ACM que de vez em quando conversava comigo. É, verdade, mas a Viviane era linda demais pra querer alguma coisa comigo. Além disso, a nossa afinidade era por conta de uma suposta ascendência judia na minha família, muita gente pensava que eu tinha algum pé com o Povo. Até o Geraldo (um cara do meu colégio) achava isso, mas no caso dele isso era um demérito; ele tinha uma certa tara pelo nazismo, e sentia ciúmes da minha amizade com o Heinz. Queria convencer o Heinz a contar o que o pai dele sabia da época de Hitler, e achava que a coisa não progredia porque eu usei minha "manipulação hebraica de culpa" na mente dele.

Fiquei feliz com a mudança de assunto, afinal o Heinz era um dos poucos amigos que eu tinha, além do Valdir. Entrou no meu colégio logo depois da saída dele, então eu colocava um a par do que o outro fazia. Além disso, o Heinz era mais parecido comigo nas dúvidas, e nas leituras. E o avô dele tinha sido de um partido de oposição ao nazismo na época do Governante...

Eu sei que estou narrando esta parte em porções esparsas, mas isso dá uma idéia da transição que senti naquele dia. As idéias iam e vinham, a consciência também, e num desses cochilos percebi de repente que o Valdir não estava mais lá.

Em algum momento no meio desse devaneio, o segundo dia de recuperação virou terceiro. Ariana, Valdir, Geraldo, Viviane, o pequeno grupo de testemunho da minha passagem pela vida, apareciam na minha imaginação lentamente, sem nada dizer, sem muito o que resolver.

E estava um calor dos diabos.

terça-feira, fevereiro 02, 2010

Amor Dói: Revanche (2)

Dor. Eu sei que deve parecer chato falar tanto assim dela, mas antes de acordar direito, ela se agarrava em mim, com uma urgência, uma premência! Nada antes parecia tão terrível, aquela mordida em mim permanente, uma ameaça a mim!

Chutei o lençol para fora, como se pudesse fazer alguma coisa a respeito, e olhei para dentro da minha bermuda. Minha múmia em miniatura estava tentando uma ereção! E vagava, perdida, entre minhas pernas, buscando cegamente um caminho para cima que era melhor ela não achar! Eu via as pulsações, e sentia a cada pulsar o anel de pontos apertando... cada vez mais...

A cada manhã, desde que começara a minha puberdade, a ereção matinal era um ritual secreto meu, uma promessa de felicidade num futuro que não tinha data no calendário. Cultuava a capacidade de ser feliz um dia que aquilo representava. Hoje, esse momento feliz poderia ser meu fim, ou ao menos eu pensava isso.

Percebi que a essas alturas, eu acordado, já seria de se esperar que estivesse completamente inflado. Mas o curativo retardara o processo, segurando quase por igual em todos os lados ao mesmo tempo.

Ainda assim, ele avançava. A pele repuxava, um pouco nos pontos, um pouco na cola do esparadrapo, mas mesmo as pontadas cada vez mais intensas não esmoreciam a tentativa de chegar ao céu. A cabeça começava a raciocinar contra, mas o corpo não estava nada disposto a obedecer. Ainda estava despertando, e promovia a ereção iminente como o ritual de sempre.

Comecei a imaginar cenas de horror grotesco. Não tive muita ajuda, porque logo de cara os filmes de Woody Allen, muito populares na época, vieram à tona. Tudo que você sempre quis saber sobre sexo, mas nunca teve coragem de perguntar, quem diria, agora parecia um filme sexy!

Ok. Um suor frio começou a escorrer da testa. Isso significava que meu cérebro estava entendendo a situação de perigo, em um nível mais direto, e tentava me acalmar. Mais uma vez, naqueles poucos anos de vida, eu sentia o cheiro do meu medo, ao mesmo tempo que tentava entender como tanto conhecimento de medicina estivera morando em mim esse tempo todo.

Medicina! É isso! Pra feira de ciências daquele ano, eu fiz um trabalho sobre o cérebro humano, e como meu colégio pecava em provisões de laboratório, eu me meti dentro do IML para conhecer de perto o meu objeto de estudo. Um perito encarregado, ao ouvir meu pedido, sorriu por baixo do bigode grisalho, antevendo minha reação ao que ele poderia me mostrar. Era um negão super gente boa, com fala mansa, aquele tom de voz que o Barry White sabia fazer, e tentou com umas três perguntas me dissuadir de ir pra sala do morgue. Eu até estava tenso com a preocupação dele, mas por mim, nada me preocupava.

Seguimos pelos corredores escuros, mal iluminados. O IML era tudo que se precisava para um filme de zumbis. Era mal preparado, fedia muito, era sujo. E as pessoas que estavam ali por motivos menos científicos que os meus, pausavam lentamente seu luto para olhar aquele moleque andando atrás do encarregado, indo direto para a sala onde se reconheciam cadáveres. E eu ia. Um corpo estava sendo preparado para uma turma de medicina que chegava dali a uma hora. Era um homem, mendigo. Morrera de inanição.

O nome do encarregado era José Pedro. Ele descobriu o corpo, e ficou esperando a minha reação de moleque assustado com um divertimento no olhar.

Não vou mentir: aquilo fedia mesmo. O rosto estava enrugado, e assim como as mãos erguidas, estava com uma expressão de última súplica. Não parecia uma pessoa mais, era um boneco. Como os manequins de loja. O abdome estava todo esticado e afundado, como se ele tivesse perdido os órgãos internos da barriga. Era realmente um zumbi de filme. E já tinha sido um pouco aberto.

Seu José me explicou que tiveram que abrir para confirmar a causa mortis, mas o crânio tinha sido aberto para a aula a seguir. Eu hesitei em pôr as mãos no tampo, que estava apenas encaixado, mas só porque a caspa do mendigo parecia pior do que a minha. Com um quê de surpresa, seu José captou minha intenção e, incrédulo, me ofereceu um par de luvas de látex, me explicando que eu teria que ter certeza de que ia usar: as luvas não eram fornecidas pelo governo, eram compradas pelos médicos, e seria triste ver desperdício de uma única que fosse. Confirmei.

Antes de ir ao meu intento, passei a mão pelo rosto do cadáver. Ainda estava experimentando o tato com as luvas, folgadas pra mim, e queria saber a consistência daquela pele que parecia de cera. Quando toquei o rosto, o tampo se abriu, porque a pressão que o continha era muito tenue.

Observei a consistência rugosa do crânio, com algumas membranas de gordura meio soltas, e vi o molde daquilo que procurava, a massa cinzenta e cheia de nervuras que podia imaginar guerras, amor, poema, receitas de culinária, tristeza, alegria, movimento... e agora estava ali, indiferente, pronta para uma função muito diferente de quaisquer outras que tivesse durante a vida: o esclarecimento.

Aquela lembrança tão detalhada, profunda e macabra, daquela manhã no IML, começou a fazer efeito. Uma paz se fazia sentir, e minha parte convalescente começava a se aquietar. A bandagem estava branca, ótimo sinal. O que quer que tenha me doído, não tinha sangrado tanto a ponto de me assustar. Entendi que estava com muita vontade de ir ao banheiro, e fui sem maiores problemas. E voltei para minhas lembranças.

O engraçado com ambientes limpos à base de formaldeídeo é que o cheiro vira automaticamente uma memória viva. O que quer que tenha te feito cheirar formol, faz com que esse cheiro se entranhe na mente, sem escalas. E com ele, tudo que você fez naquele lugar também ganha um lugar de honra nas suas memórias. Sério. Não importa se você namorou a menina mais linda do colégio, não importa se um teatro de 400 lugares lotados te aplaudiu, não importa se você trocou de corpo ou viajou no tempo, aquele cheiro fica à sua disposição para sempre. Tudo que ele abarcar também.

E eu voltei na lembrança, para ver de novo a expressão de curiosidade de seu José sumir aos poucos, dando lugar à incredulidade. Ele estava assistindo enquanto eu tocava no cérebro exposto à minha frente. Eu tentei, com sutileza, separar os nódulos na região central do cérebro com o dedo, e não conseguindo, desisti. Foi quando aquilo aconteceu.

Cutuquei uma parte mais traseira do cérebro, com aquele mesmo primeiro intento, e o cadáver reagiu. A mão direita afrouxou um pouco mais a postura de garra, e um suspiro longo e suave saiu da sua boca. Seu José arregalou os olhos, e começou a se aproximar de mim com a clara intenção de acabar com aquela loucura. Eu segurei o tampo solto, e decidi deixá-lo devolver ao lugar de origem. Estendi para ele, e na perplexidade com minha calma, ele o pegou e se posicionou para colocar. Olhava para mim enquanto fazia isso, e acabou encaixando invertido.
– O que foi isso? perguntei, apontando para a mão.
Com um assunto para ocupar a mente, ele respondeu de uma vez.
Rigor mortis. Assusta gente com o dobro da sua idade. Ou mais velhos. Metade das aulas de anatomia nós temos que pegar um estudante que desmaia quando testemunha isso. Você sabia que ia acontecer?
– Bom, eu andei lendo sobre o assunto, tem alguns livros de anatomia no meu antigo colégio... E eu li Mary Shelley também, acrescentei – Frankenstein.
Enquanto discorria sobre pontos de estímulo, reações cerebrais, funções dos setores do cérebro, essas coisas que foram me caindo nas mãos erraticamente e eu armazenava ainda frescas, a expressão do rosto de seu José se aproximava do choque. Reagia cada vez mais mecanicamente, até que resolvi deixar ele em paz, e fui embora. Na saída, ele me recomendou não desistir da medicina, tentar um curso iniciante na Cruz Vermelha de primeiros socorros... Ia ver.

Ali, de pé no banheiro, pensava naquela expressão, assim como na incredulidade do diretor do colégio quando eu contei o que estava fazendo pela Feira de Ciências do colégio. Comecei a lembrar que a incredulidade ia passando de rosto a rosto, o colégio resolvera me ceder "material adicional" para o trabalho, consistindo basicamente de xerox grátis para meus panfletos e um cérebro de cerâmica. A professora de ciências passou no meu "stand" por 30 segundos, e anotou na ficha dela e no canto do meu trabalho "10, com louvor".

Com essas lembranças, percebi que tinha encontrado uma arma. Não sabia bem qual, ou onde e como usá-la, mas minha mente me dizia que havia um novo tipo de controle para trabalhar com as situações. No meio das minhas pernas, minha pequena múmia latejava lentamente, dor branda, em repouso. Os antiinflamatórios estavam funcionando, e isso me enchia de sono.

domingo, janeiro 31, 2010

Amor Dói: Revanche (1)

Até ali só tinha um jeito de definir aquela noite: PIOR. DA. VIDA. Eu ainda não conhecia ressaca de vodca, então realmente era difícil de pensar em coisa pior que não ter posição pra dormir. Além do óbvio, aquele monte de suturas mumificadas, o corpo inteiro doía da tensão do dia anterior.
Senti o ruído branco aparecendo, disposto a apagar tudo e jogar pra um canto da cabeça onde seria menos doloroso. Não era hora ainda, e não sei se queria algum dia perder a lembrança daquilo que acontecera. Fui criança, fui homem, fui gente. Saí de lá diferente, e não entendia ainda o quanto, mas sabia que aquela experiência seria um novo Norte na minha vida.
Fiquei a noite inteira me distraindo, usando de recursos de memória para passar cada minuto; de vez em quando, tentava mandar o "om" pra regularizar as coisas, mas as coisas não queriam sossego. Tentei fazer xixi, mas a urina encheu a bandagem por dentro antes de sair, e o sal passava por cada cantinho cortado e costurado e fazia tudo arder.
Mas, com relutância, o dia foi chegando. As pessoas se mexiam na calçada lá embaixo, o sol nascia devagar... e a dor falava comigo, cada hora uma sílaba disconexa de um discurso pro qual eu não tinha resposta, ou com o qual podia me conformar. Sentado, em pé, de lado, de bruços, nenhuma posição dava menos incômodo que a anterior.
Devo ter apagado, já era hora de trocar o curativo.
Fomos ao dr. Flávio, e nem me lembrava nessa hora de qual luta foi travada e quem saiu vencedor. Tentava encontrar uma posição da qual partisse menos dor. Chegada a minha vez, ele mal falou. Pediu que mostrasse, e imediatamente se pôs a tirar os esparadrapos.
Por ver um pedaço de gaze, eu supunha que o esparadrapo estava ali apenas para sustentação do curativo. Triste engano: eu e o esparadrapo estávamos bem mais íntimos do que eu desejaria. E estava preso em espiral.
Sem muito cuidado, o urologista foi puxando aquelas camadas de adesivo sobre uma carne que nunca tinha visto o ar livre, e em seguida sobre seus pontos. Imagino que não havia maneira delicada de se fazer aquilo. Se tivesse, não creio que fosse uma técnica ao meu alcance naquelas circunstâncias. Portanto, se eu pensava que estava doendo antes, agora eu sentia saudades daquela pequena perturbação. Tinha um grito preso na minha garganta com aquela nova sensação em vista.
Vi meu novo pênis, com suas suturas pretas. Parecia uma coroa de espinhos, numa costura em forma de anel ao redor da cabeça. Sangue coagulado devia estar misturado naquela bagunça, e alguns pontos brancos de cola estavam ali perto.
Naquele momento, o dr. Flávio pediu minha atenção. dali por diante, alguém teria de fazer esses curativos em casa pra mim, ou eu mesmo, e era bom que eu aprendesse a lidar com aquilo. Dessa vez gastando bastante gaze, ele me mostrou o que fazer para manter protegida essa cicatriz em processo de recomposição. E me alertou: era de suma importância que eu não tivesse nenhuma, mas nenhuma chance de ereção nesses próximos seis ou sete dias.
Acontece que a tal coroa era realmente um anel de pontos, e eles foram dados logo abaixo da glande com o diâmetro do amiguinho em repouso (sic). Se eu sofresse a dilatação de uma ereção, todo o corpo do pênis cresceria, menos os pontos. O resto ele deixou em silêncio, por conta da minha imaginação figurar decapitações expontâneas no meio da noite.
Ao voltar para a sala de espera, explicou para minha mãe que a única coisa que eu deveria tomar cuidado era com levantar pesos e outros exercícios puxados, mas que eu estava liberado para caminhar e ir aonde quisesse. Por meu lado, não me sentia liberado nem para mexer as pernas, mas ele devia saber do que estava falando. Andando que nem um velhinho, enquanto a dor constante tomava patamares aceitáveis novamente, voltamos para casa.
Me lancei ao sofá da sala, e naquela posição mesmo, chapei. Um sono sem muita explicação e com muito torcicolo me esperando foi minha recompensa pela bravura do dia. Acordei com sussurros à porta, em tom de segredo, e assim que despertei ouvi a porta batendo. Minha mãe tinha dispensado Ariana, que vinha me visitar, porque o zelo de cuidar do filhinho pedia que "aquela menina" não entrasse.
Ainda no sono, passou rapidamente pela minha mente se minha mãe entrara em detalhes desnecessários sobre minha atual condição. Pergunta besta. Claro que ela contou em detalhes o que eu estava passando, e eu sei que se olhasse pela janela agora veria Ariana ainda rindo. Ah, dona Patranha... essa foi de lascar. Enquanto ela me contava, fiz uma cara de zangado pra ela, mas secretamente estava satisfeito de não ter que encarar aquele cheiro e sua dona assim tão cedo e nem tão de perto.

domingo, janeiro 24, 2010

Batismo (Ou: Amor dói) – parte final

Acordei, como sempre de bom humor com o mundo, cheio de expectativas para o dia... até lembrar que dia era  esse. Sem café, para começar. Em jejum. Pior ainda, acordei cedo demais, no reflexo de ir para o colégio, eram ainda 7:30 da manhã.
Para me entreter, fiquei lembrando do rosto da Ariana, tão colorido de emoções conflitantes, ainda sem entender o que acontecera, ainda querendo explicações sobre minha situação, ainda usando um vestido de algodão verde-vômito, e já precisando sair. Ela e minha mãe se odiavam sem diálogos ou reservas. Mas eu tinha fé que isso um dia mudaria, já que pretendia ter a ambas por um bom tempo na minha vida.
Me imaginei numa posição de poder administrativo, vestindo terno, usando um cavanhaque cruel, corrigindo o mundo de uma mesa de diretoria. Um diretor como todos os outros, mas secretamente anarquista, e conspirando contra as corporações por dentro. Ariana, nesse sonho, era minha ligação com o submundo, onde raramente nos víamos, mas furiosamente nos amávamos, numa lassidão enérgica dos desesperados. Onde acabávamos num quarto secreto, lençóis negros de cetim, exaustos e discutindo planos de dominação e destruição para transformar o mundo num lugar justo.
O sonho acordado me deu uma tranquilizada, e me fez perder algum tempo: dois minutos, infelizmente. Já havia lido Ilusões, de Richard Bach antes, e lembrei do truque do ensimento Messias: pegue qualquer impresso, abra em qualquer página e leia qualquer parágrafo: um ensinamento para sua situação presente aparecerá. Me aproximei da nossa estante de livros, e enviesado a ela, olhando para o outro lado, apanhei um livro e abri, e só olhei direto para ele quando consegui fincar um indicador numa das folhas.
Era o livro de meditação e do-in, o do diagrama exótico de ontem, mas agora falava de meditação. Vaticinava que era necessário, algumas vezes, a meditação para alcançar uma tranquilidade quando tudo o mais falhava. Seguir posição da pagina xx, e a respiração correlativa. Uma vez atingido aquele estágio de meditação, o sentimento focal o acompanhava por muitos anos, podendo ser acessado nas mais diversas situações.
Certo. Bom recado. Fui à página xx, analisei a posição, fiz o mais parecido possível, já que não nasci com coxas capazes de fazer o raio do lótus, e segui a respiração descrita ao lado. Manter a sílaba sagrada Om pronunciada, baixo, a despeito da passagem de ida ou vinda do ar. Ok. Ainda bem que faço natação, dá pra brincar com o ar. Vamos ver.
Om. Pouco depois de fechar os olhos, estavam abertos. E eram nove horas. Po, esse negócio de energia alternativa devia vir em caixa de cereais, fácil desse jeito.
A roupa estava do meu lado. Ridículo, pensei, me vestir pra ficar pelado. Não estava com sentimento nenhum, não conseguia ficar triste, nervoso, fraco, arrogante, engraçado, nada. Era uma folha de papel naquela manhã, e todos os trejeitos e macaquices normais da minha mãe, dedicada ao esforço de me ajudar, e de ser notada no papel, só me fizeram um sorriso leve. Via meu próprio estado e não entendia, como podia me olhar de fora, e o que estava acontecendo comigo? Nada de Muad'Dib, nada de revolução, quase nenhum sentimento a não ser o buscar dos eventos que estavam no imediato porvir. Dessa vista de fora, olhava para minha mãe, e percebia que até ela se acalmava, mais por estranhamento que qualquer coisa. Olhando de novo para mim mesmo, estava de olhos fechados. Mas que coisa estranha! Via até um rapaz de camisa amarela atrás de nós, dedicando uma discreta atenção aos dois. Não, isso eu estava imaginando, não tinha como eu olhar atrás de mim estando de olhos fechados.
Chegamos. Abri os olhos assim que vi minha mãe começar a se levantar, e na desculpa de dar passagem a ela, fiquei de lado no corredor do ônibus. O rapaz estava lá! E se levantava, parecia atento ao ponto, ia descer com a gente.
Descemos, minha mãe afogueada no papel de pessoa dedicada, eu tão expressivo como um copo d'água. No meio da calçada, me virei para minha mãe, olhando para ela e para o redor dela, e um instante antes que acontecesse alguma coisa, a abracei. Ela respondeu ao abraço na mesma hora, num instinto materno, e meu braço pôde fechar a boca da bolsa sob o braço dela. As unhas quebradas do rapaz, na mão rapinante, me arranharam. Num último olhar de raiva pelo golpe frustrado, ele olhou para trás e nossos olhos se cruzaram. A raiva cristalina e ameaçadora sumiu num apagar de luz, de seus olhos, e ele seguiu andando como se nada tivesse acontecido.
"Ô filho, você está nervoso, né? Eu também, esse tipo de coisa tinha que ser feito quando você era mais novo, para não ter lembranças da dor, e do processo todo... Mas apesar de tudo, vai dar tudo certo, viu? Vai ficar tudo direitinho, você vai ver!"
Voltei a andar ao seu lado, e logo na nossa frente, as letras ABBR estavam pintadas em azul, e no pátio interno das instalações do Jardim Botânico, já via funcionários transportando cadeiras, cilindros, macas, entre os prédios. Todos de uniforme, com aquele ar de quem viu mais do que precisava para aquele dia ainda tão novo. Em muito pouco tempo, eu já estava tirando a roupa, num quarto esterilizado, e a enfermeira me entregava aquele vestido de paciente, e uma lâmina de barbear descartável. "Para limpar a área, pode usar o banheiro do quarto. Quando terminar, vista a camisola e me avise aqui fora." Saiu sem esperar perguntas. Ok.
A meia dúzia de penugens que precisavam de algum cuidado saíram em três passadas da lâmina, e no instante seguinte estava deitando-me numa maca para a sala de cirurgia. Foi alguma nesse momento, a enfermeira me entregando um comprimido para dissolver na boca, a palavra cirurgia, minha mãe se despedindo de mim como se fosse meu enterro, que a mágica passou. Entendi de repente que ia enfrentar uma coisa desconhecida e que ia intencionalmente me cortar, me transformar, me envolver em um processo. Virei um bichinho assustado e choroso. Acho que não terminei nenhuma frase que comecei, e perguntas terminavam em súplicas, quando terminavam em alguma coisa.
Uma enfermeira me colocou um anteparo, e disse sem ninguém perguntar, "para você não ver". Era uma mulher de rosto agradável, o que quer dizer que eu a achava bonita, com cabelo preto e usando batom. Não sabia que enfermeiras usavam batom. Ela me olhou enquanto eu a examinava, e eu aproveitei para ser coerente em algo: "você pode ficar aqui?" Ela disse que era a função dela, e me disse que se quisesse poderia segurar minha mão também. Claro que eu queria, estavam aplicando as anestesias. Tinham limpado tudo com algo como iodo, ou talvez já fosse o povidine naquela época, e eu contei quatro pontadas onde não queria nem a gaze passando. Pararam de mexer em mim por uns dois minutos, e uma outra pessoa perguntou, "sente isso?" e me deu um peteleco na glande. "Claro!", respondi, e todos se entreolharam. A cabeça do dr. Flávio despontou sobre o pequeno anteparo no meu quadril, e a mão dele balançava meu pênis de um lado para o outro enquanto ele perguntava "o que eu estou fazendo?" e eu respondia "balançando meu..." sem conseguir terminar a frase. Uma falta de ar absurda tomava conta de mim. Algo estava errado. Uma ereção estranha e incompleta começava a acontecer. E eu sentia tudo.
O dr. Flávio deu a volta na mesa, interrompendo uma frase dirigida a ele no caminho com um gesto, e me encarou. Na mão ele tinha um bisturi, que me mostrou.
"Olha só," ele explicou, "eu vou fazer a sua cirurgia, e você vai achar que está sentindo alguma coisa. Mas não vai ter dor, porque você está anestesiado. Entendeu?" Aquele homem sério estava com raiva na voz, e eu era um menininho incapaz de contrariar nem um pé de alface. Ele voltou a se posicionar no meio das minhas pernas, atrás do anteparo. Senti uma mão apertando meu pênis, que já estava quase em pé sozinho, e numa ordenha ao avesso, começando pela cabeça, indo até a base, retirou todo o sangue que já se acumulava no meu corpo cavernoso. E senti alguém pegando minha mão.
A enfermeira bonita tinha posto uma máscara, e olhava para mim, sua mão dentro da minha. Senti um puxão no prepúcio, e entendi que minha batalha começava. As informações do meu tato ficavam confusos, à medida que o pânico se instaurava, mas percebi que se demoravam para realmente começar. Recolhi as pernas por reflexo, e imediatamente foram recolocadas no lugar com decisão, mas não com brutalidade. Suava frio, realmente, pela primeira vez na vida. E apertei a mão na minha, para logo depois soltar: não queria machucar a moça.
Ela me encarou, e disse: "pode apertar minha mão, é pra isso que ela está aí" E num rápido relance para o médico, voltou para me dizer "pode xingar também, se quiser". Percebi que não era o único que não gostava mais do dr. Flávio naquela sala. Sua pronúncia era perfeita, como se ela estivesse me ensinando português. Ajeitei a mão dela dentro da minha, pois sabia que se apertasse só os dedos dela seria ruim. Pra ela.
Sem a menor necessidade, no meio daquela mexeção toda entre minhas pernas, ouvi o aviso "lá vai", e imediatamente uma pontada onde não queria sentir nada. Não naquele momento. Apertei os dedos dos pés entre eles, estiquei as pernas o máximo que pude, contraí o abdômen, o peito, ombros, braços, e a mão da enfermeira, e toda aquela tensão foi saindo do meu corpo pelo mesmo caminho, enquanto sentia os cortes em laivos de dor aguda, minha mão encaixada na dela traduzindo dor, frustração, medo, agústia...
Então eu olhei pra ela. Não era a mesma pessoa que estivera ali antes, era uma personificação! Como se uma entidade tivesse silenciosa e discretamente baixado naquela moça atenciosa, gentil e bonita, agora eu via um poder dentro dela! Um aspecto que apenas muito tempo depois eu entenderia, como se cada mulher tivesse uma capacidade de acessar o molde-mestre de todas as mulheres do mundo, e de lá trouxesse um aspecto da Mulher Primordial, uma Deusa que deixava uma centelha em cada mulher do mundo ao nascerem, enquanto ela mesma era todas juntas, somadas. Via ali o aspecto da curandeira, a que atendia os feridos da batalha, e enganava a própria Morte, se não a da carne, ao menos a do espírito. Vi seu rosto comum, humano, como se fosse feito de mármore, e ela olhava para mim para dar, não a tranquilidade, mas a chancela de que tudo estaria certo ali sob supervisão dela, uma supervisão mística para a qual nenhuma força humana poderia opor resistência.
O olhar daquele rosto serenamente me dizia "LUTE". E ali indefeso, quase achei ridículo, até entender que estivera guardando a dor e o rancor dentro de mim. Estivera engolindo ele todo.
Sem mexer meu corpo, relaxei a musculatura. Cravei minha mão na daquele Aspecto da Deusa, sem medo, e olhei para o teto. Saiu uma voz de dentro de mim que eu nunca produzira antes. Seca, lenta, pausada, determinada e cruel.
- Seu filho da puta. Eu quero que você entenda que nada vai dar errado aí embaixo, independente de quanto você esteja nervoso. Eu estou sentindo sua faca em mim, e vou sentir também a agulha dos seus pontos, e vou passar por isso como um homem, entendeu? Eu quero que você se foda por ser um escroto, mas você não vai ser mais esse escroto comigo, porque você não é mais capaz disso. Não é.
E fechei os olhos. Busquei aquele ponto central da meditação, onde eu era coerente comigo, e percebi que não sei de onde eu tinha vindo para chegar ali. Não sabia ser a pessoa que falou aquilo, creio que nunca mais saberia ser, mas quando voltei daquela atitude mental para buscar o ponto de Om, sabia que tinha sido claramente entendido. Como se fosse um comando, os toques e cortes assumiram um outro ritmo, quase que eficiência despida de arrogância. Os pontos deviam ser poucos, porque não consegui contar mais do que algumas pontadas. Vi quando ele se afastou da mesa, para sair, e senti os curativos sendo feitos por outra pessoa. E senti que alguém tentava sair da minha mão.
A enfermeira fazia um gesto discreto para me lembrar que ela ia precisar daquela mão de novo, algum dia. Meus dedos estavam enrijecidos, e não sei quanta dor havia aplicado na mão dela. Mas, a se julgar pela expressão dos olhos dela, não foi pouca. Falei um "obrigado" que saiu fraquinho, e vi um sorriso nos olhos dela. Depois, não a vi mais.
Estava completamente sem noção do mundo quando cheguei no quarto, e fiquei assim por um tempo, desnorteado, meio apagando e voltando sem muita coerência no que falava. Ainda tenho essas lembranças. Acho que minha mãe esteve lá, acho que ela saiu, acho que ela voltou com um sanduíche. Comi sem reparar o gosto, ou mesmo que a bandeja estava apoiada no meu quadril: a anestesia estava funcionando, agora.
Devo ter rido disso, mas não por muito tempo. A enfermeira chegou, com os papéis de alta, e instruiu minha mãe para voltar no dia seguinte ao consultório do dr. Flávio para trocar o primeiro curativo. Tinham se passado três horas de internação, e já queriam desocupar o quarto. Minha mãe ia objetar, mas eu interrompi.
"Devem ter pessoas em condições mais graves que a minha, mãe, precisando do quarto. E eu não quero ficar aqui dentro tendo ataques de chiliques ou me melindrando com coisas que só eu sei se são reais ou não."
Falei isso olhando para a enfermeira o tempo todo, e à palavra "chiliques" ela reagiu com uma silenciosa e discreta aprovação.
Fomos para casa de táxi, já que minhas pernas estavam muito bambas. Tinha passado por uma prova única, e nela encontrara novas forças e fraquezas para aprender do que eu era feito por dentro. E do que o mundo era feito por fora da minha bolha protetora.
Fui batizado.

sábado, janeiro 23, 2010

Batismo (Ou: Amor dói) – parte 5

O sentimento de novo mestre da humanidade foi sumindo nos dias que vieram, e foi dando espaço a um sentimento de execução iminente. Ia doer? E se errassem alguma coisa? A inquietação não melhorava quando eu passava pela sala, onde dona Patranha colocara um aviso ocupando uma folha inteira de A4:
23 DE AGOSTO
CIRURGIA OSVALDO
10:00 EM JEJUM
Onde eu comecei a ler
23 DE AGOSTO
GRANDE EXECUÇÃO DO PINTO DO OSVALDO
FARTA DISTRIBUIÇÃO DE COMES E BEBES
TRAJE ESPORTE FINO – BINGO
APÓS O EVENTO DISTRIBUIÇÃO DA FILMAGEM EM VHS!!!
E se parece exagero, basta pensar que minha mãe comentava o assunto com ares de gravidade e um estranho respeito, mas comentava até com o quitandeiro:
– Seu Zé, me vê uma dúzia de bananas?
– Uma dúzia? A senhora leva só meia!
– É, mas MEU FILHO VAI FAZER UMA CIRURGIA E NÃO QUERO QUE ELE FIQUE DESNUTRIDO, SABE?
– Tá certo, dona Patrícia. Mais alguma coisa?
– Sim, me vê meio quilo de inhame, que É PRA PREPARAR MEU FILHO PRA CIRURGIA, INHAME É BOM PRA QUEM ESTÁ SE RECUPERANDO DE UMA CIRURGIA, NÃO É?
Quando todo mundo começou a olhar pra mim como se eu tivesse um gêmeo agarrado, ou um terceiro braço, eu entendi que os dias de ajudar minha mãe na rua estavam contados. Mas eu realmente corri pra casa quando ouvi a pergunta que não queria nunca, jamais ter ouvido:
– Cirurgia? Mas ele parece ótimo! Vai operar o quê?
Pode parecer uma besteira, mas imaginar minha circuncisão como tema de debate de todo o comércio local, mais os porteiros, as vizinhas, e seja lá quem tenha passado no caminho da minha mãe naqueles dias, me fez ter muita vontade de ficar em casa. Ou de mudar de planeta, mas ficar em casa parecia mais coerente, já que o Cabo Canaveral ficava muito longe.
Senti muita saudade da escola pública que frequentava no subúrbio, num período que não pude morar com meus pais. Foi lá que aprendi a gostar de ler, na biblioteca pública que eles mantinham, e foi lá que tive acesso a moderna enciclopédia de educação sexual (ou lá o nome que tivesse o relatório Kinsey), que li até o tomo três de cinco, quando me flagaram e isolaram a estante inteira. Ainda assim, era muito melhor passar duas horas lá a título de estudo, lendo Júlio Verne, Monteiro Lobato, Maravilhas da Modernidade, alguns gibis, o que estivesse dando sopa. Muito, muito melhor que voltar para a casa da minha avó.
Nessa depressão comecei a olhar para os livros da minha mãe, que remontavam de uma época anterior à minah vinda ao mundo, uma época onde ela não era a mãe vigilante e isolada de contatos que depois se tornara. Relatório Hite, Erich Von Däniken, Richard Bach, Edgar Allan Poe, mais alguns sobre massagem, do-in, chakras. Hmm massagem. Comecei a ler.
Uma boa parte dos dados entrava na minha cabeça sem muito significado, pois os livros que estavam ali defendiam que você pode apertar o pé para consertar um fígado; apertar a orelha de um certo jeito para regular alguma coisa como "estabilizar o coração"; ou apertar um canto da mão para acertar "a vibração harmônica do útero"
opaaa. Alguém falou em útero? Modo alta resolução ativado, gravando.
Nunca antes eu tinha tentado ler mais de um livro de cada vez, mas tinham um cinco ou seis livros em cima da mesa quando eu me dei conta de que, com títulos diferentes, mestres diferentes, autores diferentes, todos afirmavam que era perfeitamente possível, em resumo, dar tesão em uma mulher apertando-lhe a mão de uma certa maneira. O truque de verdade era o movimento circular do polegar sobre a carninha entre o polegar e o indicador dela. Para dar firmeza, o seu dedo médio ia por baixo, no meio da mão, forçando para cima, enquanto o indicador pegava a mesma carninha por baixo, na forma de um beliscão, mas não machucando. Massageando.
Oportunamente, o telefone tocou. Entenda, era uma época em que a telefonia fixa era uma arte, não uma ciência: planejávamos as ligações, gastávamos de cinco a vinte minutos tentando começar a ligação, e às vezes uns ecos de cano entravam na ligação, ou linha cruzada, ou simplesmente engano. Muito engano. Pegar, ligar e falar era coisa de novela da Globo. Quando eu disse que era oportuno, queria dizer que era Ariana.
Eu não tinha aparecido nos últimos dias, e isso era estranho porque já estávamos há coisa de uns oito meses nos vendo praticamente todos os dias, menos os finais de semana que eu passava com meu pai. Ela decidiu vir quando eu disse que queria ficar em casa e isso era novidade: era sempre eu a ir lá. Por alguma razão, ela e minha mãe não se davam muito bem, e só fui entender alguns anos depois.
Ela veio. E veio com um vestido de algodão tubete justo, verde vômito, da Alternativa (uma marca de roupas vendida na Mesbla). Sem bolsos, o que a fazia levar a carteira estufada de sei lá o quê na mão. Lembro bem do vestido, porque foi quando realmente registrei, num acesso de memória sobreposto ao momento presente, que Ariana simplesmente não usava sutiã. Nunca. E às vezes também não usava calcinhas, como podia notar. Naquele dia, não.
Eu tinha deixado os livros empilhados em cima da mesa, mas fechados. Menos um, que mostrava um complexo diagrama indiano dos fusíveis da alma ligada ao corpo, ou qualquer coisa assim que não tinha entendido ainda, mas era impressionante.
Ela foi perguntando o que estava acontecendo comigo, se eu estava inteiro e não ia na casa dela. Sentei-me com ar grave na frente do livro, e isso fez ela se reposicionar na minha frente. Dessa vez com a janela ensolarada nas costas.
Como eu podia imaginar a se julgar do algodão (dona Patranha já trabalhara com roupas, tecidos e figurinos antes de ir para a editora que estava agora), a luz passava diretamente sobre ele, deixando uma silhueta nua na minha frente. Sentado, cabeça baixa no livro, ar grave, apenas olhei para ela, sem ser notado. Olhei bem no meio das coxas grossas e torneadas.
E lá estava. Grandes lábios, encapsulando vagina e sua pequena pérola, o clitoris, e dali o canal vaginal, e logo acima (valeu Kinsey!) o útero. Pacote completo, mais uma Ariana em volta! Acho que poderia levantar o tampo da mesa, se a mesa colaborasse e descesse uns vinte centímetros até o meu  impávido canal único de reação.
Ela acabou com o show, sentando-se do outro lado da mesa para me encarar. "Porra fala alguma coisa", ela pediu delicadamente.
Eu dei uma explicação muito ruim em qualquer escala sobre ter que operar em breve, e estar estudando umas técnicas de relaxamento. Que minha vida estava mesmo em grandes mudanças, ano que vem teria que mudar de colégio, se desse tudo certo até lá. "Cara ouvi dizer que o Liceu é bom, mas porra Valdo o que que você vai operar, cacete?" e eu quase soltei um "EXATO!", mas me segurei, fiz uma cara de ascetismo à beira do sacrifício e mandei, "Não importa. Quero saber se aprendi direito".

"Segundo o que eu li, o corpo tem muitos pontos de contato com áreas internas e estados de humor". Disse, enquanto pegava sua mão. "Este aqui serve para relaxar, então me diz o que você sente, tá?"
Ariana estava meio desconcertada ainda, sem saber se adotava a Atitude Caminhoneiro para Contatos Físicos com Osvaldo (TM), ou o quê; deixou que pegasse sua mão.
Por uma tacada de sorte, acertei como nunca na vida acertaria essa manobra tão depressa: duas pequenas e suaves voltas do polegar, e o corpo dela já reagiu. A sequência foi bastante rápida? Pelo que me lembro, sim: os pêlos dos braços se eriçaram; o rosto, tão branco, ficou rosado; os mamilos se intumesceram (nem sabia que eles realmente faziam isso); as pupilas se abriram, assim como a boca, levemente; a mão livre da Ariana me acertou um catiripapo no pé do ouvido.
Ela puxou a mão, sentindo-se violada, e fazia menção de ir embora quando viu o cartaz da minha mãe na estante. Do lado, os documentos do laboratório com exames e autorizações. Virou-se para mim, sobressaltada, e esquecida do ultraje, perguntou "é sério mesmo? Você vai operar amanhã?" Eu confirmei, a cara doendo e o orgulho também (afinal agora ela batera num doente). "Mas operar o quê, caralho?" E eu, apertando o riso mas fazendo cara de sóbrio sofrimento, disse "fimose", simplesmente.
Nesse momento, minha mãe irrompeu no apartamento. Vendo Ariana, fez um ar de choque, daqueles que se faz quando os índios começam a invadir a sua casa no Oeste pela manhã. Ariana automaticamente se despediu, prometendo falar depois comigo.
Com a saída dela, dona Patranha veio à carga, para advertir sobre os males de se abrir a porta de nossa fortaleza aos traiçoeiros comanches. Ou algo assim, já não ouvia muito.
*** JÁ SABE QUE CONTINUA, NÉ? ***
*** TRAJE ESPORTE FINO! TRAGA ROUPA DE BANHO! ***

sexta-feira, janeiro 22, 2010

Batizado (Ou: amor dói) parte 4

Conquistar o mundo: quantos significados podemos dar para isso? O seu mundo certamente não tem a mesma fauna, cor, forma, tamanho, significado que o meu.
Eu via na escola, meu mundo: meninas que começavam a florescer para a maturidade. Aprendendo a jogar os cabelos, dar olhares, pedir favores e pagá-los com um sorriso. Via nas ruas, meu mundo: mulheres feitas, resolvidas, decididas ou com problemas tão profundos que minha rasa ingenuidade sequer os imaginava. Via na ACM, meu mundo: mais meninas, aqui aprendendo sobre a sua independência em caráter definitivo.
Via nos livros, meu mundo: Marco Polo conquistando a China, Alice conquistando o País das Maravilhas. Via Dune, meu mundo: o ingênuo Paul, se tornando Muad'Dib. Via Tron, outro mundo: a informática assumindo a regência. Via o idioma inglês, e todos os mistérios em canções, peças, citações.
Meu mundo é que não me via. Essa, a série Shell Responde não respondeu: como fazer para ser alguém relevante ao seu próprio contexto? Podia ter ligado para o Bozo, mas ele só queria que eu gritasse "POW!"

Falando nisso, a terça-feira chegou e meu pai também. Sentou-se comigo no banco de trás do carro, não disse nada boa parte da viagem, e quando disse, alinhavou qualquer resíduo que tivesse entre nós.
– Esse Dr. Flávio... (me encarando diretamente dentro dos olhos) ... eu verifiquei ele. Fique tranqüilo.
Por um breve momento eu imaginei uma máfia lusitana, pondo aquele outro infeliz dentro de um balde de cimento seca-rápido, as mãos amarradas, enquanto meu pai fumava um charuto e falava ao telefone com algum assecla do submundo sobre as referências do Dr. Flávio.
"Cont'nue, ó pá... Então, este é um doutoire muito gira, hã? Foi iéle que cons'rtou o João, das Docas? Ah..."
Concordei uma vez com a cabeça, gesto muito chique, que vi os japoneses de seriado fazerem várias vezes. E olhei para a paisagem, porque o breve momento de imaginação ia se alongando e eu ia acabar gargalhando na cara do meu pai. De quem, afinal, não tinha muitas reclamações: esteve lá, ainda que às vezes, e pronto.
O Dr. Flávio, afinal, era um senhor sério, porte militar, casa dos 40 e boa forma. Levava sua atividade tão a sério que eu juraria que não ficava vendo pinto dos outros nunca. Comecei a achar que estava lá pra operar as amídalas, sei lá.
O homem cumprimentou a mim, depois ao meu pai (o que me deu uma noção de importância nunca antes vista), ouviu atentamente as poucas informações que um caso deste suscita, e se levantou. Cenhos franzidos, agradeceu ao meu pai, e pediu-lhe que esperasse lá fora, pois o paciente precisava de privacidade. Enquanto minha nova noção sobre mim mesmo me deixava zonzo, meu pai foi saindo, meio reticente e olhando pra mim. Entendi o recado, e sem uma palavra sabíamos que ele estava prestando atenção em qualquer reação que eu tivesse, meio decibel que fosse fora do normal. Eu me sentia realmente alguém. Nem tinha notado que me levantara da cadeira, também.
Assim que ficamos em particular, o doutor sentou-se à cadeira do meu pai e me olhou. Quase na mesma altura. Sem encostar a mão em mim, ele me comunicou muito sério que precisava me examinar, e ainda ia ter que me pedir um favor chato: eu teria que ter uma ereção, pra ele entender a extensão do problema.
Tenho certeza que ele fez isso para ser educado. Naquela época, era mais difícil lembrar como se piscam os dois olhos do que isso. Bastava lembrar daquele, daquele cheiro, e mais um mundo de detalhes vívidos em minha mente e lá estávamos, prontos para ação: o Terror dos Sete Mares e sua Espa- ops, e seu punhal.
Fiz simplesmente abrir o zíper e baixar a cueca. Ele forçou a vista, e muito constrangido, sugeriu que talvez precisasse de mais luz, porque "as roupas estavam fazendo sombra". Muito educado. Baixei tudo e levantei a camiseta. Ele encarou meu membro (que no momento estava fazendo uma ereção de figuração, a contragosto, James Dean parado na esquina) por uns vinte segundos, e eu me dei conta de como estava satisfeito que aquilo parecesse apenas chato. Antes chato que a outra opção.
De repente, ele puxou o prepúcio pra fora, esticando-o, olhou lá dentro com uma lanterninha que tirara do bolso do jaleco e tentou fazer a glande aparecer. Entendeu que não ia dar certo quando me encolhi para trás: só a parte da uretra aparecia, e a pele estava já se esticando muito. Largou na mesma hora, e minha impressão do sujeito era crescente: um médico que era médico. Sabia, definitivamente, o que estava fazendo.
Pediu para eu me recompor, o que eu já estava fazendo mesmo, e explicou que seria necessária uma curta intervenção. O prepúcio teria que perder um pedaço, e isso não tinha nada de mais, a não ser por um detalhe que ele não deixaria de cuidar: o cabresto. Que, ante minha evidente ignorância para com o termo, ele explicou ser um conjunto de carne tensionada, por baixo da glande, que garantia não apenas a ereção e a sustentação da glande, mas minha sensação de prazer.
Voltou a afirmar que cuidaria com especial atenção do cabresto, que aí me lembrei ser aquela peça para conduzir cavalos, assim como cuidaria também de não deixar cicatrizes dos pontos, feitos com linha que se dissolve no corpo. Eu talvez ganhasse alguns centímetros, com isso. E concluiu, com uma camaradagem masculina que eu via pela primeira vez na vida, um discreto sorriso de negócios no canto da boca, que não podíamos desapontar as mulheres, tínhamos que apresentar um belo espetáculo.
Disse assim mesmo, como se houvesse tido um cabedal de mulheres no meu passado, algumas no presente e muitas mais no porvir.
Numa atitude bem discreta, perguntou se poderia chamar meu pai da antesala para acertar os detalhes. Concordei, e meu pai estava de pé atrás da porta quando foi aberta. Varou o corpo do médico com o olhar, e verificou sem preâmbulos se eu estava bem, inteiro, desamarrado, vestido. Eu estava enorme em meu pequeno mundo. Me sentia nas rédeas, melhor, no cabresto da minha vida. Paul Muad'Dib indo montar no imenso verme, invencível.


Era para algum dia, em algum lugar, alguma coisa. Mas eu podia lidar com aquilo.

No caminho, o taxímetro Capelinha rodando, meu pai repassava comigo o que acontecera dentro do consultório. Ficou satisfeito com as explicações, embora eu não tenha me detalhado tanto na parte do tamanho, espetáculo e tal. Ele entendeu que tudo ia bem, e ia mesmo, e me informou que precisaria viajar no dia da cirurgia, mas minha mãe iria comigo para o hospital. Numa boa, pensei, sem me tocar naquele exato momento daquela timidez entre filho homem e mãe, e o que eu ia cortar no hospital. Numa boa.

Chegando em casa, fim do dia, recado da mãe da Ariana do lado do telefone. A filha sumira, favor dar notícias. Liguei, ainda sem saber se contaria sobre a modificação revolucionária que me traria um superpênis mágico. Dona Ana atendeu, cansada, e disse que já estava tudo bem, ela chegara e tomava banho. Me despedi, sem pedir que ela ligasse de novo. Ainda não tinha decidido como ia contar, ou se contaria. Talvez fosse melhor simplesmente mostrar que não era mais Clark Kent, e sim o Super-Homem.

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Batizado (Ou: amor dói) parte 3

Entramos no consultório, eu e seu Ulysses, e ele finalmente explica o que estávamos fazendo lá. Eu tinha o problema, era fimose, e o que que o doutor achava. Explica diretamente para o médico, que eu sou só um eletrodoméstico com defeito.
O médico, gorduchinho de cabelos grisalhos e desgrenhados, vira-se para mim com ar de divertimento, e comenta, "eu não posso achar sem ver, certo?" e a seguir se afasta da mesa, e estende as mãos para mim. "Vem aqui um instantinho, pro titio ver".
Fui, né? Meu pai não era de fazer brincadeira com essas coisas, se eu estava num médico era pra ser medicado. Por assim dizer, claro. Cheguei perto, ele se virou na cadeira para me encarar, e com um sorriso de canto de boca, me olhando de baixo, pediu: "deixa eu ver o piupiuzinho?"
Gostar de exame médico, acho que ninguém gosta. Mas tem que fazer, e até uma criança difícil como eu entendia claramente que é assim que é a vida. Estava acostumado a médicos, por causa do problema de pele que ninguem resolvia. Via os bobos, os chatos, os profissionais. Mas "piupiuzinho"? Aquilo ali, na minha frente, era novo. Novo e horrível. Mas mesmo assim eu abri a bermuda, e pus pra fora o que havia para se por. Que no momento, era o mínimo possível. Eu já tinha visto antes o meu pênis em repouso. É, ele que já é pequeno fica minúsculo. Mas naquela hora, ele parecia retraído. Intencionalmente retraído, quero dizer.
O médico estendeu as duas mãos, como se fosse colher um botão de rosa, o que parecia ser quase o caso. E, para minha vergonha, ao toque daqueles dedos, algo que eu ainda não conhecia aconteceu: uma ereção contida.
Numa ereção regular, o corpo cavernoso relaxa, para ser preenchido com sangue e garantir o pênis naquele estado que muita gente já conhece. Grandioso, valente, decidido, apto. Naquela, e ainda em alguns outros momentos da minha vida, o corpo cavernoso se manteve tenso, ainda que o sangue começasse a aparecer na área. A diferença é a mesma que qualquer um pode ver entre um pepino ao natural e um pepino em conserva: tom pálido, tamanho reduzido, densidade estranha. O primeiro, qualquer um corta em rodelinha na cozinha; o outro, só o McDonald's.
Tergisversar sobre o momento é fácil. Eu, ali na hora, tinha no cérebro um ruído branco. Uma pequena parte ainda era a consciência que registrava tudo, havia ainda na borda da consciência uma lembrança semelhante a esta, mas talvez ainda pior, e o resto era a mente se protegendo, negando os sentidos, negando o raciocínio, negando tudo. Enquanto o tal médico tentava expor a glande retraindo o prepúcio. Em tentativas ritmadas. Para quem ainda não entendeu, antes de desenhar, eu falo claramente: ele estava, ali na frente do meu pai, à guisa de exame, me masturbando. Aquele filho da puta.
Depois de algumas estocadas, quando eu entendi o que ele estava fazendo, simplesmente fechei o zíper. Sinceramente, eu nem notaria se meu zíper tivesse tirado minha fimose ali mesmo. Acho que até preferia assim. Ou se arrancaria um dedo dele. Melhor ainda.
O doutor ainda conseguiu se surpreender com minha atitude, com um pequeno "ah!" de susto. Uma memória ruim, bem ruim, mas parecidíssima com essa, brincava no limiar da consciência. Eu a sentia ali, mas não conseguia lembrá-la de verdade. Era ruim, lá dentro da cabeça e cá, dentro do consultório. Parei perto da minha cadeira, e interrompi meu pai no meio de uma frase qualquer para informar que estava esperando ele lá fora.
Ele ficou tão desconcertado, ou já estava antes, que apenas aquiesceu, meneando a cabeça. Normalmente a cerimônia entre nós mandaria que ele me mandasse não interromper os adultos, mas algo que ele viu no meu olhar decidiu por ele.
"Lá fora", de acordo com o que descobri dos meus impulsos, era na calçada. Na banca, onde os jornais pendurados ofereciam algo para se ler. Sir Laurence Olivier falecera. Câncer de estômago. Grande perda para o mundo. O resto da minha cabeça era ruído. Grande perda.
Tomei um sacolejo no braço. Seu Ulysses, com olhos arregalados, me encarava, agarrando meu antebraço esquerdo. Ele talvez tenha dito alguma coisa, gritado alguma coisa, deve ter perguntado se eu fiquei maluco. Não lembro. Lembro apenas que rodei o braço que ele esteve agarrando, passando eu a agarrar o braço dele, e como se fosse um passo de tango, trouxe a minha perna esquerda pra trás da perna esquerda dele, puxando, enquanto o braço esquerdo dele era empurrado pra trás. Só quando ele bateu as costas na calçada, eu comecei a ficar consciente de verdade.
As pessoas estavam prestando atenção, ao nosso redor. O olhar do seu Ulysses era de uma fúria assassina. Ele se levantou com a vista fixa em mim, e me carregou para a outra esquina como se eu fosse um bandido, indo para a cadeia. Chamou um táxi, me levou pra casa da minha mãe e não me lembro se falamos alguma coisa. Acho que não. Havia uma exclamação tão grande entre nós que não podíamos falar.
Entrei em casa, deixei o cartão do plano de saúde em cima de algum móvel, e parei apenas pra telefonar. "Ari, tá em casa?" "Tô Valdo, atendi o telefone, né?" "Tô indo aí.", desliguei. Fui. Minha mãe chegou a me olhar, por um instante, mas não quis ou não pôde, falar nada.

Ariana estava curiosa comigo. Nunca tinha me visto daquele jeito antes. Eu falava, eu respondia, eu contava coisas dos colegas do colégio, mas eu não estava ali. Piscava os olhos de repente, e percebia que olhava para um objeto qualquer há tanto tempo que os olhos ardiam. Ria de nervoso, e não de achar graça.
Ela não fez perguntas. Mas não por respeito, ela não era assim, mas por não saber o que perguntar.
Decidi ir embora, fiz o gestual todo, mas quando ela se levantou, eu pedi um abraço. Ela, compreensiva, mas sem entender nada, abriu os braços. Vi, sem abaixar a vista, os bicos dos seios através da camisa de algodão, as pernas saindo de dentro do short, os pés gordinhos descalços. A cintura. A penugem loura do rosto, os olhos azuis que pareciam de mentira, lindos de doer. E devagar como quem entra num banho quente, abracei Ariana. Uma ereção lenta e intensa pedia licença dentro das minhas calças. Meu coração estava entre parada completa e taquicardia, sem escalas.
Minha boca roçou a lateral do pescoço, de leve, sentindo com aquele tato mais detalhado a textura da pele, e aquele cheiro, aquele cheiro maravilhoso, maior que a vida, o cheiro dela, ocupava minhas narinas ofegantes e ansiosas. As duas mãos se apoiavam na coluna dela, sentindo cada músculo que a apoiava de pé trabalhando. O cheiro dela, ali perto da nuca, adquiriu uma tonalidade acre, que eu não entendi mas era ainda melhor do que antes. O corpo dela estava falando com o meu, e a consciência das mentes não tinha nada que fazer ali. Meu corpo respondia, com meu pau ganhando a maior dimensão que eu jamais podia imaginar. A fimose parecia que ia estourar sozinha, mas não se engane em pensar que doía. Ou, se doía, eu não estava notando.
Os músculos da coluna dela mudaram sutilmente de posição, e uma joelhada me acertou os testículos. A dor me tirou do corpo. Sério, eu vi toda aquela cena de cima, vi minha expressão idiota, enganado, e senti o ar de divertimento dela, a cretina da Ariana. Ela transformou aquele momento de pura sensação num palco estrelado de dor, e ria disso. Ria cada vez mais alto, enquanto eu voltava pro corpo, sentia de volta o peso da minha carne, a inconveniência da minha forma, a rejeição. Eu não era bem-vindo como seu amante, e ela transformava seu gesto de rejeição numa brincadeira, porque minha amizade, essa sim, era bem-vinda.

Sua risada me lembrava alguém, enquanto ela socava meu ombro numa saudação escandinava escondida em seu DNA. Levei muito tempo para perceber como ela era parecida com a Sigourney Weaver, inclusive porque a referência da época era Aliens. E os olhos dela eram cor de avelã. Isso mudava muita coisa, mas era tudo.
Fui pra casa, depois de alguma despedida. A cabeça estava nas nuvens, porque pela primeira vez, sabia onde queria estar. Sabia o que queria da minha vida, qual era minha luta e minha saga, e pela primeira vez entendi que lutaria para sempre pelo direito de me sentir bem-vindo. Lá, onde poderia me sentir em casa como nada no mundo me faria sentir.
Claro que estava irremediavelmente apaixonado, minha cueca estava melada com essa informação, meu corpo inteiro precisava se entregar e esquecer que havia morte no mundo, Sir Laurence que visse sua própria luz: eu sabia o que queria, e ali comecei a virar homem.
Descendo a Mem de Sá, de noite de novo, lá estavam os travestis, e dessa vez eles mexeram comigo. "Oi, gatinho", e convites mais detalhados passavam pelos meus ouvidos como se fosse um batismo: ali estava um homem, pelo padrão deles também.
Chegando em casa, embaraçado, cansado, cheio de coisas para pensar no banho, com aquele novo cheiro da Ariana dentro das narinas, minha mãe me dava o recado: outra consulta, terça-feira que vem, com outro médico. Aquela primeira consulta tinha sido inconclusiva.
"A da semana que vem é com um doutor chamado Flávio", disse minha mãe, perscutando minha reação, que era alívio: fosse quem fosse, aquele miserável não se chamava Flávio, e isso era tudo que eu precisava saber.
O recado tinha ainda um subtexto: "filho, entendo sua reação, mas temos que examinar você direito. Você ainda é meu filho, e sou responsável pelo seu bem estar. O que passou, passou."
Se fosse diferente, ele nunca mais ligaria para mim, nunca mais veria a cara do seu Ulysses Tranho na minha vida.
O mundo, de jeito torto, fazia sentido. E eu precisava conquistá-lo.

terça-feira, janeiro 19, 2010

Batizado (Ou: amor dói) parte 2

No capítulo anterior, os responsáveis pelo Estranho aqui tinham votado pela intervenção clínica, à revelia.
Mas Ariana havia tomado uma decisão, pelo lado dela: pediu que eu fosse até a casa dela.
Chegando lá encontrei com a mãe, dona Ana, que mal falava comigo ou com a própria filha. Cuidava bastante do próprio trabalho, de tradução, lia muito e passava a maior parte do tempo em casa trancada no próprio quarto. Que, por sinal, era fechado a Papaiz, aquela fechadura de quatro códigos. E esse era o sintoma que dava um ar de seriedade às arruaças que a filha narrava. Isso e um certo ar de alívio quando ela abria a porta e via que era eu...
Ariana preferia esperar que nós aparecêssemos para ajudá-la a comer as refeições macrobióticas da mãe. Lembro que estamos falando do ano de 1990, e tudo que se chamava "macrobiótico" aqui era na verdade "com gosto de terra". Eu que sempre fui um português bom de garfo, que gostava até mesmo de chupar ovos crus direto da geladeira, sentia uma grande dificuldade em encarar aquilo. Mas enfim, o que quis dizer é que ela esperava que aparecêssemos, não nos ligava regularmente. Esse dia ela ligou.
Tinha aquele brilho particular no olhar, e logo que nos livramos do macrô, ela foi direto no quarto, colocou uma roupa qualquer, uma mochila e saímos pra rua. Perguntei o que era aquilo e ela disse, "quero chocolate". O resto do tempo, conversava distraída sobre qualquer bobagem. Fui levando.
Saímos de lá pra Mesbla, que era ali perto, o edifício ainda hoje está lá; e nesse dia eu aprendi com a Ariana a roubar chocolate das lojas.
Foi a coisa mais simples do mundo, ela com a mochila em um só ombro, abria o zíper, e sem olhar sequer para os lados, enfiava duas ou três barras lá dentro, daquelas que tinham 200g. Hoje, seriam as de 170g. Eu, que tinha desenvolvido cleptomania aos oito, e logo em seguida retraído quando fui pego pelo pessoal do mercado, suava em bicas. Nada de mais, suar em bicas sempre fez parte do meu charme. Mas eu tremia tanto que não aguentaria nem um gato morto pelo rabo.
Saímos rindo, nervosos, da Mesbla, e começamos a andar pelas ruas do centro. Quando ela olhou para mim, vi em seu olhar, naqueles olhos azuis, que éramos cúmplices. Senti uma confusão de sentimentos, e imaginava todos os finais possíveis para aquela situação, desde começar a ter superpoderes, até começarmos um namoro. Estávamos no Largo da Carioca, nos sentamos e ela me explicou que o Valdir tinha ido na casa dela, levado uma fita K7 do Legião pra ela escutar, e se declarado pra ela. Eu perguntei, "e daí? Vocês..." e ela respondeu tudo. Não, não estavam nada juntos, ela ficava com um sujeito lá do colégio dela, que por sinal a mãe odiava, e que seria complicado pra ele, o cara do colégio dela, entender que ela sequer via outros garotos: ele era muito violento.
"E se um dia ele me vê te cumprimentando?" eu perguntei, na verdade já antecipando que o final daquela conversa não seria bom. Ela explicou que ele já me conhecia, e não tinha opinião nenhuma sobre mim. Eu podia ir e vir onde quisesse, podia até dormir na mesma cama que ela, que ele tinha certeza que eu não ia fazer nada. Na galera dele tinha um cara assim que nem eu, um banana, não saberia o que fazer com uma garota nem que ganhasse um manual sobre o assunto. Ariana contou isso rindo. Em tom de concordância.

Em minha defesa, posso afirmar que na minha fase das manias, lá aos oito anos, quando fui convencido por uma coifa laminada se aproximando da minha mão a não cultivar a cleptomania, parti para a leitura, e nisso devorei obsessivamente metade da biblioteca da escola municipal onde estudava, inclusive o relatório Kinsey de cabo a rabo; sabia mais sobre corpo humano, sexualidade, orgasmo, sexo do que o tal carinha saberia em toda uma vida. Em teoria. Na prática, ele certamente me daria uma surra. A maldita "pegada", que tanto se fala hoje em dia. Nunca tive.

Ou seja, para Ariana eu era um pouco melhor que um urso BlauBlau: eu retrucava. Engolindo o significado daquele esclarecimento, tive que perguntar, "e quanto ao Valdir?" para ganhar tempo mais do que ouvir a resposta.
O Valdir ganhou um beijo de selinho dela, um abraço bem gostoso, e ela pediu que ele parasse de vê-la por um tempo. Mais tarde, quando perguntado por mim, ele fez questão de insinuar, que "rolou alguma coisa", indicando que pode ter havido sexo, ou o tal beijinho, eu que escolhesse o que acreditar. E que não queria saber mais dela, tinha uma outra mina em vista; nem vou comentar sobre a Cleide, ali mesmo na época o meu amigo estava obviamente tentando se afirmar como um garanhão. Que não era, mas vamos lá, ele tentou com decência. Alguma.
Agora éramos só eu e Ariana. Mesmo sendo um urso de pelúcia falante, dane-se, tínhamos privacidade. Voltamos pra casa dela, e já experimentávamos a liberdade de ter o quarto dela só pra nós, aquele cheiro dela em todos os lugares e coisas. Eu podia esbarrar nela acidentalmente, podíamos começar guerras de travesseiros, o mundo fazia sentido.

Voltei pra casa, feliz, excitado, toda uma vida pela frente. Estava anoitecendo. Foi descendo a Mem de Sá, na altura da Lavradio, que o moleque passou por mim, rasgando a alça da minha mochila e correndo à toda para a mesma direção que eu ia. Ali naquele pedaço, era zona de travestis. A delegacia ficava a duas quadras, mas nada se fazia que envolvesse policiais naqueles lados. Pois é, o garoto deu uns três, talvez quatro passos largos, naquela correria com minhas roupas sujas da ACM, e foi pego por uma loira de longas madeixas, de um metro e noventa. Pego pelo pescoço, suspendido no ar enquanto as perninhas balançavam. O loira encarou os olhos do moleque, bem lá dentro, e disse pra ele "roubar aqui NÃO", numa voz tão grossa que um dia eu queria ter uma assim. Eu senti medo, imagine o moleque. Deve ter se borrado nas calças. Largou a mochila, e quando foi respectivamente largado, continuou na mesma corrida de antes, só um pouco mais motivado.

Reavida minha mochila, cheguei em casa, só para encontrar dona Patranha, com ar grave, me comunicando que teria médico no dia seguinte, meu pai iria me levar. "Que médico?", perguntei. "Urologista", ela respondeu. "Agora toma um banho e vem jantar. Que que houve com sua mochila?".

*** CONTINUA ***

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